História de Moçambique em livro

Os padres assassinados por falarem contra a injustiça dos militares

| 9 Mai 2024

O bispo Diamantino Antunes com o livro sobre os dois padres: “Os padres eram testemunhas incómodas dos atentados aos direitos humanos”. Foto © Ana Paula

 

Foi no contexto da guerra civil moçambicana (1976-1922) que os padres jesuítas João de Deus, moçambicano, e Sílvio Moreira, português, foram mortos, em 30 de outubro de 1985, em Chapotera (província de Tete, Norte do país), e sepultados dia 4 de novembro, no cemitério da vila Ulonguè. Agora, um livro do bispo de Tete, Diamantino Antunes, tenta resgatar a memória do que foram esses tempos “violência, raptos, morte e destruição” e o papel de dois padres que testemunhavam “muitas injustiças praticadas pelos militares e forças de segurança”. O livro será apresentado em Fátima, nesta sexta-feira, 10 de maio, a partir das 18h, no auditório do Consolata Museu, com a presença do autor.

A conversa decorre também no “âmbito da comemoração dos 50 anos da liberdade em Portugal”, explicam os responsáveis pelo espaço museológico. Neste caso, para falar sobre “a vida de dois mártires que foram brutalmente assassinados em 1985 em Chapotera”. O bispo de Tete levou a cabo um trabalho de investigação sobre a vida e as circunstâncias que levaram à morte João de Deus e Sílvio Moreira, de quye resultou o livro Mártires de Chapotera, publicado pela Consolata Editora no final de 2023. Para lá da biografia, há também um breve álbum fotográfico dos dois padres.

O padre Sílvio “não estava calado perante o mal e denunciava-o abertamente”, diz o bispo autor do livro. “A ousadia sem medo e o sentido de justiça eram virtudes inatas nele. Já tinha recebido ameaças de morte por denúncias públicas que tinha feito de assassinatos.” E “entre julho e outubro de 1985, os últimos meses da sua vida, o padre Sílvio enviou cinco relatórios, um em cada mês, para a Comissão Episcopal Justiça e Paz, denunciando os abusos dos direitos humanos, roubos, assassinatos, massacres verificados na Angónia, na sua maioria perpetrados pelas forças militares”.

Segundo o bispo Diamantino Antunes, os dias que antecederam a morte dos missionários “foram de grande violência: houve eliminação física de pessoas que se julgavam colaboradoras da guerrilha”. Conta ainda o autor do livro: “Os missionários pressentiam o perigo e sabiam que também eles poderiam ser vítimas da violência da guerra ou de vingança. Estavam entre dois fogos, porque eram testemunhas incómodas do mal que grassava e dos atentados aos direitos humanos. Sabiam que eram vigiados e a sua presença naquele lugar era indesejada e vista com suspeita por parte das autoridades civis e, sobretudo, militares.” Acabaram assassinados.

 

Papa pode reconhecer santidade dos missionários

O bispo António Juliasse em visita ao campo de refugiados de Meculene, em Cabo Delgado: a violência que nos últimos anos tem assolado esta província do Norte de Moçambique também “já fez os seus mártires entre a comunidade católica”. Foto © ACN Portugal

A diocese de Tete iniciou um processo de canonização – que poderá terminar com a atribuição do estatuto de santo – de João de Deus e Sílvio Moreira. O Papa poderá um dia vir a reconhecer publicamente a santidade destes missionários. Depois de, no passado mês de agosto, ter sido dada como encerrada a fase diocesana do processo de canonização, em Moçambique, está agora em curso a segunda e última fase do processo, na Santa Sé.

Em declarações por ocasião do lançamento do livro, o bispo de Tete explica que os dois missionários assassinados ainda “estão muito presentes na memória e no coração da população”. E explica: “A sua fama de martírio é viva e espontânea entre aqueles que os conheceram em vida. São considerados bons pastores, repletos de amor a Deus e próximos dos seus irmãos que, vivendo o dinamismo das bem-aventuranças, chegaram até ao dom da sua própria vida, de modo violento, selando com o seu próprio sangue o Evangelho que anunciavam.”

