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À Margem

Os massacres de Gaza e os bombardeamentos na Ucrânia começaram em Portugal

| 24/09/2026

E não é que está tudo ligado?

Sexta-feira passada, em Roma, um aluno de 13 anos, esfaqueou uma professora com três golpes. Tinha “um olhar gélido”, contava a professora aos jornalistas do La Stampa, depois de ter sido salva por um outro aluno – originário do Congo e que vive numa casa de acolhimento… Aparentemente, terá sido uma má nota dada no final do último ano lectivo que levou o miúdo a preparar este acto durante as férias. A professora diria também que já perdoara ao aluno, e que só queria compreender as suas razões. E também agradecia ao aluno que a salvou, apesar de ela própria defender o regresso dos migrantes aos seus países. Ou seja, o miúdo que a salvou podia não estar ali, se se aplicasse o que a professora defende.

Há 15 dias, em Portugal, uma outra notícia dava conta de que muitos pais vão para os treinos dos seus filhos que praticam desporto insultar os adversários de jogo, os árbitros ou mesmo os responsáveis da “sua” equipa. Um dos casos recentes foi o de um pai de uma jogadora de basquetebol sub-14, que dirigiu ofensas racistas ao árbitro que dirigia o jogo da filha, contou o embaixador da Ética no Desporto, Vítor Santos, à TSF.

Já há mais tempo, uma aluna de uma escola em Vila Franca de Xira agrediu uma colega mais nova que ela – lembramo-nos com certeza dessa história.

 

© UNRWAAshraf Amra Um menino corre pelas ruas destruídas de Gaza. Foto de arquivo

Crianças nas ruas destruídas de Gaza: com a actual geração de políticos poderosos, o discurso de ódio passou a ser a pauta das relações internacionais. Foto © UNRWA/Ashraf Amra/arquivo

E não é que está tudo ligado?

Sabemos, aliás, que o fenómeno do bullying está a crescer nas escolas – entre miúdos que são colegas de escola, de alunos contra professores, pais contra professores… O mesmo se passa com as redes sociais e o ciberbullying, tal como sucede com o bullying e o assédio laboral, com os trabalhadores sujeitos a pressões nos horários ou nas formas de trabalhar.

Nos mesmos ambientes laborais, ou nos transportes públicos, basta estar atento a conversas que traduzem a violência que, muitas vezes, orienta as relações sociais. A violência está por todo o lado. Claro, foi sempre assim, mas o ambiente digital deu-lhe lastro e tornou-a omnipresente, mesmo que não seja ela a marcar em exclusivo os nossos quotidianos. Mas nas redes sociais as pessoas rapidamente se insultam ou insultam outros que nem sequer irão ler o que escrevem – e entre os que insultam estão também cristãos e crentes de diferentes religiões.

Com a actual geração de políticos poderosos, o discurso de ódio passou a ser a pauta das relações internacionais. Trump quer “aniquilar” o Irão; Putin anseia por ser de novo czar, matando os ucranianos; Netanyahu quer fazer desaparecer os palestinianos e a Palestina; Modi promove a intolerância violenta de hindus contra muçulmanos e cristãos, que são minorias na Índia; Erdogan persegue e prende qualquer dissidência; vários outros em África, na América Latina e na Ásia alinham pela mesma estratégia. Xi Jinping é outro campeonato: não se envolve directamente em guerras, mas aprisiona o próprio povo, persegue o budismo e o nacionalismo tibetano, aniquila o islão e os uigures de Xinjuan, enquanto compra estruturas e empresas por todo o mundo. Enquanto, na Europa, os nossos líderes se entretêm com as decisões de aumentar a despesa militar para o rearmamento – sabendo nós todos que isso nunca teve finais felizes.

Pelo meio, os problemas da pobreza, da habitação, das pessoas sem-abrigo, da educação, da saúde, das dificuldades crescentes das classes médias dos diferentes países não são resolvidos, o que abre espaço à demagogia e à gritaria da extrema-direita, que se instala devagar, devagarinho, vociferando demagogicamente contra “eles”, quando os seus políticos são os que mais se aproveitam do “sistema”…

A própria lógica de competitividade e competição que se introduziu de forma esmagadora nas relações económicas – e, por arrastamento, nas universidades e nas escolas, incluindo nos níveis mais baixos de ensino e incluindo nas escolas católicas – também potencia a violência e o esmagamento do outro.

