
Meninos soldados do grupo rebelde UPC no quartel-general de Bokolobo. Foto © Rui Araújo
Os meninos da cidade incompleta não brincam como os meninos das outras cidades.
Têm sorrisos maiores, é verdade… Ou talvez não; se calhar são os rostos que, por serem menores, tornam os sorrisos maiores.
Quase sempre os trapos, no ricochete desses sorrisos. Os trapos podem ser muito amados, como os bonecos e as bolas… Ou talvez não; se calhar é a ausência de bolas e bonecos que aumenta o amor aos trapos. Isso pouco importa, os sorrisos são enormes e os trapos são amados pelos meninos da cidade incompleta.
Os pais da cidade incompleta aprenderam a voar, mas não como os urubus; voam como as gaivotas, por cima do mar e de olhos atentos ao que rola debaixo das águas. Atravessam-nas, às vezes para sempre. Quase sempre para sempre.
Depois os meninos tentam crescer mais depressa, para legitimarem o sonho das travessias do mar encantado e talvez encontrarem os pais, que hão de estar felizes nas cidades completas, para recebê-los com sorrisos menores do que os que tinham antes.
Das pernas, limpam o barro de sal que os esbranquiça, e vestem todos os casacos possíveis – que também foram trapos amados, na infância. Fazem isso porque pressentem que, por muitas que sejam, as penas de gaivota são sempre poucas para tanta noite.
Os meninos da cidade incompleta não sabem o que é ter medo, porque nunca conheceram a paz do conforto, tudo é sonho e coragem; a morte é a vida nas esquinas incompletas. Por isso, imitam as gaivotas – mesmo sem asas, voam sobre o mar.
Às vezes esses meninos deixam de sentir os corpos e voam só com o desejo, dentro de um novelo muito fofinho de conforto ímpar. Querem encontrar de vez o paraíso que sonharam além-mar encantado.
Outras vezes, sentem os corpos até à chegada, mas não encontram o encanto prometido. E então franzem os sobrolhos, pensam nas promessas, são invadidos pela incredulidade.
Só corpo, já sem sorrisos nem trapos para amar. Os meninos, esses meninos deixam de existir por não terem lugar nas cidades completas com que sonharam.
O único lugar do mundo para os meninos da cidade incompleta é o voo da gaivota – esse altar de uma esperança que já nasce morta, por jamais se cumprir.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor” e “O Homem do Trator”, o seu último livro, “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024, tem como mote uma crónica publicada no 7MARGENS.










