Os padres do Macúti, a guerra colonial e a denúncia dos massacres de Mukumbura

3 Set 19Destaques, Estado, Política e Religiões, Igrejas Cristãs - Homepage, Newsletter, Últimas

Beira, Moçambique – lugares da tragédia, palcos da história (III)

Na véspera da visita do Papa Francisco a Moçambique e meio ano depois do ciclone Idai ter atingido a cidade da Beira e a região centro do país, o 7MARGENS recorda episódios e personagens da história recente do catolicismo moçambicano, que tiveram a Beira por cenário. Neste texto, Fernando Marques Mendes, um dos “Padres do Macúti” evoca o caso em que se viu envolvido por denunciar os massacres de Mukumbura, cometidos por tropas portuguesas, e que acabou com a expulsão de Moçambique, ditada pelo regime colonial.

 

Quando cheguei à Beira, em setembro de 1971, Moçambique estava em guerra. Guerra que, entre outras aberrações, pôs a nu a aliança do trono e do altar. E os bispos da chamada metrópole recrutavam nas suas dioceses os padres que haveriam de, na Guiné, Angola ou Moçambique, dar o apoio moral e religioso à tropa portuguesa incentivando, muitas vezes, os jovens militares à luta contra “os terroristas que, com o apoio das potências comunistas e estrangeiras pretendiam separar Moçambique da Mãe Pátria”. Fardados de oficial e bem remunerados pelo Estado, foram muitos (houve exceções, felizmente) os padres capelães que se deixaram enredar em discursos patrioteiros e belicistas como convinha aos donos da guerra.

A guerra, porém, não chegava aos centros urbanos onde vivia a comunidade portuguesa. Aqui, simplesmente não existia. A comunicação social, rádio e imprensa, calava completamente o que se passava no terreno de batalha. A guerra nem era, tão pouco, assunto nas conversas da família ou da sociedade. No que respeita ao clero e aos seus encontros de planeamento pastoral, era notória a divergência de opinião entre os missionários de origem estrangeira (Padres Brancos e Padres de Burgos, por exemplo) e os de origem portuguesa, em geral. Estes pareciam estar mais interessados na construção de igrejas com uma grande porta ao fundo para facilitar a saída e entrada de andores para que não acontecesse o que aconteceu na Missão de Amatongas (diocese da Beira), como lamentava um missionário português da ordem franciscana.

Mas a guerra e os horrores da mesma existiam mesmo! Eu próprio e o padre Sampaio tínhamos o privilégio de partilhar o jantar na Casa da Diocese (assim era designada a habitação do bispo e a secretaria diocesana).

Sala de refeições na Casa da Diocese (O autor do texto, Fernando Marques Mendes, é o primeiro à esquerda e Joaquim Teles Sampaio, o pároco, o último da direita). Foto captada em março de 1973, após a libertação dos padres da prisão. Foto: Direitos reservados

 

Uma lista com nomes de pessoas massacradas

A Casa da Diocese era, também, o ponto de encontro dos missionários, portugueses ou estrangeiros em trânsito entre as suas missões do norte e a Europa. Foi numa situação destas que o padre Enrique Ferrando, missionário da diocese de Tete, em trânsito para Espanha, nos deixou uma cópia do relatório dos padres Alfonso Valverde e Martín Hernandez sobre as bárbaras matanças que as tropas portuguesas, auxiliadas pelas da Rodésia (atual Zimbabwé) e que ficaram conhecidas por massacres de Mukumbura.

O documento relata as atrocidades cometidas desde o dia 27 de abril até 4 de novembro de 1971. Todas as dezenas de vítimas estão identificadas pelo nome e idade, como no testemunho do ocorrido no dia 4/11/1971: “Na povoação de António, os Comandos apanharam um grupo de 10 pessoas. Todas eram mulheres e crianças. Foram obrigadas a entrar dentro de uma palhota e começaram a atirar granadas contra elas para incendiar a palhota e queimá-las vivas. (…) Só uma mulherzinha, quando os soldados se foram embora é que conseguiu sair da palhota em chamas, com um ombro desfeito por estilhaços de granadas. Ela contou-nos tudo e deu-nos os nomes das mulheres e crianças que morreram dentro da palhota e que nós enterramos no sábado, dia 6. (…) Simplesmente contamos o que temos visto com os nossos próprios olhos.” (P. Alfonso Valverde e P. Martín Hernandez, testemunho no Processo 11.552 – CI (2), folhas 101 a 103, Arquivo Nacional Torre do Tombo).

Com estes relatos nas mãos, entregues nas vésperas de Natal pelo padre Enrique Ferrando, companheiro dos padres Alfonso e Martín, era impossível ficarmos calados. Como homens, acrescidos da responsabilidade de cristãos e sacerdotes, calar significava ser cúmplice destes mesmos crimes, calar seria ficar, para o resto das nossas vidas, com as mãos tingidas do sangue destes homens, mulheres e crianças vítimas da barbárie desta guerra sem sentido!

