Os jovens explorados e mortos no Congo para que possamos ter telemóveis e computadores

| 28 Set 2020

Cada operação dos nossos telemóveis, computadores ou jogos electrónicos, cada airbag dos automóveis ou cada arma sofisticada têm, na sua origem, uma indústria de escravatura e morte. Curta viagem às minas do Congo, onde há duas semanas morreram mais 50 pessoas – entre as quais muitas crianças e jovens – vítimas de mais uma das tragédias frequentes na mineração artesanal.

 

1. Está lá? Quem fala?

Muitas mulheres, por vezes grávidas ou com filhos pequenos, lavam os minerais nos rios ou nas águas do Lago Malo à Kapata, próximo de Kolwezi (RDC), Maio 2015. Foto © Amnesty International e Afrewatch

 

As condições de trabalho? Se se pode chamar condições de trabalho ao que existe, elas são as seguintes: as minas desmoronam-se facilmente porque não têm protecções nem são construídas com regras de segurança; o trabalho é controlado por milícias a soldo do patrão, que utilizam fogo real e atiram a matar, se necessário; não se pode protestar, porque a polícia é conivente com os donos das minas e reprime os eventuais protestos; muitos pais forçam as crianças a abandonar a escola para poderem ter mais algum dinheiro em casa…

O padre Claudino Gomes, dos Missionários Combonianos, caracteriza deste modo as circunstâncias em que trabalham milhares de pessoas, muitas das quais crianças e jovens, nas regiões mineiras da República Democrática do Congo (RDC). Aí são extraídos minérios como o cobalto ou o coltan, essenciais para a produção de aparelhos como os telemóveis e computadores, ou ainda ouro e diamantes.

(Coltan é a palavra que resulta da contracção de columbite e tantalite, de onde se extraem o nióbio, também conhecido por columbite, e o tântalo, ambos fundamentais para fabricar microprocessadores, microcircuitos e baterias, que permitem o funcionamento de mísseis, foguetões espaciais, airbags ou telemóveis e jogos de computador.)

A viver e trabalhar em Butembo, na província do Kivu-Norte, perto da fronteira com o Uganda e o Ruanda, o padre Claudino está na RDC há um ano e meio, mas, no total, este é o 17º ano no país.

Claudino Gomes não está longe do local onde, há duas semanas, morreram 50 crianças e jovens numa mina de extracção de ouro do Kivu-Sul. No dia 11 de Setembro, 50 jovens ficaram bloqueados nos túneis da mina quando o rio Elila, ali perto, transbordou por causa das fortes chuvas que tinham caído. Foi o suficiente para a tragédia.

O governador da província lamentou “a trágica morte de cinquenta pessoas, na sua maioria, jovens”, assegurando ao mesmo tempo que se fará uma investigação para identificar as vítimas, contou na ocasião a agência Fides.

As poucas actualizações noticiosas feitas a seguir, sobre o desastre, davam conta de que já tinham sido encontrados 18 corpos e outras 19 famílias continuavam à procura de desaparecidos. Mas o presidente da câmara afirmava, citado ainda pela Fides, que se desconhecia o número total de mortos.

A mina em causa tinha estado concessionada à Kamituga Mining, subsidiária da canadiana Banro, segundo disse Raoul Kitungano, da associação Justice Pour Tous (Justiça para Todos), à AFP (agência France Presse). Há um ano, a Banro anunciou a suspensão da extração no local, mas os mineiros artesãos continuaram a usá-la como fonte de rendimento e por isso é que os acidentes são frequentes.

O que esses mineiros por conta própria conseguem extrair nas minas é vendido a comerciantes e traficantes locais ou transfronteiriços, que por sua vez os exportam ilegalmente sobretudo para Bujumbura (Burundi) ou Kampala (Uganda) onde o ouro ou outros minérios são vendidos a um preço muito mais elevado, sobretudo com destino às monarquias do Golfo ou à Europa.

 

2. Quer desbloquear o dispositivo?
Cuprite. Minério. Mineração. Congo

Cuprite, de onde se extrai cobre. Foto © Didier Descouens/Wikimedia Commons

 

Este comércio levara já, em Dezembro de 2019, à apresentação de uma queixa em tribunal contra cinco das maiores empresas tecnológicas do mundo. Preparada pela International Rights Advocates, uma organização sem fins lucrativos sediada nos Estados Unidos que tem como lema “juntos podemos desafiar gigantes”, a queixa foi apresentada em representação de 14 famílias congolesas contra a Tesla, Apple, Alphabet (Google), Microsoft e Dell Technologies.

Em questão, nesse caso, estava a extracção de cobalto, necessário para o fabrico de baterias de lítio que permitem recarregar telemóveis, computadores, máquinas fotográficas e outros aparelhos. Mais de metade da procura mundial é actualmente satisfeita pelas minas congolesas, mas ela pode crescer anualmente entre 7% e 13% na próxima década, de acordo com um estudo da Comissão Europeia, citado no Jornal de Notícias.

A mesma fonte dizia em Março à agência Reuters, citada no JN, que o processo foi o primeiro do género, questionando aquelas empresas sobre as condições de obtenção das suas matérias-primas. De acordo com a queixa, as empresas visadas alimentam um sistema de trabalho forçado que as famílias acusam de ter causado a morte e ferimentos graves em 14 crianças. Seis destas morreram em desabamentos de galerias e as restantes sofreram ferimentos que alteraram completamente as suas vidas, tendo algumas ficado com paralisia.

“Essas empresas – as mais ricas companhias do mundo – permitiram que as crianças fossem mutiladas e mortas para obter o seu cobalto barato”, disse à Reuters o advogado Terrence Collingsworth, representante das famílias.

Neste caso concreto, revelador das condições em que tantas pessoas tentam ganhar algum dinheiro para sobreviver, está em causa o facto de as crianças, algumas das quais tinham menos de seis anos, terem sido forçadas a abandonar a escola e a trabalhar nas minas da companhia britânica Glencore, já antes acusada de explorar trabalho infantil – algumas delas ganham 1,30 euros por dia (39 euros por mês, se trabalharem todos os dias).

 

3. Bateria fraca. É favor carregar o dispositivo
Minas. Crianças. Trabalho infantil. Congo

Um mineiro artesão menor de idade a fazer a triagem do cobalto, no Lago Malo, próximo de Kolwezi (RDC). Maio 2015. © Amnesty International e Afrewatch

 

Num relatório de Janeiro de 2016, publicado pela Amnistia Internacional (AI) e pela African Resources Watch (Afrewatch), citavam-se dados da Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), de 2014, segundo os quais 40.000 jovens rapazes e raparigas trabalhavam nas minas do sul da RDC, muitos deles envolvidos na extracção de cobalto.

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