Juntos durante três dias

Os participantes do Sínodo estão mais abertos, compreensivos e amigos… Ou pelo menos era essa a intenção do retiro que fizeram

| 3 Out 2023

Alguns dos participantes durante uma das meditações no retiro espiritual que recedeu a assembleia do sínodo, out 2023. Foto Vatican Media

O retiro incluiu missa diária, orações comunitárias e individuais, trabalhos de grupo e momentos de silêncio, mas o que mais marcou estes três dias foram as seis meditações guiadas pelo padre dominicano Timothy Radcliffe. Foto © Vatican Media.

 

Só faltou o Papa. De resto, todos os membros, delegados e convidados especiais para a XVI Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, que começa esta quarta-feira, 4 de outubro, estiveram juntos em retiro espiritual na Fraterna Domus, em Sacrofano, 32 km a norte de Roma. Chegaram na noite de 30 de setembro, depois de terem participado na vigília ecuménica que teve lugar na Praça de São Pedro e ficaram até ao final do dia desta terça-feira, 3 de outubro. O retiro incluiu missa diária, orações comunitárias e individuais, trabalhos de grupo e momentos de silêncio, mas o que mais marcou estes três dias foram as seis meditações guiadas pelo padre dominicano Timothy Radcliffe (a ele ‘encomendadas’ pelo Papa), que desafiou todos os participantes a libertarem-se dos medos e arriscarem fazer “amizades improváveis”. Nunca ninguém disse que seria fácil, mas neste dias Radcliffe garantiu que vai valer a pena o esforço.

 

“Unidos numa esperança que transcende as nossas divergências”

Padre Timothy Radcliffe durante uma das meditações no retiro espiritual que recedeu a assembleia do sínodo, out 2023. Foto Vatican Media

O padre Timothy Radcliffe durante uma das meditações no retiro espiritual que precedeu a assembleia do sínodo. Foto © Vatican Media.

 

“Somos todos radicalmente incompletos e precisamos uns dos outros”, começou por reconhecer e alertar Radcliffe logo na manhã de domingo. E prosseguiu, focando-se especificamente no Sínodo, colocando “o dedo nas feridas’: “Alguns de nós temos medo desta jornada e do que está por vir. Alguns esperam que a Igreja mude dramaticamente, que tomemos decisões radicais, por exemplo sobre o papel das mulheres na Igreja. Outros têm medo exatamente destas mesmas mudanças e temem que elas apenas levem à divisão, até mesmo ao cisma. Alguns de vocês prefeririam não estar aqui.”

Mas – lembrou o antigo Mestre da Ordem dos Pregadores – “em momentos cruciais dos evangelhos, sempre ouvimos estas palavras: ‘Não tenhas medo!”.  E sugeriu: “comecemos a rezar para que o Senhor liberte os nossos corações do medo. Para alguns, este é o medo da mudança e para outros o medo de que nada mude. Mas ‘a única coisa que devemos temer é o  próprio medo'”, sublinhou.

Radcliffe, 78 anos,  recordou então como Jesus pediu aos seus discípulos que caminhassem consigo, juntos (que é o que significa syn-hodos: caminhar juntos), até Jerusalém, onde ele sofreria, morreria e ressuscitaria. Relutantes, os discípulos aceitaram, e ao longo da jornada discutiram, desentenderam-se várias vezes. “Muitas vezes seremos como aqueles discípulos, e entender-nos-emos mal e até discutiremos. Mas o Senhor conduzir-nos-á adiante rumo à morte e à ressurreição da Igreja”, assegurou o frade dominicano.

É preciso, assinalou Radcliffe, ter esperança: “a esperança de que este Sínodo conduza à renovação da Igreja e não à divisão; a esperança de que nos aproximaremos uns dos outros como irmãos e irmãs. Esta é a nossa esperança não apenas para a Igreja Católica, mas para todos os nossos irmãos e irmãs batizados”.

Mas há uma grande dificuldade, reconheceu: “temos esperanças contraditórias”. E a questão que se impõe é: “como podemos ter esperança juntos?”. A resposta está precisamente na morte e ressurreição de Jesus, explica: “a esperança que transcende todas as nossas esperanças”. E esta é também “a esperança eucarística deste caminho sinodal. O Senhor está connosco”, e isso faz com que “o conflito entre as nossas esperanças pareça menor, quase absurdo”.