O padre Sampaio e eu lemos e discutimos o relatório vezes sem conta e, dentro de nós, crescia a obrigação moral e pastoral de informar a nossa comunidade constituída, essencialmente, por gente privilegiada de origem europeia, que o que se estava a passar, além de criminoso, voltar-se-ia contra si e punha em causa a sua permanência naquele território.

No dia 1 de janeiro seguinte (1972), como habitual, celebrava-se o Dia Mundial da Paz. O tema proposto pelo Papa Paulo VI era: “Se queres a paz trabalha pela justiça”. Entendemos que este seria o dia certo para que, na igreja do Macúti, se ouvisse o grito dos mais pobres e injustiçados de Moçambique. O padre Sampaio, na sua qualidade de pároco, pediu-me para organizar os tópicos da homilia, tendo em conta o que observávamos, diariamente, na vida social da Beira e o que acabávamos de saber sobre o que se passava nos territórios do norte de Moçambique relativamente à guerra.

Assim fiz. Na máquina de escrever, com papel químico – ainda não havia computadores nem fotocopiadores – fiz três cópias porque ao domingo havia 3 missas: duas na igreja do Macúti e uma terceira num bairro negro da área. O padre jesuíta, responsável pela celebração no bairro negro, com a nossa total concordância, achou que o teor daquela homilia estava mais adequada à comunidade branca que frequentava, maioritariamente, a igreja do Macúti.

 

Na homilia: o que deve fazer a Igreja perante as injustiças?

A igreja do Macúti, entretanto destruída em março de 2019, na sequência do ciclone Idai. Foto © Fernando Marques Mendes

 

Numa primeira parte, depois da saudação à comunidade e da expressão de votos por um Ano Novo muito feliz, fazia-se a justificação do tema e da urgência de sobre ele se refletir. Refletir sobre os conceitos de justiça e de paz e da sua relação recíproca, refletir sobre as exigências que se nos impõem, enquanto indivíduos e enquanto sociedade, para que haja uma verdadeira justiça. Depois da enunciação de algumas injustiças endémicas que persistem e crescem no mundo, pergunta-se:

“E entre nós? 1. Domínio de uma raça sobre a outra (…). 2. Condições muito mais precárias nos de cor negra (…). 3. Exploração no trabalho (…). 4. Consideram-se as culturas nativas em grau de inferioridade. 4. É dever de todos eliminar a guerra (…). 6. Torturas para arrancar confissões, prisões prolongadas sem julgamento, padres expulsos (..)”.

E a homilia continuava perguntando: Que deve fazer a Igreja perante as injustiças? E enunciavam-se algumas respostas:

“(…) A Igreja tem a obrigação grave de denunciar as injustiças. Este mundo está profundamente marcado pelas injustiças. Há centenas de milhares e milhões de homens que passam fome, que vivem explorados vergonhosamente e, entretanto, gastam-se rios de dinheiro em armamentos para que o poderio dos grandes seja maior. O mundo espera, embora já um pouco desiludido, alguma coisa da Igreja. Esta tem obrigação de alertar a consciência mundial sobre a exploração vergonhosa dos pobres, os métodos policiais desumanos como as torturas, as situações desumanas de emigrantes, a segregação social.

As injustiças interpelam todos os que acreditam em Cristo. Não podemos contentar-nos com desejos de paz. Teremos que a construir na justiça, no respeito sagrado pelos direitos do homem.

Nunca repararam que os mais fracos, os mais pobres, os mais pequenos têm sempre mais deveres que direitos, e os ricos, os grandes, os poderosos têm sempre mais direitos que deveres?

Ao fazer esta denúncia a Igreja provoca o escândalo. Mas é necessário que haja este escândalo!”

Na última parte da homilia, falava-se do facto de estarmos, em Moçambique, a celebrar a paz, estando este território envolvido numa guerra assassina. É o momento para denunciar os massacres de Mukumbura relatados pelos missionários locais, padres Alfonso e Martín.

Transcrevemos:

“Celebramos o Dia Mundial da Paz, estando em guerra em Moçambique. Antes não houvesse. Muitos querem convencer-se que não há. Muitos têm medo de dizer que há. A imprensa também não o diz; anda mais preocupada com misses, anuncia boîtes e cabarés, acidentes na via pública, quem sai e quem entra e relatos de jantaradas célebres de comilões de alto nível.

