
Correio de Nossa Senhora, a secção do Arquivo do Santuário onde são guardadas as mensagens que as pessoas enviam para ou depositam em Fátima. Fotografias © António Marujo/7MARGENS.
Oito milhões. Esse é o número aproximado das cartas, desenhos, listas de nomes, ramalhetes espirituais e outras mensagens que compõem, neste momento, o Correio de Nossa Senhora, uma das secções do Arquivo do Santuário de Fátima. Durante um ano, percorri esse correio à procura de cartas, reflexões e experiências relacionadas com o tema da guerra. Mas o que ali se encontra é de tal modo vasto e rico, que não se pode resistir a ler angústias familiares ou amorosas, desejos de saúde ou emprego, esperanças de paz, de vida digna e de aperfeiçoamentos pessoais ou comunitários.
Neste domingo, em Fátima, será apresentado o livro A Caixa de Correio de Nossa Senhora (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores), que resulta desta investigação, que teve uma componente televisiva feita também em conjunto com o meu Amigo e camarada Joaquim Franco, e que deu origem a dois capítulos da reportagem Livrai-nos da Guerra. Esses dois episódios podem ser vistos no site da SIC Notícias, com os títulos “Queria falar contigo abertamente…” – o outro segredo de Fátima e “Dai-me a graça de voltar são e salvo…” – Fátima e a correspondência de guerra (Na página especial Livrai-nos da Guerra podem ver-se outros vídeos sobre os bastidores da reportagem ou de complemento aos dois episódios referidos.)
A sessão de apresentação do livro pode ser acompanhada, a partir das 18h deste domingo, 11, na página de Facebook da editora Temas e Debates (ou, em alternativa, neste endereço.)
Reproduzem-se a seguir excertos da apresentação do livro.
Abrir a caixa de correio

É uma memória intensa: na tarde de 25 de Abril de 1974, Salgueiro Maia e os seus militares devolviam o júbilo a um povo inteiro, a partir do Largo do Carmo, em Lisboa. Em Aveiro, onde eu residia, miúdo ainda, a televisão trazia-nos as imagens. Percebia pouco do que se passava, mas sabia, do meu pai, que ganháramos o precioso bem da liberdade. E sabia que a alegria da minha mãe se resumia a uma ideia: os seus três filhos rapazes já não teriam de ir para a guerra.
Foi também por causa desse dia que nasceu em mim uma forte convicção contra a guerra e anti-militarista. Sou dos que defende que cada vez mais os estados devem reduzir os orçamentos de defesa e aumentar os da educação, ambiente, investigação científica, saúde, segurança social… Infelizmente, as opções políticas de muitos governos vão no sentido oposto e crescem, por todo o mundo, as lógicas armamentistas, que levam a que alguns ganhem muito dinheiro à custa das vidas e das misérias de milhões de outros. As tragédias do aumento de refugiados ou da destruição de países inteiros como a Síria, o Iraque, a Líbia, o Iémen ou o Congo (para referir apenas alguns) aí estão, como dedos apontados às nossas consciências. Consideramos longínquas essas guerras, mas elas são alimentadas, com frequência, por armamentos vendidos por países ocidentais – nos quais Portugal se inclui.
Esta memória pessoal remete para vários dos temas presentes neste trabalho: desde logo, a questão central da Guerra Colonial, opção absurda e criminosa de um regime decrépito, que levou à morte milhares de jovens portugueses, angolanos, moçambicanos e guineenses; o dos jovens obrigados a participar em algo que não era seu, forçados a matar para se defenderem; a angústia das mães (e das namoradas, noivas ou familiares e amigos) quando viam os seus mobilizados para a guerra; e o papel que elas assumiam durante os longos meses de afastamento – que, no caso de mais de oito mil rapazes de Portugal, foi definitivo, já que tombaram em nome de um imenso disparate político.
Tais questões cruzam-se com a esperança que muitas pessoas depositavam na intercessão da Senhora de Fátima e que tão bem revela, como adiante se verá, o Correio de Nossa Senhora – designação de uma parte do arquivo do santuário, que recolhe as mensagens que para ali são enviadas.

