Os jovens e a religião: crentes “à sua maneira”

| 14 Jan 19

Têm os jovens de hoje menos interesse na religião? Poucos dias antes da Jornada Mundial da Juventude, que se realiza no Panamá entre 22 e 27 de Janeiro, e depois do Sínodo dos Bispos católicos que, em Outubro, debateu o tema dos jovens e da sua relação com a fé, o 7MARGENS foi tentar perceber o que pensam os jovens portugueses acerca da religião. Confessam-se cépticos, buscam caminhos à maneira de cada um, querem descobrir um Deus que escuta…

“Sinto que somos uma geração muito céptica, que tem que ver para acreditar. Mesmo quando vemos, partimos logo do princípio que não é verdade. Por exemplo, há muitos vídeos no Youtube em que o primeiro comentário é para acusar que o conteúdo é falso ou montagem”, comenta José Maria Ceregeiro, engenheiro civil, 24 anos.

 

José Maria Ceregeiro, 24 anos.

 

A religião sempre foi transmitida de geração em geração e incutida no ambiente dos mais novos que por sua vez, a legavam aos seus filhos, como lembra o antropólogo e sociólogo Alfredo Teixeira: “De forma geral, no modelo social que conhecíamos, a religião fazia parte da identidade familiar e, de alguma maneira, herdava-se. Mas a religião já não se reproduz da mesma forma que acontecia no passado.”

Segundo o inquérito “Identidades religiosas em Portugal: Representações Valores e Práticas”, realizado em 2011, 65,8 por cento dos não-crentes em Portugal são pessoas dos 18 aos 34 anos. No universo dos católicos, apenas 28,8 por cento estão naquele grupo etário, de acordo com o inquérito do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião e do Centro de Estudos e Religiões e Culturas, ambos da Universidade Católica Portuguesa.

Mafalda Mendes, 21 anos, licenciada em gestão no ISCTE-Lisboa, é escuteira e católica de prática regular mas admite que, entre os seus 

Mafalda Mendes, 21 anos.

colegas universitários, era uma das poucas que se considerava religiosa: “Estamos a viver uma grande crise de esperança. Acho que os jovens nem sequer pensam em religião. Conheço muita gente que nunca tinha parado e feito uma introspecção, para considerar o que fazemos no mundo.”

Um pouco por todo o mundo ocidental, surgem evidências desta mudança de paradigma no campo religioso, entre a juventude:

– Em março de 2014, um estudo do Pew Research Center registou a falta de afiliação institucional dos millenials (expressão que designa as gerações da transição do milénio), sendo esta a faixa da população com maior número de pessoas politicamente independentes e religiosamente não afiliados;

– No seu ensaio de 2010, Armando Matteo colocou a hipótese de estarmos perante A Primeira Geração Incrédula (ed. Paulinas) salientando que a vida dos jovens “acusa uma surdez geral a tudo o que diga respeito a Deus, à fé, à oração, à comunidade”;

– Em Inglaterra, no final de 2017, um inquérito mostrou que 71% dos jovens de 18 a 24 anos se consideravam não religiosos;

– Um texto no semanário católico francês La Vie, no início de 2018, retratava a juventude francesa (entre os 16 e os 29 anos) como desinteressada e mesmo ateia, já que 64 por cento não se identificavam com nenhuma religião.

Em The Age Gap in Religion Around The Worldum estudo do Pew Research Center (2018) faz-se esta mesma pergunta; mas, ao invés de um “sim” ou “não”, obtém uma resposta diferente: os jovens sempre foram menos religiosos que os adultos. Mas se até há pouco tempo, ao atingirem a idade adulta, voltavam a uma afiliação, hoje em dia as gerações estão a tornar-se menos religiosas que as últimas – algo que se deve à maior desenvolvimento económico e estabilidade dos países em que vivem. Neste mesmo estudo, falando dos continentes americano e europeu, é possível verificar uma diferença entre jovens que se consideram religiosos (75 por cento) e jovens que vão à missa (10 por cento) ou rezam (16 por cento).

De acordo com algumas projecções, o número de pessoas religiosas no mundo irá aumentar, por grande influência das realidades africanas e asiáticas. The Changing Global Religious Landscape também do Pew Research Center, estima um crescimento de 70 por cento no número de muçulmanos e 34 por cento dos cristãos. Falando do continente europeu e americano, o panorama é contrário ou, pelo menos, não haverá crescimento.

Ou seja, não se pode falar do fenómeno religioso numa perspetiva mundial, devido à existência de tão diversas realidades: “Apenas com um olhar macro é muito difícil ter uma leitura fina desta pergunta simples: estamos simplesmente numa linha de erosão ou ela coincide também com zonas de reconfiguração?”, pergunta Alfredo Teixeira.

 

Geração incrédula?

Pedro Fonseca, 28 anos, vive no Porto. Além de sociólogo, trabalha em Braga e Porto com o Grupo Bíblico Universitário, uma associação de estudantes evangélicos e protestantes. Apesar de ter crescido numa família cristã evangélica, fé que ainda hoje professa, considera que essa não é a norma nos círculos académicos. Os jovens no geral, diz, “não pensam muito sobre religião”. E acrescenta: “Temos um catolicismo cultural disseminado na medida em que sermos portugueses é quase automaticamente equivalente a sermos católicos. Mas acho que não há reflexão sobre a religião, já que é algo que esteve sempre a nosso lado.”

Pedro Fonseca, 28 anos.

