Os mais velhos

| 6 Jun 19

Acabo de me confrontar com a sondagem publicada no Jornal de Notícias e resumida dia 3 de Junho no 7MARGENS. Vieram-me as lágrimas aos olhos e vejo-me a escrever de um jacto. Primeiramente pensei na minha querida Mãe, uma verdadeira matriarca, a quem os seus sete filhos proporcionaram gratidão, cuidado, respeito e… amor, até que encerrou os olhos. Morreu na sua cama, como ela queria, rodeada pelos seus, em paz e desejosa do seu encontro com Deus.

Em seguida pensei na maravilhosa lição de vida e de fé dada por José Mattoso quando recebeu há dias o prémio Árvore da Vida. Senti-me “inspirada”, como se o sopro do Espírito, do dia de Pentecostes, se tivesse antecipado uma semana para “renovar todas as coisas”.

Depois lembrei-me de uma escultura que vi no Museu de Arqueologia e Antropologia da cidade do México que visitei no início de Março. Uma das esculturas mais primitivas dos Aztecas é a figuração de um casal de velhos (“pareja de ancianos”). É óbvia a ternura e cumplicidade que revela entre eles mas, sobretudo, por quem fez a escultura.

 

Os Mayas e os Aztecas veneravam os anciãos que, além de serem conselheiros dos xamãs e dos reis, eram chamados pelo próprio filho coroado a serem os seus primeiros conselheiros. Como nos distanciámos desta forma de tornar ato uma ética protetora e respeitadora de quem deu e foi alimentando a vida de cada um/a de nós!

Numa sociedade pretensamente civilizada – que nos está a levar aos poucos à autodestruição –, que fazemos dos nossos “anciãos”? A estatística diz que damos mais importância aos animais domésticos do que aos idosos (34% versus 22%) que “descartamos” para lares desumanizados (ou residências assistidas) onde ficam à espera de uma morte infeliz e sofrida! São literalmente abandonados à sua sorte e à qualidade maior ou menor das instituições que cuidam deles. Que sociedade é a portuguesa, com uma população envelhecida e onde nascem poucas crianças, enquanto casais jovens preferem ter cães ou gatos em vez de filhos “que dão muito trabalho” – porque de momento não se pode sequer falar de menos despesa, tal a sofisticação atingida pelas clínicas veterinárias ou lojas de equipamentos para animais domésticos? Sendo alguém que gosta de animais, reconheço quanto um animal doméstico pode servir de companhia às pessoas mais idosas ou, até, para que uma criança aprenda o que é cuidar da vida e o compromisso inerente ao cuidado. Há outras razões de carácter sociológico: o ultra-liberalismo pósmoderno nas grandes cidades não se compadece com famílias com mais de um, dois filhos…

Tenho vindo a escrever insistentemente sobre o perigo da nossa sociedade colocar as crianças no centro em vez de encarar a família ou qualquer outra entidade de acolhimento como uma unidade policêntrica onde todas as gerações têm o seu lugar. No entanto, o inquérito acima referido afirma que não existe nada nem ninguém em que os portugueses mais confiem (87%) do que na família.

Vi na China como a política do “filho único” levou a criança a ser o desvelo do casal e dos seus quatro avós a ponto de ela se tornar autocentrada, obesa, cruel e insaciável. Entre nós, não foi necessária a política do filho único, limitamo-nos a viver numa sociedade ultraliberal e consumista onde as crianças têm de ser vestidas em marcas conhecidas e ver satisfeitos todos os seus caprichos a ponto de pôr em perigo a sua saúde física e mental: meninos ingovernáveis e associais que entram nos jardins de infância e nas escolas sem um mínimo de regras ou padrões de comportamento (a esta questão hei-de voltar no 7Margens).

Mas voltemos aos mais velhos, aos anciãos. As crónicas de Sara Laísse, de Moçambique, aqui no 7MARGENS, demonstram como a visão, em grande parte do hemisfério sul (sobretudo africano e asiático), é absolutamente contrária à nossa. A sabedoria dos velhos, a sua experiência acumulada, aquilo que já deram à vida e à sociedade, colocam-nos num lugar central da comunidade. São cuidados, respeitados e… venerados depois de mortos…

Esta questão é central nos tempos de hoje e na sociedade portuguesa. Que estamos a fazer dos nossos velhos? Fazem parte dos “descartados” da sociedade, como afirma o papa Francisco? São meros “utentes” de instituições que anseiam por mais um lugar vago para continuarem a ter lucro? Têm de pedir desculpa por ainda existirem? É urgente pensarmos nesta ordem de questões e encontrar alternativas. Para que um dia o nosso coração culpabilizado não se sobressalte. Eugénio de Andrade venerava a mãe, uma simples camponesa. No entanto seguiu a sua missão de poeta e, ao tornar-se imortal, tornou-a também imortal:

Toda a ciência está aqui,/ na maneira como esta mulher/ (…) rega quatro ou cinco leiras/ de couves: mão certeira/ com a água,/ intimidade com a terra,/ empenho do coração./ Assim se fez o poema.

(Eugénio de Andrade)

[related_posts_by_tax format=”thumbnails” image_size=”medium” posts_per_page=”3″ title=”Artigos relacionados” exclude_terms=”49,193,194″]