 

Sudão. Fome

Mãe e filho no Sudão, enfrentando a experiência da fome, uma das consequências da guerra civil no país. Foto © Avaaz

E não é que está mesmo tudo ligado?

A guerra de Netanyahu contra a Palestina (Gaza, Cisjordânia, Jerusalém Oriental), a guerra de Trump contra o Irão, a de Putin contra a Ucrânia, os conflitos civis no Sudão, Iémen, Congo ou outros países, os grupos armados que exploram crianças de sete anos um pouco por toda a África subsariana – tudo isso começa aqui, na violência que se instala nos quotidianos, é amplificada pelas redes sociais, promovida por empresas de armamento que querem vender os seus produtos e assumida por políticos, que dela retiram proveitos pessoais (veja-se o crescimento da fortuna pessoal de Trump no ano e meio que leva de presidente). Ou seja, todas aquelas guerras, todos aqueles massacres, começaram, afinal, no coração humano e na lógica de muitas das coisas que fazemos ou das opções – consumistas, económicas, políticas, tecnológicas – que tomamos.

E perante este quadro (os exemplos já vão largos, mas poderiam seriam imensos…), o que fazem a Igreja Católica e as outras confissões? Há duas semanas, Manuel Pinto deu conta, aqui no 7MARGENS, da conferência do Instituto Católico para a Não-Violência, da Pax Christi Internacional, que decorreu em Roma. Registou “o número e a diversidade de experiências” de não-violência activa no terreno”, que permitiram “encontrar respostas à pergunta sobre como concretizar a não-violência inspirada pelo Evangelho” (ou, alargando o olhar, inspirada nas fontes de outras tradições religiosas).

Deu conta, ainda, da mensagem do cardeal Charles Bo, de Myanmar (antiga Birmânia), para quem a não-violência assenta na “recusa de emular o mal que procura erradicar” e “requer mais coragem do que o recurso às armas para resolver problemas”.

E referiu o papel dos crentes na denúncia, no testemunho e na palavra, que deve coincidir com o que o Papa Leão tem feito e dito acerca do tema. (ver no 7MARGENS texto sobre a paz na encíclica Magnifica Humanitas)

Mas que, notava ainda o enviado do 7MARGENS, “está ainda longe da concretização que se exige e que, naturalmente, não pode vir de cima para baixo, naquilo que é preciso fazer e no modo de o fazer” para afirmar que “há alternativas” à lógica da violência e da guerra.

Ursula von der Leyen

Ursula Von der Leyen: os líderes europeus devem redescobrir a matriz da paz e do diálogo que levou à construção deste projecto de cooperação entre povos. Foto © European Union 2019/Parlamento Europeu.

 

Sim, tudo está ligado e é precisamente no campo das alternativas (também políticas) que a acção dos crentes deve redobrar. A guerra é a negação absoluta dos valores fundadores e matriciais das principais religiões do mundo – sim, incluindo o islão, apesar dos grupos terroristas que actuam em nome dele; sim, incluindo o judaísmo, apesar do actual Governo de Israel; e sim, incluindo o cristianismo, apesar dos grupos que cada vez mais se aproxima da extrema-direita. Há grupos em todos esses credos – católicos, evangélicos, protestantes, anglicanos a tentar introduzir outra lógica para a resolução dos conflitos que não passe pela violência e pelas armas. E são esses grupos que precisamos de escutar, é essa reflexão que temos de fazer.

Claro, há um papel importante dos meios de comunicação tradicionais e dos jornalistas no sentido de, também nesse campo, inverter a lógica que tem dominado, e que tantas vezes promove a violência e a guerra ou o desrespeito pelos direitos humanos. Como também das instituições desportivas, das escolas e outras organizações sociais.

