Os jovens do Torne na luta por “uma Igreja nova num Portugal novo”

| 24 Set 20

Na década de sessenta do século passado, e até 1974, surgiu na paróquia de São João Evangelista (Vila Nova de Gaia), da Igreja Lusitana, Católica, Apostólica, Evangélica (IL), um grupo de jovens, que se intitulou Jovens do Torne – JT. No princípio englobado na “Liga do Esforço Cristão de Gaia”, foram prosseguindo um caminho ecuménico, alargado a todas as religiões e ateus.

O ano de 1964 foi importante dado o surgimento de uma espécie de rutura naquela Igreja, que não se consumou. Um grupo de cerca de 200 pessoas assinava um manifesto que colocava em causa o acordo com a Confissão Velho-Católica e aproximação à Igreja Católica Romana, mercê do dinamismo do seu bispo D. Luís Pereira, que colocava a ênfase nos primórdios da Igreja Lusitana, como católica, seguindo a sucessão apostólica e o Evangelho.

O manifesto refutava, entre outras coisas, o uso de velas ou a cor dos paramentos. A luta contra a guerra colonial, o maio de 1968 em França, a questão do Vietname ou o espezinhar dos negros americanos, assim como a crise académica em Portugal, colocaram os jovens lusitanos na busca de uma Igreja nova, para um Portugal novo. Os jovens provindos da Igreja Lusitana e outros do lugar do Torne (alguns tinham frequentado a Escola do Torne, pertença da Igreja Lusitana) deram corpo a um convívio ecuménico, onde se juntaram jovens lusitanos, católico-romanos, metodistas e presbiterianos e alguns agnósticos e ateus.

As correntes católicas romanas progressistas deram um contributo muito essencial a esse rumar juntos. E, mesmo, na dinamização da Igreja Metodista em Valdosende, uma localidade que passou da Igreja Católica Romana para a Igreja Metodista, onde fizemos campanhas de alfabetização, sem olhar ao credo.

Apoiados sempre pelo seu bispo D. Luís César Rodrigues Pereira – que veria um seu filho preso pela polícia política –, os Jovens do Torne prosseguiam o seu caminho criando inúmeras seções, como Filatelia, Teatro, Desporto, Bar e tantas outras que realizavam “convívios”, mas também exposições de pintura, de cantares de luta, fotografia, corridas de corta-mato e tantas e tantas realizações, saindo muito da apertada mão de uma Igreja não comprometida e resignada ao que se passava à sua volta.

Até que nos fins de 1969 e princípio de 1970, sentiu-se a necessidade de publicar uma revista em forma de jornal, policopiada, e que tinha uma edição de 1000 exemplares, que circulavam por todos o país. O jornal oficioso da Igreja Lusitana – O Despertar – dava conta disso e incitava os jovens nesta caminhada.

Em abril de 1970 sairia o esboço-3, terceiro número, dedicado ao Ano Internacional da Educação, pugnando “pela democratização da cultura”. Entrou, então, no jogo a Comissão de Censura, proibindo a sua publicação em maio de 1970. Os CTT proibiram a sua circulação, o que também fez ao esboço-1 e esboço-2.

Carta da Comissão de Censura (Estado Novo) a proibir o jornal dos Jovens do Torne.

Ficámos amarrados ao medo das estruturas da Igreja Lusitana, à pressão da polícia política, com interrogatórios efetuados por essa polícia, ao envio de alguns jovens forçadamente para a guerra colonial, como castigo, e reuniões dos órgãos da Igreja Lusitana. Se nenhum dos jovens foi preso isso deve-se à atitude do bispo D. Luís Pereira e à sua intervenção junto da embaixada britânica, dado a sua esposa ser inglesa e estarem em andamento as conversações com a Comunhão Anglicana para a integração da Igreja Lusitana na mesma, o que se veio a concretizar.

Se, apesar de tudo, continuámos a nossa atividade com Cadernos Informativos, isso deveu-se à determinação e defesa da nossa posição efetuada pela presidente da nossa direção central, a agora professora doutora Fernanda Rodrigues – que viria a presidir ao “Plano Nacional de Acção para a Inclusão”, em Portugal, e é vereadora da Câmara Municipal do Porto. Fê-lo de forma categórica e, por isso, não se deve deixar de lhe prestar os encómios que merece.

Agora, em 2020, quando se celebram 50 anos do Ano Europeu da Educação e 50 anos da proibição da nossa pró-revista, não quis a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, a Confraria Queirosiana – Solar dos Condes de Resende e o Arquivo Histórico da Igreja Lusitana, deixarem de refletir sobre os factos passados. Será dia 26 de setembro, a partir das 14h, no Solar dos Condes de Resende, em Gaia, que terá um colóquio, reduzido a um máximo de 60 pessoas, de acordo comas normas da Direcção-Geral da Saúde. Cristãos e não cristãos continuarão a querer “Uma Igreja nova, num Portugal novo”.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

 

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