[Os dias de Cabo Delgado]

Os pobres no campo de batalha

| 3 Mar 2022

Eduardo Andrés Roca Oliver é padre. Nasceu em 1968, em Mequinenza, na província espanhola de Saragoça. Está em Pemba desde 2012, empenhado na educação, na evangelização e no diálogo inter-religioso. É pároco na periferia de Pemba, numa zona maioritariamente muçulmana, e professor na Escola diocesana de Ética, Cidadania e Desenvolvimento. Uma província tão flagelada quanto é Cabo Delgado não será propriamente o lugar mais expectável para redigir uma tese de doutoramento em filosofia moral e política, mas é isso que Eduardo Andrés Roca Oliver também se propõe fazer a muito curto prazo. A partir de agora, os seus textos serão publicados no 7MARGENS.

Eduardo Andrés Roca Oliver, Pemba

Eduardo Andrés Roca Oliver é padre. Nascido em 1968, em Espanha, está em Pemba desde 2012. Foto: Direitos reservados.

 

Ninguém o diz, mas a pobreza é a primeira causa de morte no mundo. Nem epidemias, nem acidentes de trânsito… Embora a morte se não possa, por respeito, explicar com números.

A pobreza é uma consequência directa da desigualdade num mundo que alguns querem para si e no qual não há espaço para aqueles que não têm nada.

Ontem à noite, o meu vizinho abriu a sua discoteca depois destes meses de pandemia. Cada um pagou 8 euros para entrar, com direito a três bebidas. Parece que vai ser o normal aos sábados à noite… Como a lotação pode ser de até 500 pessoas para festas nocturnas, suponho que já não haverá problema… Ao anoitecer vi chegar muitos carros, grandes e pequenos.

À porta da construção da igreja, alguns pequenos constroem pequenos muros com terra húmida, ao centro uma placa com seixos, REEF, a empresa do meu vizinho israelita, que vem assumindo os projectos de construção na província, com o olhar posto na exploração de gás natural no Norte. Esse desenvolvimento de sangue…

Os pequenos olham para o meu vizinho e ficam deslumbrados com tudo o que ele tem… Mas, afinal, do que se tratará é de aproveitar a vida ao máximo, sem sentir vergonha de o fazer ao lado de tanta miséria.

Ontem enterrei uma mãe que não faltava ao domingo, desde que chegou do Norte para se refugiar. Hoje morreram outras duas, porque é o que resta a quem já perdeu tudo, esperar morrer. A esta gente, a maioria, os pobres, pouco mais lhes resta.

Penso na grande cegueira do nosso mundo desenvolvido, que tenta guiar todo o resto do mundo. Mas talvez o mais triste seja que desse outro lado não se veja, ou não haja, outra alternativa.

Quando não há mais nada, apenas as migalhas que vêm dos doadores, pelo menos, são alguma coisa. Como é possível encontrar uma alternativa?

Só espero que o meu vizinho não tenha entrado nesse mundo sombrio da droga e da prostituição infantil que me assusta cada vez mais. Rezo para que assim seja.

Às vezes ajuda-me porque diz que sou o padre e, mesmo sendo um judeu de poucas práticas, acha que fazemos um bom trabalho. A questão da cegueira é compreensível, para quem faz negócios com empresários, é uma oportunidade que não se pode perder. A chave é não ver, não olhar de frente a pobreza. Então, acreditando que a realidade não existe, tudo é possível e lícito para enriquecer.

Não sei se há algo que desperte os ricos. Talvez as calamidades naturais ou as guerras, mas não tenho a certeza. Enquanto o mundo continuar a ser injusto, e continuar a criar pessoas cegas com o poder e a riqueza, haverá guerra. Aqui ou na Ucrânia e na Rússia. Nada se alcança com a guerra, apenas destruição e morte, primeiro dos mais pobres. Afinal, o verdadeiro problema do mundo é que nos acostumamos à miséria e aprendemos a fechar os olhos e a não olhar para ela. Destas mortes, desta guerra silenciosa, ninguém ou quase ninguém fala.

Alguém me diz que estou um pouco amargo como o gengibre. Gostaria, de facto, de não ver o que vejo. Há muito tempo que renunciei às soluções e procuro apenas mais uma ovelha, e outra, e depois outra… Só mais uma. No tempo que me reste continuarei a fazer isso, neste campo de batalha silencioso, onde poucos lutam.

Eduardo Andrés Roca Oliver, em Pemba. Foto: Direitos reservados.

Não sei se a Ucrânia está só como Moçambique quando aqui começou a guerra, mas sei que Deus está aqui, nos pobres, que continuam a morrer nesta guerra silenciosa. E eu apenas quero que me deixe estar a seu lado e curar alguma ferida, a fazer curativos e abraçar os pequenos como se nada mais no mundo importasse, mesmo que seja apenas por alguns momentos.

Há três dias um amigo telefonou-me e disse-me que tinha de viajar para Espanha porque a sua mulher, uma grande amiga, tinha tido um ataque cardíaco. Tinha cantado com os pequenos do nosso centro infantil em Dezembro. Ficou impressionada com o contraste tão brutal, dizia ela, entre as vidas de uns e de outros. Ao voltar para Espanha, continuou o seu trabalho pelos mais pobres, com a Cruz Vermelha, vendo como contornar a administração para proteger os pobres de lá, e partilhava comigo muitos desses esforços com o único objetivo de ajudar. Hoje São Paulo diz que Deus aproveita o esforço porque é ele que está no campo de batalha… Mas, sobretudo, fala de uma morte que será vencida.

Só posso rezar com gratidão porque já a venceste, Soraya, embora me seja doloroso escrevê-lo. E deixo-te estas palavras como uma humilde homenagem. Suponho que não importará muito onde estás, mas sei que encontrarás uma forma de nos ajudar, como sempre fizeste.

Pemba, 27 de Fevereiro de 2022

Silêncio: a luz adentra no corpo

Pré-publicação 7M

Silêncio: a luz adentra no corpo novidade

A linguagem não é só palavra, é também gesto, silêncio, ritmo, movimento. Uma maior atenção a estas realidades manifesta uma maior consciência na resposta e, na liturgia, uma qualidade na participação: positiva, plena, ativa e piedosa. Esta é uma das ideias do livro Mistagogia Poética do Silêncio na Liturgia, de Rafael Gonçalves. Pré-publicação do prefácio.

pode o desejo

pode o desejo novidade

Breve comentário do p. António Pedro Monteiro aos textos bíblicos lidos em comunidade, no Domingo I do Advento A. Hospital de Santa Marta, Lisboa, 26 de Novembro de 2022.

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