(…) Nessas mensagens, entram todos os temas: fé e descrença, amores e desamores, saúde e dinheiro, afectos e sexualidade, escola e juventude, pais e filhos, Igreja e política. E também, claro, as preocupações com a guerra e a paz, pela justiça. Com uma escrita que se revela como uma conversa com a amiga mais íntima. Quase sempre confiante ou esperançada, outras vezes desiludida ou angustiada.
A possibilidade de poder, praticamente pela primeira vez, desbravar este Correio de Nossa Senhora, assim designado, permitiu, por isso, que o tema surgisse de forma quase evidente: Fátima e o problema da guerra e da paz, a partir da análise dessas cartas.
Vários factores davam suporte a esta opção. Os acontecimentos de Fátima registaram-se em 1917, um ano antes do fim da I Guerra Mundial e pouco depois da mobilização dos primeiros contingentes de um exército mal preparado e sem meios, para combater nas frentes europeias – depois de haver já milhares de outros mobilizados a lutar em Angola e Moçambique, também contra o exército alemão. Desde o início, o tema da guerra inscreve-se vigorosamente no fenómeno: logo no primeiro diálogo contado pelos videntes, uma das perguntas é “quando acaba a guerra?”
Ao longo das décadas, o tema continuou muito presente no discurso político-religioso à volta de Fátima, com referências sucessivas às perseguições religiosas na então União Soviética, à Guerra Civil de Espanha, à “conversão da Rússia” e à Guerra Fria e, finalmente, à Guerra Colonial. Ou seja, assumindo também uma componente ideológica anticomunista relevante – que, como se verá, nunca foi favorecida por nenhum dos papas que visitaram o santuário (Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco), que preferiram privilegiar o tema da paz.
Durante a Guerra Colonial, o aproveitamento político do fenómeno contrastou com várias vozes que, a partir do catolicismo, contestavam o regime e uma atitude predominante de silêncio cúmplice por parte de numerosos responsáveis católicos em Portugal. E a investigação permite verificar que, à medida que o tempo passa e a guerra se prolonga, as pessoas começam a preocupar-se mais com a salvação dos seus do que com a salvação do império, como dirá um dos investigadores entrevistados. Aliás, muitas das cartas que não assumem a ideologia e a leitura do regime preferem centrar-se nos pedidos pela paz, o que contrastava com a linguagem bélica de Salazar e do Estado Novo, no que pode ser interpretado como um desalinhamento em relação ao regime e, mesmo – porque não? – como uma espécie de “resistência passiva” ao que estava a ser imposto. Ou seja, percebe-se pelas cartas e várias memórias e reflexões aqui trazidas que Fátima traduzia, ao mesmo tempo, a aceitação, resignação e passividade em relação à guerra, mas, também uma forma de contestação – silenciosa e íntima, muitas vezes, concreta e pública, noutras, como se verá sobretudo no capítulo final.
Na sequência do que outros têm defendido, torna-se, por isso, evidente que cada vez menos Fátima deve ser visto como um fenómeno unívoco, mas reflecte antes a complexidade cultural, social, política e religiosa, seja do país, seja do próprio catolicismo.

(…) O trabalho tinha alguns objectivos e métodos precisos: em primeiro lugar, analisar e recensear a correspondência enviada para ou deixada em Fátima ao longo dos anos, relacionada com o tema da guerra (I Guerra Mundial, II Guerra Mundial e, sobretudo, Guerra Colonial, quando o volume de correspondência mais cresce). A partir dessa correspondência recenseada, era importante aprofundar o modo como o tema da guerra, presente desde o início no fenómeno de Fátima (nos relatos dos videntes, em vários testemunhos da época dos acontecimentos e no modo como a I Guerra Mundial “interferiu” com a vida das populações), foi percepcionado pelas pessoas que demandavam Fátima ao longo das décadas e, sobretudo, num momento em que essa realidade se tornou tão presente na vida das famílias e da sociedade portuguesa, como foi o da Guerra Colonial. (…)
O que aqui fica, pretende, por isso, ser um contributo, mesmo se modesto e a partir da linguagem jornalística, sempre com uma preocupação de rigor máximo, para o estudo da história da cultura e das mentalidades em Portugal (com pequenos excursos oriundos de outras geografias) e o modo como esses factores se cruzaram com a ideologia e o pensamento social dominantes. Não haverá um acervo documental deste género e desta dimensão relativo aos anos da ditadura, em que vemos tantas pessoas com pouca formação escolar a escrever, a expressar-se da forma mais íntima e pessoal (em algumas cartas, percebe-se que há mesmo pessoas analfabetas que pedem a outras que escrevam por elas). Mas há muitos outros pequenos arquivos (alguns com centenas de cartas, como se conta neste livro) ainda guardados por homens que foram mobilizados para a guerra ou pelas suas famílias e que, por força do tempo, correm o risco de desaparecer. Seria importante que o país cuidasse da preservação dessa memória colectiva, através da criação de um qualquer fundo documental da Guerra Colonial, pelo menos. No prefácio do livro Sinais de Vida, de Joana Pontes, Aniceto Afonso defende essa ideia e dá conta de algumas diligências já feitas no âmbito do Arquico Histórico-Militar. Creio que qualquer iniciativa deste género deve ser apoiada e incentivada.
Ao mesmo tempo, este trabalho procura perscrutar as atitudes dominantes das pessoas que acorriam a Fátima, em relação ao tema da guerra em geral e, especificamente, da Guerra Colonial. Neste aspecto, é importante perceber a evolução que a duração da guerra provocou, e que é notória em algumas cartas, bem como a composição sociológica dessas pessoas – normalmente de classes sociais mais baixas e, portanto, menos informadas sobre a realidade da guerra, até porque o que chegava pelos jornais, pelas rádios e pela (única) televisão existente era filtrado pelo mecanismo perverso da censura prévia.