“Se estamos verdadeiramente a caminho do Reino, importa realmente se vocês se alinham com os chamados tradicionalistas ou progressistas?”, perguntou Radcliffe. E arriscou mesmo dizer: “Os maiores presentes virão daqueles de quem discordamos, se ousarmos ouvi-los”.

Assim, concluiu na sua primeira meditação: “podemos estar divididos por esperanças diferentes. Mas se ouvirmos o Senhor e uns aos outros, procurando compreender a sua vontade para a Igreja e o mundo, estaremos unidos numa esperança que transcende as nossas divergências”.

(A primeira meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

“Um tsunami de solidão”

Mas há outra fonte de tensão, assinalou o padre dominicano na sua segunda meditação: “a nossa compreensão da Igreja como nosso lar às vezes entra em conflito”. E, lembrando que todos “precisamos de um lugar onde sejamos aceites e desafiados”, defendeu que precisamos também de “renovar a Igreja como a nossa casa comum se quisermos falar a um mundo que sofre uma crise de sem-abrigo”.

Radcliffe elencou várias dimensões dessa crise: “Estamos a consumir a nossa pequena casa planetária. Existem mais de 350 milhões de migrantes em movimento, fugindo da guerra e da violência. Milhares morrem cruzando os mares para tentar encontrar um lar. Nenhum de nós pode estar inteiramente em casa, a menos que eles estejam. Mesmo nos países ricos, milhões dormem nas ruas. Os jovens muitas vezes não têm condições de comprar uma casa. Em todos os lugares há uma terrível falta de morada espiritual. O individualismo agudo, a desagregação da família, as desigualdades cada vez mais profundas fazem com que sejamos atingidos por um tsunami de solidão. Os suicídios estão a aumentar porque sem um lar, físico e espiritual, não se pode viver”.

Ao mesmo tempo, os católicos estão separados por “diferentes entendimentos” da Igreja como lar. Para alguns, a Igreja é casa “pelas suas antigas tradições e devoções, pelas suas estruturas e linguagem herdadas”. Mas, para outros, “a Igreja atual não parece ser um lar seguro”, pois “marginaliza muitas pessoas”, como as mulheres, os divorciados e recasados. Pois há aqueles para quem “a ideia de um acolhimento universal, em que todos são aceites, independentemente de quem sejam, é considerada destrutiva para a identidade da Igreja”.

Por isso, “devemos lembrar-nos de todas aquelas que ainda não se sentem em casa na Igreja: mulheres que se sentem não reconhecidas num patriarcado de velhos brancos como eu!”, insistiu. “Pessoas que sentem que a Igreja é demasiado ocidental, demasiado latina, demasiado colonial. Devemos caminhar rumo a uma Igreja na qual eles não estejam mais à margem, mas no centro”.

E, seja como for, “devemos alargar a tenda da nossa simpatia para com aqueles que pensam diferente”, aconselhou o padre dominicano na sua segunda meditação, deixando ainda outro desafio: libertar a Igreja do clericalismo. “Como pode o clero abraçar uma identidade que não é clerical? Este é um grande desafio para uma Igreja renovada. Abracemos sem medo uma nova compreensão fraterna do sacerdócio ministerial! Talvez possamos descobrir como esta perda de identidade é, na verdade, uma parte inerente da nossa identidade sacerdotal”, afirmou.

Por fim, Radcliff fez questão de abordar ainda o tema dos abusos sexuais na Igreja. “Repetidas vezes durante a preparação para este Sínodo, foi feita a pergunta: ‘Mas como podemos sentir-nos à vontade na Igreja com o horrível escândalo dos abusos sexuais?’ Para muitos, esta foi a gota d’água. Eles fizeram as malas e foram embora”, referiu, para depois lembrar que “Deus  permanece na nossa Igreja, mesmo com toda a corrupção e abuso”. Por isso, também os católicos devem permanecer. E concluiu: “Precisamos da Igreja, nosso lar atual, apesar de todas as suas fraquezas, mas também de respirar o oxigénio cheio do Espírito do nosso futuro lar sem fronteiras”.

