Quem leu o primeiro Johann Chapoutot traduzido em Portugal – Livres de obedecer, Antígona, 2023 – terá sorrido ao aprender que a prática abjecta e infelizmente tornada corrente, até na administração pública, de chamar ‘colaborador’ ao trabalhador[1] é uma criação de distinto nazi reciclado no pós-guerra e um dos gurus da moderna gestão, Reinhardt Höhn, jurista e general do exército do Reich. O nazismo, como todos os fascismos, é, entre muitas outras coisas, um exercício de torção da linguagem, um gigantesco eufemismo que mal disfarça a crueza do poder nu, a violência, a servidão a que estão votados os seus alvos. E Livres de obedecer, na aparente modéstia do exercício, é mais uma tentativa, informada, crítica e metodologicamente isenta, de nos ensinar que os conceitos que presidiram à organização do trabalho de extermínio no III Reich informam e impregnam a linguagem da moderna gestão, concebida, como sublinha Chapoutot, a partir de um misto de contradições e paradoxos: «Primeiro paradoxo aparente: um antigo SS imagina um modelo de gestão não autoritário. Segundo paradoxo: a injunção contraditória da liberdade de obedecer. […] A consequência destas contradições e desta perversão [a «mentira fundamental» contida na «gestão por objectivos»] é tudo menos teórica: nunca pensar nos fins, estar acantonado ao mero cálculo dos meios é constitutivo de uma alienação no trabalho de que se conhecem os sintomas psicossociais: ansiedade, esgotamento, “burn out” bem como esta forma de demissão interior que agora se chama “boreout”[…]»[2]. Lição importante, a que se segue, falando em traduções, já este ano, uma outra, essa fundamental para compreender, por exemplo, como se transforma um partido que foi da social-democracia até meados dos anos 90 numa extensão da extrema-direita transnacional.

Na verdade, a recente edição em português d’ Os Irresponsáveis, Edições 70, 2026, comporta um apelo à razão que urge seguir com coragem e menos subtileza aparente do que a que vêm revelando os que absolvem sistematicamente todas as derivas autoritárias em nome de uma sofisticadíssima – tanto que se desvanece no ar! – apologia da cedência aos alucinados e gangsters que governam os EUA – país que, em tempos, a França sua aliada brindou com a estátua da Liberdade – ou, portas adentro, ao partido proto-fascista que converte votos numa permissão para insultar, subverter as instituições e procurar suprimir as liberdades fundamentais. E fazem-no, diariamente, jornalistas veteranos e ‘comentadores’ adolescentes, em nome de uma versão mínima e preguiçosa da democracia, que converte votos em razões, ‘boas’ razões ainda por cima, que se encarregam de vasculhar nas suas atulhadas meninges, enquanto os 60 estão sentados na AR, à espera de ordem para gritar ou a fazer vídeos educativos.
E como se intitulam liberais e continuam a ler pela cartilha que lhes vem de uma juventude esquerdista em que descobriram a equação que os iria salvar, aí por meados dos anos 80 – democracia=capitalismo, capitalismo=democracia –, nem lhes ocorre que as democracias viáveis, enfim, as democracias, não são regimes plebiscitários e que os regimes plebiscitários, como a Hungria (veremos se a derrota de Órban veio para ficar) e, em breve, a Itália (da melíflua ex-militante do MSI) ou o Reino Unido (onde quer pontificar Farage), não são já ou estão em risco de deixar de ser, democracias. Sim, o que sugiro, a partir da leitura de Chapoutot, é que procuremos identificar, além do inimigo ostensivo do estado de direito, o adversário político que insiste em lhe dar passagem com o peregrino argumento que o historiador, documentos na mão, brilhantemente refuta. É claro, porém, que o desafio maior se coloca às famosas elites financeiras, empresariais e universitárias que, cá como lá e então, optam por delegar no mais forte o ‘trabalho sujo’ de limpar o terreno para maior glória e proveito dos que ‘merecem’[3], coisa que dificilmente dispensam.
Na verdade, se às nossas elites ofende a ignorância da história revelada pelas crianças que não ouviram falar no bem atestado milagre de Ourique, aparentemente já não as apoquenta a ignorância dos crimes dos fascismos europeus, a banalização da indiferença aos processos da democracia e o assentimento à reacção indignada dos ‘deputados rebeldes’ ao mais singelo convite à simples civilidade no trato quotidiano. Com efeito, tudo isso ‘já é discutível’, como bem lembrou o clarividente deputado Hugo Carneiro ao censurar certa deputada do PS por chamar racistas e xenófobos aos que a mandavam ‘para a tua terra’. E o delírio vai ao ponto de um membro destacado do, há muito extinto, partido democrata-cristão ter afirmado, sem c(h)orar, que o CDS é o original de que o partido vergonhoso seria a cópia!
Não chegou ainda o tempo dos assassinatos políticos ou da conversão dos sectores mais retrógrados das igrejas instituídas à propaganda do partido e às iniciativas de associações e organizações que actuam na sua órbita (o que, atenta a história pregressa de Portugal, não seria difícil também nos redutos do catolicismo ultramontano). Mas já estamos, claramente, confrontados com suficiente evidência empírica de que uma parte dos portugueses aceita a ditadura, acredita que a vida será melhor se poupada às responsabilidades da liberdade e acolhe passivamente a mobilização de bodes expiatórios – hoje os ‘indostânicos’ (sic), amanhã e sempre os judeus. Livres de obedecer, portanto.

Em Os irresponsáveis, Chapoutot proporciona, numa prosa límpida, duas lições decisivas. A primeira, respeitando ao processo que conduz à entrega do poder a Hitler, revela a soberba de quantos julgavam poder controlar o movimento nazi e pô-lo ao serviço da elite financeira, política e intelectual.
Outra, porventura mais interessante, e mais alarmante, a incapacidade que os elementos da dita elite revelaram para interpretar os sinais de declínio do movimento. Porque, como o historiador mostra com brilho, renderam-se a Hitler num momento em que até os seus mais próximos (Goebbels, p. ex.) temiam que o partido nazi se desmoronasse. Salvaram Hitler, ‘fizeram’ o Reich e foram à guerra. Até hoje.
[1] J. Chapoutot, Libres d’obéir, Éd. Gallimard, 2020, p. 109.
[2] Idem, p. 115. Boreout é uma palavra composta que significa «saturação pelo tédio».
[3] Sem querer forçar a analogia, veremos como se comportam os partidos face à proposta de lei do trabalho ora no Parlamento.
João Santos é professor