Celebramos o Dia da Paz com guerra em Moçambique. Sabemos um pouco do que se passa no norte, Cabo Delgado e Tete. Sabemos por testemunhas oculares e com dados concretos que, em Novembro de 71, chegou à região de Mukumbura um grupo de 40 comandos e queima e extermina tudo o que encontra: foram queimadas mais de 50 palhotas; sabemos que no dia 4 de Novembro, na mesma região, um grupo de 16 pessoas, mulheres e crianças de quem nos foram dados o nomes e as idades, foram forçadas a entrar numa palhota e ali queimadas vivas pelas chamadas forças da ordem e da paz; sabemos de mais casos de antiterrorismo brutal que nos indigna citar, que nos atormenta a consciência cristã e, até, humana que para nós está acima de fervores nacionalistas e imperialistas. Nada fazemos e nada contestamos contra esta barbárie. Uns por medo outros por interesses económicos, nada fazemos na continuação desta chacina; outros, ainda, porque não estão nem querem estar informados. (…) Batamo-nos pela justiça no mundo se queremos a paz.”

Esta é parte do conteúdo da homilia proferida por mim, na missa das 9h da manhã com a presença de algumas dezenas de pessoas, essencialmente senhoras e alguns mainatos (empregados domésticos) e pelo padre Sampaio na missa das 6h da tarde com a igreja apinhada de gente, como era costume todos os domingos. Esta celebração da tarde de domingo era assistida quase exclusivamente por portugueses. (Cf. Processo dos Padres do Macúti, Arquivo Histórico Militar, Lisboa)

No dia 9 de janeiro, os padres do Macúti (Sampaio e Fernando) divergiram do propósito do chefe dos escuteiros, senhor Bandeira Rodrigues, que pretendia que a “promessa” de lobitos se fizesse na igreja perante a bandeira de Portugal. Os padres entendiam que o regulamento não impunha essa obrigatoriedade e proibiram que a cerimónia se fizesse nesses termos. Por decisão do dito chefe do agrupamento de escuteiros, não houve promessa e a bandeira portuguesa foi hasteada na torre da igreja.

Fernando Marques Mendes, junto à torre da igreja do Macúti, em 1998, numa visita a Moçambique. Foto: Direitos reservados

 

A prisão dos padres

Segundo o entendimento geral, toda esta encenação da bandeira foi orquestrada pelo senhor Bandeira Rodrigues em conluio com o engº Jorge Jardim, administrador do Notícias da Beira. Logo, no dia seguinte, dia 10 de janeiro, esta era a grande cacha do jornal:

Capa do “Notícias da Beira” de 10 de Janeiro de 1972, com um texto a atacar os “crimes” dos padres “contra a harmonia racial”. Foto: Direitos reservados.

 

E a campanha contra os padres do Macúti continuou com a publicação de artigos de opinião diários, assinados por C.A., acirrando os ânimos da população branca da cidade contra os padres e provocando o linchamento público dos mesmos, como teria acontecido ao entardecer do próprio dia da notícia acima, caso os padres não tivessem rumado, manhã cedo, a Vila Pery (atual Chimoio) para participar num curso de formação.

No dia 14 de janeiro, em Vila Pery, quando no fim do almoço passeavam pelas ruas da vila, os dois padres foram abordados por dois agentes da PIDE (polícia política do regime) ordenando que os acompanhassem. Conduzidos à delegação local da PIDE foram, de seguida, transportados para as celas prisionais da delegação da Beira. Cada um na sua cela. Um mês depois, feito o interrogatório e a instrução do processo, foram transferidos para o denominado “Centro de Recuperação da Direcção Geral de Segurança/Machava”, ou seja, para a prisão política da Machava, nos subúrbios de Lourenço Marques (atual Maputo), onde já estavam os padres Alfonso e Martín, de Mukumbura.

Nota de culpa do Tribunal Militar entregue aos dois padres. Foto: Direitos reservados.

 

Ali permanecemos até à leitura da sentença pelo coletivo do 1º Tribunal Militar Territorial de Moçambique, em 26 de janeiro de 1973. A sentença foi condenatória mas punha os padres em liberdade: no meu caso, considerando os 13 meses de prisão preventiva e, no caso do padre Sampaio, suspendendo a pena por dois anos. Era preciso pôr os padres em liberdade, porque mantê-los na prisão causava maiores prejuízos ao regime…

Os padres Alfonso e Martín nunca foram julgados. O regime político-militar não aguentaria. No princípio de 1974, acompanhados desde Lourenço Marques por um agente da PIDE, foram postos em Madrid. Um e outro haveriam de sucumbir por ataque cardíaco fulminante: o Martín, quando celebrava a Missa de Páscoa em 2007, o Alfonso, quando convivia com os seus colegas na Casa dos Padres de Burgos de Madrid, em 2012. Duas vozes proféticas e poderosas que tive o privilégio de conhecer!

O padre Sampaio, agora com 86 anos, vive no lar da Santa Casa da Misericórdia, em Manteigas. Apesar da debilidade da sua saúde, é o capelão da casa.

Passaram 47 anos e a nossa vida – minha e do Sampaio – está profundamente marcada por estes acontecimentos. Acontecimentos que, diria, funcionam como um guião de vida a exigir uma permanente fidelidade nas atitudes, nos comportamentos, nos compromissos, enfim, na VIDA!

27 de maio de 2019

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