Também a relação das cartas e testemunhos escritos com as manifestações de devoção popular como as peregrinações a pé e/ou as “promessas” feitas por soldados mobilizados para as frentes de batalha e pelos seus familiares (nomeadamente mãe, namorada e esposa) são objecto de análise. E ainda se afloram as interações entre a dimensão sócio-religiosa e política da população, sobretudo de alguns grupos, referindo não só o modo como a relação das pessoas com o fenómeno as afastava ou aproximava da consciência política, mas também como o próprio palco de Fátima foi lugar de tensões a propósito da guerra, mesmo no interior do catolicismo – e que levou, inclusivamente, ao aproveitamento do lugar para acções de propaganda política contra a guerra.
Com o que fica dito, percebe-se que a organização do livro é muito simples: começa-se por descrever o que é este arquivo, para abrir depois a janela sobre alguns dos temas que nele predominam (ou que, pela sua raridade ou estranheza, podem valer a pena referir); entra-se, depois, no argumento da guerra, alvo central desta pesquisa, em quatro fases: a presença do tema em Fátima ao longo deste século, desde o primeiro dia dos acontecimentos e a evolução do discurso para a paz como questão central; a relação desse tema com o (anti)comunismo; as referências no Correio à Guerra Colonial; e as leituras que sobre estas mensagens se podem fazer. Claro que nada disto é estanque e há referências que se vão cruzando ou mesclando.
Como se verá adiante, entre os oito milhões de mensagens que hoje já integram o Correio de Nossa Senhora, apenas uma pequena parte diz respeito aos anos até 1977 – os que foram consultados. Dentro desse universo, foram deixadas de lado as caixas que guardavam apenas as escritas em línguas estrangeiras e que, apesar disso, não abrangiam datas que poderia ser importante consultar (como se verá, são citadas cartas com origem noutros países). Ou seja, as cerca de 50 mil mensagens consultadas são maioritariamente em língua portuguesa, abrangendo desde a década de 1940 até 1977. (…)
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Este trabalho foi possível graças à Bolsa de Investigação Jornalística atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian. O reconhecimento desse facto fica aqui destacado, sobretudo porque essa iniciativa está a permitir a vários jornalistas fazer reportagens que hoje, infelizmente, já não são comuns nas redacções – e não só por falta de meios…
A possibilidade de aceder ao arquivo de Fátima foi o outro factor que permitiu a realização da pesquisa. (…)

Já escrevi (no livro A Senhora de Maio) e repito que me coloco na posição de quem não acredita que houve em Fátima, lugar outrora remoto, uma aparição física de alguém que a tradição católica identifica como a mãe de Jesus Cristo. Antes assumo a forma de olhar para o fenómeno apresentada pelo então cardeal Ratzinger, quando fez a interpretação do “segredo de Fátima”: tratou-se de uma visão interior das crianças (de Lúcia, em primeiro lugar). O que não diminui a importância do que, ao longo de um século, ali se tem passado, ultrapassando a contingência histórica de 1917 e das descrições dos três videntes, para se tornar parte do modo de viver o catolicismo – seja ele mais tradicional, mais ritual ou mais purificado – e uma realidade a que a antropologia, a sociologia, a teologia e outras ciências humanas devem dar atenção. Por isso, este será mais um contributo para procurar entender em profundidade algo que, para tantos, é tão intenso e fundo. Que, por vezes, ajuda as pessoas a viver um pouco melhor, mesmo quando isso significa uma aparente resignação, como se percebe por tantas mensagens que aqui se encontrarão. Ou que, noutras ocasiões, permite fazer uma experiência espiritual, mesmo se não referida especificamente à matriz fundacional de Fátima. (…)