(A segunda meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

“A amizade floresce quando ousamos partilhar as nossas dúvidas”

Na terceira meditação, Radcliff defendeu que a fecundidade do Sínodo está dependente dos laços de amizade que se estabeleçam durante o mesmo, dos participantes entre si e com Deus. Face às “fontes de divisão” que abordou nas meditações anteriores, o padre dominicano considera que todos têm “a tarefa criativa de fazer amizades improváveis”, especialmente com as pessoas das quais discordam. “Se você acha que estou a dizer disparates, venha e faça amizade comigo!”, pediu, meio a brincar meio a sério.

“É pela amizade que faremos a transição do “eu” para o “nós”. Sem isso, não conseguiremos nada”, garantiu.

Num mundo que “é subvertido por tendências destrutivas”, como “a ascensão do populismo, em que as pessoas são unidas por narrativas simplistas, slogans fáceis, a cegueira da multidão”, e em que “há um individualismo agudo”, Radcliffe afirmou: “a coisa mais corajosa que podemos fazer neste Sínodo é sermos verdadeiros sobre as nossas dúvidas e questões uns com os outros, questões para as quais não temos respostas claras”.

Porque, na perspetiva do pregador, “a amizade floresce quando ousamos partilhar as nossas dúvidas e buscar juntos a verdade. De que adianta conversar com pessoas que já sabem tudo ou que concordam plenamente?”.

(A terceira meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

Uma conversa que ultrapasse fronteiras

Na sua quarta meditação, Radcliffe partiu do tema anterior: “somos chamados a percorrer o caminho sinodal em amizade. Caso contrário, não chegaremos a lugar nenhum”. E acrescentou: “A amizade, com Deus e uns com os outros, está enraizada na alegria de estarmos juntos, mas precisamos de palavras”, e “muitas pessoas esperam que neste Sínodo a sua voz seja ouvida. Eles sentem-se ignorados e sem voz. Eles estão certos. Mas só teremos voz se primeiro ouvirmos”, alertou.

E como fazer para que esta conversa se estabeleça? Radcliffe respondeu: “A conversa precisa de um salto imaginativo na experiência da outra pessoa. Para ver com os olhos e ouvir com os ouvidos. Precisamos de entrar na pele deles. De que experiências brotam as suas palavras? Que dor ou esperança carregam? Em que jornada estão?”. É necessário, disse, “ultrapassar as fronteiras” da esquerda e da direita, culturais, e também geracionais.

Neste campo, Radcliffe considera que “as famílias podem ensinar muito à Igreja sobre como lidar com as diferenças. Por exemplo, “os pais aprendem como chegar aos filhos que fazem escolhas incompreensíveis e ainda assim sabem que continuam a ter um lar”.

“Se descobrirmos o prazer de imaginar por que é que os nossos irmãos e irmãs têm opiniões que consideramos estranhas, então uma nova primavera começará na Igreja. O Espírito Santo nos dará o dom de falar outras línguas”, adiantou o dominicano.

E se muitos parecem querer saber “para onde este Sínodo conduzirá a Igreja”, a verdade é que, “se soubéssemos com antecedência, não faria sentido tê-lo!”. por isso, O frade deixou um convite: “Deixemo-nos surpreender!”, assegurando: “Se nos abrirmos uns aos outros neste Sínodo, todos seremos transformados. Será um pouco de morte e ressurreição”.

(A quarta meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

Uma “crise de autoridade”

Na sua penúltima meditação, o frade dominicano inglês quis destacar outro elemento importante em relação ao diálogo: “Não poderá haver conversa frutífera entre nós, a menos que reconheçamos que cada um de nós fala com autoridade”.