 

Apesar da ideia mais comum, o sociólogo não descreve uma juventude incrédula, mas sim uma individualização do conceito tradicional de religião: “Estamos perante um crescente individualismo que nos afasta das instituições e torna a fé algo para ser vivido de forma privada – ‘é a minha fé e crença’. Há quem fale até no ‘bricolage religioso’, que consiste na escolha do que se gosta em cada religião para construir a sua própria.”

Da mesma opinião é Maryam Alidina, muçulmana de 17 anos, e recém estudante de Direito na Faculdade de Direito da Universidade de

Maryam Alidina, 17 anos.

Lisboa. Convicta da sua fé, confirma que a maioria dos seus amigos “sabe que existe algo mas que não consegue definir o que realmente esse algo é”. E acrescenta: “O ser humano acabou por, com todas as novas evoluções tecnológicas e os grandes feitos dos homens, achar que é mais do que aquilo é. Isto faz com que o homem se tente equiparar ao divino. Mas sei que o próprio sentido divino não está totalmente apagado, visto que a maioria dos jovens que conheço ainda acha que existe algo.”

O conceito de religião individual tem surgido para preencher a lacuna entre a sociedade atual e as instituições religiosas. Jean Stolz e Jean-Claude Usunier, professores universitários suíços, publicaram em 2018 um dos muitos estudos relativos ao tema.

Os autores consideram que a religião pode ser equiparada a uma marca, no sentido em que os “consumidores” a querem personalizada e escolhem aquilo em que acreditam, como praticam ou expressam a sua fé e a que normas obedecem.

Quando Mariana Nascimento, bióloga, 24 anos, observa à sua volta, refere-se exatamente a esta personalização da religião: “Alguns dissociaram-se da religião como ela é normalmente apresentada, mas muitos amigos continuaram crentes nalguma coisa: à sua maneira e com os seus próprios valores morais.”

Mariana Nascimento, 24 anos.

Os crentes “à sua maneira” continuam a considerar-se religiosos e, na era em que o respeito pelas suas escolhas pessoais é a norma, apenas procuram algo mais individualizado, mais afastado das instituições e das regras definidas.

Para José Maria Ceregeiro, com formação em engenharia e católico, Deus preenche a lacuna no conhecimento científico acerca da criação do universo: “A ciência diz que o universo inteiro veio do Big Bang, mas não sabe responder de onde veio ele – diz que vem do nada. Eu acredito numa entidade superior à nossa, que gerou o Big Bang. Podemos chamar isso de Deus ou de forças cósmicas.”

Aos 24 anos, José Maria não vai à missa a não ser em ocasiões especiais e não acredita que tenhamos sido feitos à imagem de Deus. No entanto, participa em peregrinações com a família e rege-se pelos princípios católicos que considera corretos.

A experiência científica não é necessária para sentir que a fé pode ser vivida de maneira individual. Marisa tem 33 anos, é cabo-verdiana, mas vive em Portugal há mais de 10 anos. Reza muito e é agora que não vai à igreja mas que “sente verdadeiramente” as orações que faz: “Isto não é algo que se faz indo à igreja todas as semanas. Eu já vivi a religião como algo que me foi ensinado – na catequese, nos escuteiros, na primeira comunhão e no crisma – mas que não sentia interiormente. Houve fases de revolta e de não acreditar. Nestes últimos tempos, estou numa fase de sentir com amor e tranquilidade. Fui ensinada mas, mais importante, quis descobrir e perceber para além daquilo que me foi ensinado.” Acredita num Deus que a escuta e por isso reza pausadamente, para que as palavras sejam bem compreendidas:

Depois de muitas perguntas acerca da religião que lhe foi ensinada enquanto criança, Marisa pretende fazer as coisas de maneiras diferente com a sua filha de oito anos: “A minha filha andou na catequese mas eu acabei por tirá-la da catequese, não gostei. (…) O que vejo na catequese é que é muito sem valor. É mais o ir por ir. Eu quero que ela consiga aprender. Se é para formar é para ser bem formada.”

 

Novos caminhos espirituais

 

 

Um exemplo deste novo caminho das espiritualidades com influência oriental é Filipa Afonso, 30 anos, professora de ioga. Criada por pais de tradição católica, mas que não frequentavam a igreja, Filipa nunca sentiu um grande apelo pela religião, com a qual, até aos 26 anos, tinha uma relação de “conflito e negação”. Mas uma necessidade de mudança levou-a à procura de algo maior, diferente do que conhecia: “Estava num trabalho de que não gostava, trabalhava imenso e cheguei até a ter um esgotamento – estava muito desconectada de algo que não sabia o que era. A partir daí fui à procura de equilíbrio.” Encontrou-o na espiritualidade: 

Para Duarte Folque, lisboeta de 21 anos, que entrou em setembro para o Seminário, uma explicação para o interesse pelas espiritualidades é a liberdade de escolha: “O percurso católico pode ter sido algo imposto pelos pais e as novas espiritualidades vêm de certa forma dar resposta à liberdade, que as pessoas querem, de poder escolher algo mais desligado da instituição da Igreja.”

Esta liberdade de escolha e, principalmente, a escolha de algo mais “simples” é precisamente o que motiva Filipa, que acha que a religião cria por vezes mais conflitos e desarmonia: “Uma vez li algo que dizia: ‘Jesus é o único cristão e Buda é o único budista’. Porque eles seguiram aquilo que para eles era natural e depois as pessoas interpretaram isso e criaram um conjunto de regras. Mas Jesus não chegou lá através das regras, chegou lá através do coração e daquilo que para ele era um estado de equilíbrio, um estado de amor” afirma. E conclui: “As religiões hoje em dia deram ferramentas às pessoas e as pessoas confundiram as ferramentas com o propósito.”

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