Diamantino Antunes afirma que a desejada beatificação e canonização dos missionários “é um sinal da maturidade da Igreja Católica em Moçambique; ontem como hoje, a Igreja Católica é chamada a responder com a sua presença efetiva e consoladora entre a população martirizada, nunca cessando de lançar apelos à paz e à reconciliação das partes em conflito”.

Tal como na altura em que os dois missionários foram assassinados, ainda hoje, em Moçambique, as pessoas fogem da guerra. “A violência que assola o norte de Moçambique, na província de Cabo Delgado, já fez os seus mártires entre a comunidade católica. Há pessoas mortas nesta guerra que são autênticos mártires da paz, foram mortos porque recusaram a lógica da guerra e da intolerância. O exemplo dos mártires de Chapotera, que optaram por uma vida de testemunho e anúncio do evangelho da paz e do amor, permanece e multiplica-se”, afirma o bispo de Tete.

 

Texto publicado ao abrigo da parceria 7MARGENS/Fátima Missionária.

 

Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja

A um mês da ordenação de dois bispos

Patriarca de Lisboa convida “todos” para “momento raro” na Igreja novidade

O patriarca de Lisboa, Rui Valério, escreveu uma carta a convocar “todos – sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos” da diocese para estarem presentes naquele que será o “momento raro da ordenação episcopal de dois presbíteros”. A ordenação dos novos bispos auxiliares de Lisboa, Nuno Isidro e Alexandre Palma, está marcada para o próximo dia 21 de julho, às 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos).

“Sempre pensei envelhecer como queria viver”

Modos de envelhecer (19)

“Sempre pensei envelhecer como queria viver” novidade

O 7MARGENS iniciou a publicação de depoimentos de idosos recolhidos por José Pires, psicólogo e sócio fundador da Cooperativa de Solidariedade Social “Os Amigos de Sempre”. Publicamos hoje o décimo nono depoimento do total de vinte e cinco. Informamos que tanto o nome das pessoas como as fotografias que os ilustram são da inteira responsabilidade do 7MARGENS.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou

Sínodo, agora, é em Roma… que aqui já acabou novidade

Em que vai, afinal, desembocar o esforço reformador do atual Papa, sobretudo com o processo sinodal que lançou em 2021? Que se pode esperar daquela que já foi considerada a maior auscultação de pessoas alguma vez feita à escala do planeta? – A reflexão de Manuel Pinto, para ler no À Margem desta semana

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados

Inaugurado em Vendas Novas

Nada se perde: um antigo colégio dos Salesianos é o novo centro de acolhimento do Serviço Jesuíta aos Refugiados novidade

O apelo foi feito pelo Papa Francisco: utilizar os espaços da Igreja Católica devolutos ou sem uso para respostas humanitárias. Os Salesianos e os Jesuítas em Portugal aceitaram o desafio e, do antigo colégio de uns, nasceu o novo centro de acolhimento de emergência para refugiados de outros. Fica em Vendas Novas, tem capacidade para 120 pessoas, e promete ser amigo das famílias, do ambiente, e da comunidade em que se insere.

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita

Com as eleições no horizonte

Bispos católicos de França apelam à fraternidade e justiça, mas não se demarcam da extrema-direita novidade

O conselho permanente dos bispos da Igreja Católica de França considera, num comunicado divulgado esta quinta-feira, 20 de junho, que o resultado das recentes eleições europeias, que deram a vitória à extrema-direita, “é mais um sintoma de uma sociedade ansiosa, dividida e em sofrimento”. Neste contexto, e em vésperas dos atos eleitorais para a Assembleia Nacional, apresentaram uma oração que deverá ser rezada por todas as comunidades nestes próximos dias.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This