E recordou que “muitos leigos ficaram surpresos durante a preparação deste Sínodo ao descobrirem que eram ouvidos pela primeira vez”. A maioria terá duvidado da sua própria autoridade e perguntado: ‘Posso realmente oferecer algo?’. Mas não são apenas os leigos que pensam não ter autoridade, expôs Radcliffe: “Toda a Igreja está aflita por causa de uma crise de autoridade. (…) A crise dos abusos sexuais desacreditou-nos”. Mais: “O nosso mundo inteiro está a sofrer uma crise de autoridade. Todas as instituições perderam autoridade. Os políticos, a lei, a imprensa sentiram que a autoridade se esvaía. A autoridade parece sempre pertencer a outras pessoas: ou aos ditadores que estão a chegar ao poder em muitos lugares, ou aos novos meios de comunicação, ou às celebridades e influenciadores. O mundo anseia por vozes que falem com autoridade sobre o significado das nossas vidas”, afirmou o frade, alertando: “Vozes perigosas ameaçam preencher o vazio”.

Então, como pode a Igreja recuperar a autoridade e falar a um mundo que anseia por vozes que soem verdadeiras? Radcliffe sugeriu que “não é necessária qualquer competição, como se os leigos só pudessem ter mais autoridade se os bispos tivessem menos, ou os chamados conservadores competissem pela autoridade com os progressistas”. O segredo está em “transcender as formas competitivas de existir” e fundar a autoridade na beleza, na bondade/santidade, e na verdade. “Sem verdade, a beleza pode ser vazia. Sem bondade, a beleza pode enganar. A bondade sem verdade desmorona em sentimentalismo. A verdade sem bondade leva à Inquisição”.

No fim, “se a Igreja se tornar verdadeiramente uma comunidade de capacitação mútua, falaremos com a autoridade do Senhor. Tornar-se uma Igreja assim será doloroso e belo. Isto é o que veremos na última conferência”, adiantou Timothy Radcliffe.

(A quinta meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

“A verdade nos libertará”

Mesmo depois de todos os conselhos e alertas que deixou nas cinco meditações anteriores, Timothy Radcliffe chegou à última e previu: “Durante as próximas três semanas, poderemos ser tentados a invocar fogo do céu sobre aqueles de quem discordamos!”. E voltou a falar do medo, que havia mencionado logo no início. para explicar que a “raiva generalizada surge do medo, mas não precisamos de ter medo”. Porquê? Porque “quaisquer que sejam os conflitos que tenhamos pelo caminho, temos a certeza disto: o Espírito da verdade está a conduzir-nos a toda a verdade”.

Significa isto que o processo será fácil, afinal de contas? “Não será fácil”, avisou. “Ser conduzido à verdade significa ouvir coisas desagradáveis”. Como, de resto, já “tem sido profundamente doloroso enfrentar a extensão do abuso sexual e da corrupção na Igreja. Pareceu um pesadelo do qual se espera acordar”, afirmou. “Mas se ousarmos enfrentar esta vergonhosa verdade, a verdade nos libertará”.

Assim, “estes dias do Sínodo serão por vezes dolorosos, mas se nos deixarmos guiar pelo Espírito, serão as dores do parto de uma Igreja renascida”.

Será preciso que o Sínodo tenha “mais a dinâmica da oração do que a de um parlamento” e isso exigirá de todos os participantes “uma espécie de abandono do controle, até mesmo uma espécie de morte”. Em suma, “deixar Deus ser Deus”. Mas “a Igreja tem sido uma estrutura de controle” e todos “temos um instinto profundo de manter o controlo, razão pela qual o Sínodo é temido por muitos”, pelo que às vezes “são necessárias intervenções fortes para deixar o Espírito Santo levar-nos até onde nunca pensámos em ir”.

E aqui os jovens poderão desempenhar um papel fundamental, destacou o pregador dominicano, por isso há que confiar neles. “Os jovens não estão aqui para ocupar o nosso lugar, o dos velhos, mas para fazer o que não podemos imaginar. Devemos deixar o Espírito Santo trabalhar criativamente no nosso meio com novas formas de ser Igreja que agora não podemos imaginar, mas talvez os jovens possam”.

Uma vez mais, recordou Racliffe, é importante “libertar-se de toda a rivalidade e competição”, o que não quer dizer que não haverá discussões, ou que não será um processo doloroso. “Haverá verdades que preferiríamos não enfrentar. Mas seremos levados um pouco mais fundo no mistério do amor divino e conheceremos tal alegria que as pessoas terão inveja de nós por estarmos aqui e desejarão participar da próxima sessão do Sínodo!”

(A sexta e última meditação pode ser escutada no vídeo a seguir)

 

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