“Muy duro, muy duro”

Os pormenores do encontro “muito emotivo” do Papa com 13 vítimas de abusos

| 2 Ago 2023

Ilustração do artista TVBoy, sobre os abusos sexuais: o Papa repetiu várias vezes que as histórias contadas pelas vítimas eram “muito duras”. Foto: Direitos reservados

 

Foi um encontro “muito emotivo”, com o Papa a pedir perdão, em seu nome e em nome da Igreja de Portugal, pelos abusos sexuais cometidos por membros do clero e outros agentes eclesiásticos, a cumprimentar pessoalmente cada uma das vítimas quando chegou ao seu encontro e a abraçá-las no final. E decorreu logo após a oração de Vésperas, no Mosteiro dos Jerónimos, em que o Papa se encontrou com bispos, clero, religiosos e leigos, e em cuja homilia condenou vivamente o “mau testemunho e os escândalos” que “desfiguraram” o “rosto” da Igreja”.

“Na tarde de hoje, após o final dos encontros institucionais e com a Igreja, o Papa Francisco recebeu na Nunciatura um grupo de 13 pessoas, vítimas de abusos por parte dos membros do clero, acompanhados por alguns representantes de instituições da Igreja portuguesa, responsáveis pela protecção dos menores”, refere uma nota da Sala de Imprensa da Santa Sé, citada pela Ecclesia. “O encontro decorreu num clima de intensa escuta e durou mais de uma hora, concluindo-se pouco depois das 20h15”, acrescenta o texto, enviado aos jornalistas às 20h57. Os dois comunicados surgiram depois de a RTP ter dado a notícia da sua realização, minutos depois da sua conclusão.

Uma nota da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) enviada às redacções acrescentava que as vítimas foram acompanhadas por responsáveis de instituições encarregadas da tutela de menores na Igreja em Portugal: Rute Agulhas, coordenadora do Grupo Vita; Paula Margarido, presidente da Equipa de Coordenação Nacional das Comissões Diocesanas; e Pedro Strecht, coordenador da ex-Comissão Independente.

De acordo com relatos feitos ao 7MARGENS por pessoas envolvidas no processo, o grupo reuniu-se em Alfragide para almoçar no Seminário dos Padres Dehonianos (congregação a que pertence o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, o bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas). A meio da tarde, duas carrinhas com vidros escuros levaram o grupo para a nunciatura apostólica, a embaixada da Santa Sé em Lisboa, situada na zona das Picoas.

Depois de mais de uma hora de espera, o Papa chegou e cumprimentou as pessoas uma a uma, começando por pedir perdão por aquilo que as pessoas sofreram. Pediu para cada uma contar o que quisesse. Ouviu as histórias, espantou-se com vários pormenores – como o facto de algumas delas terem começado a ser vítimas muito cedo –, fazia perguntas. “Ouvia tudo com muita atenção e, apesar de visivelmente cansado, estava muito atento e muito focado.”

Francisco não precisou de tradução para entender a violência das histórias. “Muy duro, muy duro”, repetiu muitas vezes, sempre olhando para as pessoas e insistindo em que “a Igreja tem de ser segura”. No final, cada pessoa fez uma foto com o Papa e este despediu-se “afectuosamente”, abraçando ou beijando as pessoas.

 

Cansaço, desilusão e raiva

Foto © Nuno Moreira/JMJ 2023 Lisboa

O Papa Francisco na homilia da celebração das Vésperas com o clero, religiosos e agentes de pastoral. Foto © Nuno Moreira/JMJ 2023 Lisboa. 

 

Pouco tempo antes, o Papa estivera com bispos, padres, religiosos/as, seminaristas e responsáveis de instituições católicas nos Jerónimos. Na homilia da oração de Vésperas, o Papa disse que os escândalos dos abusos chamam a Igreja “a uma humilde e constante purificação, partindo do grito de sofrimento das vítimas, que se devem sempre acolher e escutar”.

Na saudação com que acolheu o Papa, José Ornelas disse que “a defesa do bem das crianças e o compromisso de defendê-las de toda a espécie de abusos” continua a merecer a “atenção” da hierarquia católica.

Num discurso muito cáustico em relação ao papel da hierarquia e dos responsáveis católicos, o Papa Francisco referiu a “indiferença” e um “progressivo afastamento da prática da fé”, acentuados “pela desilusão e a raiva que alguns nutrem perante a Igreja” (texto na íntegra na página do Vaticano, para já apenas em espanhol).

Admitindo o “cansaço” que existe em tantos ambientes da vida eclesial, Francisco convidou a confiar em Jesus para “enfrentar as situações pastorais e espirituais” e “experimentar novos caminhos a seguir”. E acrescentou: “Cristo está interessado em fazer sentir a proximidade de Deus precisamente nos lugares e situações onde as pessoas vivem, lutam, esperam, às vezes colecionando nas suas mãos fracassos e insucessos.”

No comunicado divulgado nesta noite de segunda-feira, a Conferência Episcopal dizia ainda que o encontro do Papa com as vítimas “representa a confirmação do caminho de reconciliação que a Igreja em Portugal tem vindo a percorrer neste âmbito, colocando as pessoas vítimas em primeiro lugar, colaborando na sua reparação e recuperação, de forma que lhes seja possível olhar o futuro com esperança e liberdade renovadas”.

A Comissão Independente (CI) para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica em Portugal, convidada pela CEP, recolheu 512 testemunhos validados, que totalizavam, por baixo, um total de 4815 vítimas, entre 1950 e 2022.

Depois da extinção da CI, a CEP criou o Grupo Vita, que tem o objectivo de acompanhar situações de abuso sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal. Este grupo pode ser contactado através do telefone 915 090 000 ou do formulário para sinalizações disponível na sua página.

Precisamente nesta quarta-feira, a Câmara de Oeiras mandou retirar um cartaz, em Algés, que denunciava os abusos sexuais da Igreja e pretendia lembrar as 4815 vítimas de abusos por membros do clero.

 

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