Os novos vendilhões do templo, a demissão do Estado e a Sé de Lisboa

| 10 Mar 20

Uma breve crónica de desastres evitáveis

Sé de Lisboa, fotografada em Abril de 2019. Foto Rodrigo Argenton/Wikimedia Commons

Para boa compreensão da ideia base deste título e do artigo, peço o favor de começarem por ver a página Cidadania Lisboa.

Ela permite ter um vislumbre de um conjunto de malfeitorias na Sé de Lisboa, realizadas com aquela alegria alarve que conhecemos aos Bolsonaros e Trumps que poluem a nossa existência, num misto de maldade, estupidez e inconsciência. Classificação excessiva? E quem é este Nuno que assina isto, algum radical anti-clerical, ou quê? Ah, eu creio que só farão estas perguntas porque, afinal, ainda não abriram o site e não verificaram os estragos realizados na Sé.

De resto, não estou só. O autor daquele texto – Miguel de Sepúlveda Velloso – resume muito bem o que se passa: “A mais histórica das igrejas históricas de Lisboa está nas mãos de feirantes baratos que fizeram do espaço sagrado e de salutar despojamento, uma feira de bugigangas de duvidosa qualidade, dignas de uma loja de vão de escada”.

A vida da Sé de Lisboa parece correr a par e passo com a tendência evolutiva do mundo actual: de mal a pior, em rampa descendente por onde escorrega o bom senso, o bom gosto e o respeito. Talvez mesmo a decência. Turistas e crentes frequentadores da Sé merecem muito mais que o boçal conjunto de tralha que esforçadamente contraria com estrondo o ambiente de serenidade, sobriedade e desapossamento estético que são, precisamente, a alma e a espiritualidade da Sé.

Infelizmente, um mal nunca vem só. A Sé reserva-nos ainda mais desgostos: a destruição – já em curso – de uma empena do lado das Cruzes da Sé para abrir uma porta para acesso pago aos claustros, de desenho e materiais absolutamente medonhos.

Esta malfeitoria é mais grave porque altera e desfigura de modo definitivo a configuração exterior da igreja, desrespeitando a sua história e a dignidade. Poder-se-á dizer que a Sé é uma soma de camadas de intervenções ao longo dos séculos, muitas das quais na transição do séc. XIX para o XX. A isso respondo que algumas dessas intervenções foram felizmente revertidas e que, hoje, à luz dos princípios e das boas práticas vigentes, temos a magna obrigação e a capacidade de não repetir erros passados e de não delapidar património tão valioso como a Sé.

Acresce que o lançamento da obra em curso se desenrolou no quadro de um processo toldado por dúvidas levantadas e nunca cabalmente esclarecidas quanto à qualidade do projecto e do financiamento (e procedimentos inerentes), como se pode consultar noutro texto da Cidadania Lisboa.

Olhando para estas duas situações não consigo evitar de me lembrar dos vendilhões do templo e da subsequente fúria de Jesus. Como também não consigo deixar de classificar de leviana, insensível e interesseira a acção do Cabido e do Patriarcado que, para o caso da tralha vergonhosa no interior da Sé, ainda iriam a tempo de pedir perdão e de retirar toda aquela tralha, devolvendo ao templo a dignidade perdida. Já quanto ao novo acesso lateral, teremos que viver com os estragos produzidos para sempre, neste caso também graças à inacção e cumplicidade da Direcção-Geral do Património Cultural, auto-demitida de apreciar criticamente a absurda obra.

Por tudo isto, a tristeza é muita – e ir à Sé nunca mais será a mesma coisa!

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