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autores - Phyllis Zagano (1)

[Entre Margens]

Os perigos de deixar a IA representar o ensinamento católico

| 23/11/2025

 

 

O Magisterium AI existe para permitir que qualquer pessoa interessada encontre os ensinamentos correctos da Igreja Católica. Só que não. Pelo menos não sempre.

Lançado em 2023 pela Longbeard, empresa privada do empreendedor canadiano Matthew Harvey Sanders, o Magisterium AI promete ser o “mecanismo de respostas número um do mundo para a Igreja Católica”, segundo o seu site. (Magisterium é o termo em latim tanto para a autoridade da Igreja para ensinar como para o próprio corpo de ensinamentos.) Possui uma plataforma complementar para utilização nas escolas e paróquias.

É complementado pelo Vulgate AI, uma plataforma que utiliza bibliotecas académicas: Alexandria, que digitaliza as colecções históricas da Igreja (“Preservar e universalizar o conhecimento”), e Ephrem, um modelo de linguagem especializado ainda não lançado, que oferecerá “respostas profundamente enraizadas na doutrina e nos valores católicos”. (Outro site da família Longbeard, o Christendom, seleciona vídeos de influenciadores católicos.)

Em teoria, todos estes serviços são fabulosos. Mas, como apontou recentemente um título de primeira página do The New York Times, “Novos chatbots, forjados em preconceitos, confundem factos e ficção”. Ou, como comentou um jornalista numa conferência há pouco tempo, “entra lixo, sai lixo”.

Uma simples pergunta sobre as mulheres na Igreja – “O que ensina a Igreja Católica sobre as mulheres diáconos?” – ilustra esta noção. O Magisterium AI devolveu uma análise teológica incorrecta, ou pelo menos contestada, sobre o assunto, argumentando que o ensinamento magisterial no Documento Final do Sínodo sobre a Sinodalidade se refere apenas ao “acesso das mulheres a ministérios diaconais não ordenados”.

O que o Magisterium AI apresentou como facto em resposta à pergunta (feita três vezes) era opinião, não facto. Citando dois artigos recentes de um periódico académico conservador, o programa afirmou, incorretamente, que os diáconos, bem como os padres e os bispos, se configuram igualmente “como sinal e instrumento de Cristo, a cabeça”. Na realidade, a Igreja descreve os diáconos como in persona Christi servi – na pessoa de Cristo, o servo.

“Com o toque de um botão e em cerca de 28 línguas, a discussão sinodal sobre a inclusão das mulheres no diaconado ordenado é eliminada.”

“Com o toque de um botão e em cerca de 28 línguas, a discussão sinodal sobre a inclusão das mulheres no diaconado ordenado é eliminada.”

 

Chega de teologia. E quanto à discussão eclesial? A máquina afirmou categoricamente, contra todas as evidências, que nunca nenhuma mulher foi ordenada sacramentalmente como diácono e conclui: “A Igreja ensina definitivamente que as mulheres não podem ser ordenadas diáconos, pois isso contradiria a natureza e a tradição do sacramento.” No entanto, a discussão sinodal aberta é sobre se as mulheres devem ser ordenadas como diáconos. A questão não está encerrada.

Agora, com o toque de um botão e em cerca de 28 línguas, a discussão sinodal sobre a inclusão das mulheres no diaconado ordenado é eliminada. A desinformação é gratuita ou está disponível a um custo simbólico.

Para uma plataforma cujo nome implica o ensinamento oficial da Igreja, o Magisterium AI mistura estranhamente documentos magisteriais autênticos com opiniões em artigos de revistas específicas. Implica, por exemplo, que as declarações do Papa Francisco sobre a proibição das mulheres presbíteras se apliquem ao diaconado, o que não acontece.

Quando questionada sobre a moralidade das vacinas contra a covid-19, a homossexualidade ou o Sínodo sobre a Sinodalidade, a máquina apresenta o ensinamento católico sem rodeios. Noutros temas, como a hospitalidade eucarística, a sua resposta tende para a direita. Mas as suas respostas mostram frequentemente um desfasamento temporal: aparentemente, ela não aprendeu sobre a diaconisa ordenada na Igreja Ortodoxa Grega no Zimbabué em Maio de 2024 [ver 7MARGENS].

Ou talvez não queira. A Magisterium AI não é autónoma, e os seus programadores e bots parecem procurar documentos que lhe agradem e ignorar aqueles que não lhe agradam.

Irá acrescentar outros pontos de vista agora ou no futuro? Isso é difícil de prever. Por enquanto, a Magisterium AI parece um bom começo para o leitor informado. Mas, tal como um carro autónomo, pode acabar por não nos levar a lado nenhum.

 

Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (em 2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é Just Church: Catholic Social Teaching, Synodality, and Women (Paulist, 2023) [Igreja justa: ensino social católico, sinodalidade e mulheres]. Este texto foi inicialmente publicado em Religion News Service e é publicado em Portugal por cedência exclusiva da autora e daquela publicação ao 7MARGENS.

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