Há também um papel dos governos da União Europeia (UE), no sentido de redescobrir a matriz da paz e do diálogo que levou à construção deste projecto de cooperação entre povos – a primeira vez, na história da humanidade, em que povos que sempre tinham estado em guerra, passaram a dialogar e a cooperar. Por exemplo, é intolerável que não se penalize Israel nem sequer na venda de armas e no acordo comercial que tem com a UE; é também estranho, muito estranho, que o Governo português tenha autorizado a utilização da Base das Lajes pelos Estados Unidos para lançar uma guerra contra o Irão que agora, ao fim de meio ano, o primeiro-ministro descobriu que é “estúpida” porque prejudica o mundo inteiro. Os mesmos governos deveriam, já agora, legislar também no sentido de regular as redes sociais, que já estão a fazer mais mal do que bem (e no bem inclui-se o facto de, em situações como as de Gaza, ter sido graças a elas que fomos sabendo dos crimes cometidos pelo Governo e militares israelitas).

 

Existe uma saída?

Momento de oração no final de uma caminhada inter-religiosa durante a COP28, no Dubai, em 2023. Foto Foto LWFAlbin Hillert

Momento de oração no final de uma caminhada inter-religiosa durante a COP28, no Dubai, em 2023. Foto © LWF/Albin Hillert

 

Aqui, importa, sobretudo, sublinhar e insistir no papel das religiões e dos crentes, que não podem dar prioridade às suas simpatias económicas ou políticas, desconhecendo o mais profundo da reflexão e espiritualidade das suas tradições religiosas; a adesão a uma fé ou é radical (vai à raiz) ou é apenas uma aparência. Importa, por exemplo, recuperar a tradição do shalom judaico que “enfatiza a integridade e a harmonia entre os seres vivos, que se assemelha à ênfase budista na não-violência e à insistência taoísta no não-agir” (John Francis Burke, revista Concilium, nº 290); ou o conceito de jihad, como luta espiritual no islão e não como forma de aniquilar o outro; ou a ahimsa do hinduísmo, a “não injúria” ou “não causar dano” a qualquer ser vivo, seja fisicamente, por palavras ou pensamentos.

No caso do cristianismo, é fundamental aprofundar o pensamento social cristão (seja católico ou outro), que já chegou ao ponto de recusar a ideia da “guerra justa” no catolicismo. E como também recordava J.F. Burke no texto citado, o pacifismo cristão “remonta à igreja pré-constantiniana e argumenta que ‘a verdadeira ética do discípulo de Jesus é a ética da não-violência’.” Ao contrário do conceito de guerra justa, que só aparece com a “reconfiguração da igreja cristã como uma igreja estatal, na era constantiniana”. Ou seja, só a não-violência como proposta do Evangelho deve ser aprofundada.

O questionamento da “violência justificada de cada tradição” a partir das suas próprias doutrinas podem permitir abrir caminhos de ruptura na lógica que se tem alargado nos últimos anos, absorvendo o impulso violento com os princípios não-violentos. Ou seja, buscar o fim comum, em vez de insistir nas razões próprias.

No tema A Noite, do disco com o mesmo título, José Mário Branco perguntava: “Existe uma saída?” E respondia: “Irmãos, irmãos, amemo-nos agora.” Existe outra saída?

P.S. – Na RTP Play, uma mini-série de dois episódios sobre a história de Alfred Nobel e Bertha Kinsky (ou Bertha Felicie Sophie von Suttner) está ainda disponível. Nela se conta como a nobre e escitora nascida em Praga acabou por influenciar o inventor da dinamite (que queria fazer algo algo pelo bem da humanidade), no sentido de ele se converter à causa do pacifismo. Bertha ajudaria a organizar o primeiro Congresso Internacional de Paz, em Viena (1891), foi fundadora da Sociedade Austríaca dos Amigos da Paz e vice-presidente do Escritório Internacional da Paz. Foi sempre na sombra de Alfred Nobel, para quem trabalhara e de quem ficou amiga, que ela o levou a deixar, em testamento, a instituição de uma fundação para entregar cada ano os prémios que distinguem as pessoas ou entidades que contribuem para o bem da humanidade. Bertha acabaria por receber, em 1905, o quarto Nobel da Paz – a primeira mulher a recebê-lo. Tremendamente actual, a série pode ser vista na RTP Play. 

 

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