Enfrentando prisão e assédio

Os jovens israelitas que recusam fazer parte do “ciclo interminável de derramamento de sangue”

| 29 Dez 2023

Manifestação de apoio ao objetor de consciencia israelita Tal Mitnick, aquando da sua prisão. Foto @danido999, via X

Manifestação de apoio ao objetor de consciência israelita Tal Mitnick, aquando da sua entrada na prisão, na semana passada. Foto © @danido999, via X

 

Tal Mitnick tem 18 anos e está a cumprir uma pena de 30 dias na prisão porque recusou juntar-se ao exército israelita. Sofi Orr tem 17 e é suposto alistar-se dentro de alguns meses, mas já decidiu que não o fará, apesar dos riscos que enfrenta. Ambos estão inabaláveis na sua convicção: “a violência não resolverá a violência”.

Antes de ser detido, Mitnick fez questão de explicar as razões da sua recusa e divulgá-las online, através da Mesarvot, uma rede de apoio a objetores de consciência em Israel. “O ataque criminoso a Gaza não resolverá o massacre atroz que o Hamas executou”, afirmou. Quanto à solução, defende, não virá de “políticos corruptos” em Israel ou do Hamas. “Virá de nós, filhos e filhas das duas nações”, disse ele.

O serviço militar é obrigatório para a maioria dos judeus israelitas, e visto como um rito de passagem e garantia de acesso a um emprego estável e bem remunerado. Apesar disso, ainda que os chamados “refuseniks” corram o risco de ser rotulados de traidores e forçados a cumprir repetidos serviços prisionais, vários jovens israelitas têm vindo a manifestar o seu apoio a Mitnick, como dá conta a Al Jazeera.

“Não se pode construir o céu com sangue”, “Olho por olho e todos ficaremos cegos”, “A guerra não tem vencedores” ou “Não há solução militar” eram, de resto, algumas das frases escritas nos cartazes que envergavam aqueles que organizaram uma manifestação de apoio junto ao estabelecimento prisional onde Mitnick deu entrada na semana passada.

Foi também à Al Jazeera que Sofi Orr explicou, esta sexta-feira, que já havia tomado a sua decisão de não se alistar no exército israelita mesmo antes do início do conflito despoletado pelo ataque do Hamas a 7 de outubro. Mas agora, sublinhou, a sua recusa “é mais importante que nunca”.

“Decidi assumi-lo publicamente na esperança de chegar à sociedade israelita, especialmente os jovens, para mostrar-lhes que recusar é uma opção e que a paz é uma opção: a única opção”, afirmou, convicta.

Sofi Orr, em direto para a Al Jazeera, explica as razões de recusar alistar-se no exército. Imagem reproduzida a partir da transmissão online

Sofi Orr, em direto para a Al Jazeera, explica as razões de recusar alistar-se no exército. Imagem reproduzida a partir da transmissão online

 

Apesar de estar consciente de que a sociedade israelita “é extremamente militarizada” e de que a sua decisão “não será bem aceite”, arriscando ser chamada de “traidora e judia que se auto-odeia” – e ser presa, tal como Mitnick – Sofi Orr considera que “vale a pena” assumir a sua posição. “Estou preocupada com o que me possa acontecer, mas vale a pena”, reiterou.

A jovem assinalou ainda que “os média israelitas não mostram os estragos causados pela guerra, nem as mortes” e, também por isso, “à maioria das pessoas a guerra levou-as na direção oposta”, isto é, da radicalização e apoio às medidas do governo de extrema-direita.

Mas Orr não tem dúvidas: “Não há uma solução militar para um problema político” e “a guerra em Gaza nunca poderá ser justificada”. Por isso, conclui, irá sempre recusar fazer parte do “ciclo interminável de derramamento de sangue”. E só espera que muitos outros sigam o seu exemplo.

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This