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Maria de Lourdes Pintasilgo

Exposição até 30, catálogo editado

Os rascunhos de Lourdes Pintasilgo para os caminhos novos na política

| 28/10/2022

Maria de Lourdes Pintasilgo

Uma das folhas de rascunho para a campanha das eleições presidenciais de 1986: um “cometa” na política, diz o maestro Victorino d’Almeida. Foto: Direitos reservados.

 

São três folhas de rascunho, de esboços para cartazes e acções de campanha eleitoral. Todos eles condensam ideias fortes e traduzem muito algumas das coisas do que era Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004): “O voto no coração e na inteligência. Portugal – terra aberta à inovação”. Ou “Um Presidente para um tempo novo, nosso, de todos”. E ainda “Maria de Lourdes Pintasilgo: criar, agir, cumprir. Um Presidente para um Portugal novo”.

Pode ser estranho ver no masculino frases referidas a uma mulher. Mas em 1986, ano das eleições presidenciais a que Pintasilgo concorreu, ainda era difícil em Portugal dobrar a língua e falar de uma primeira-ministra ou de uma presidente. Houve debates sobre o tema na comunicação social, a designação no feminino só lentamente se foi impondo.

Essa ideia de abrir caminhos novos está patente em muitos dos objectos, fotos, livros e testemunhos da exposição Maria de Lourdes Pintasilgo – Mulher de um Tempo Novo, patente no Museu da Presidência da República até ao próximo domingo, 30 de Outubro. Percorrendo as etapas da vida e intervenção cívica da única mulher que até hoje chefiou um governo em Portugal, essa vontade de percorrer novos trilhos fica também evidente no excelente catálogo produzido a par da exposição – e que, tendo ficado pronto depois da inauguração da mostra, pode ter escapado a muitos visitantes.

Uma das marcas essenciais do percurso de Maria de Lourdes Pintasilgo, assinalada quer em documentos expostos, quer em vários testemunhos que podemos ver, é a sua fé cristã como inspiradora da sua acção política e da sua ética no agir cívico. Pintasilgo fez o que fez na política, na intervenção académica, na investigação social, por causa da inspiração crente, da sua leitura assídua da Bíblia e do aprofundamento teológico que fazia, a partir dos nomes mais contemporâneos da reflexão cristã. O epíteto de “peixinho vermelho em água benta”, com que alguns adversários a caracterizavam, manifestava esse olhar distorcido de quem não entendia o fundamento primeiro do seu modo de olhar o mundo.

Margarida Amorim Santos, que com ela trabalhou no Graal, o movimento de mulheres que Pintasilgo ajudou a introduzir em Portugal, dá conta disso num texto do catálogo: “Maria de Lourdes recebia mensalmente os livros que Taizé edita com a liturgia diária e, digo eu, era como se a leitura diária da Palavra de Deus se fundisse com a sua própria experiência de vida.” Mas não só: “Lembro-me de, em momentos especiais de oração/reflexão, a ouvir e ficar presa à sua interpretação/leitura pessoal dos textos sagrados, aliada à convicção da presença actuante do divino em cada pessoa.”

Basta olhar para alguns objectos pessoais ou para os livros da sua biblioteca. Entre os objectos, uma reprodução do quadro de Rafael A Virgem com o Menino e São João Baptista, também conhecido como A Virgem do Pintassilgo. Ou para o cálice que lhe foi oferecido por uma amiga e simboliza o movimento Graal a que pertencia, ou ainda os crucifixos, o terço, o missal ou a pequena colecção de imagens de Santa Ana. Que, de novo, tem uma razão que alia as suas diferentes facetas: Pintasilgo reuniu estas peças porque via nelas “a afirmação, na vivência da fé cristã, da capacitação da mulher como ser intelectual, pensante, pois Santa Ana é habitualmente representada com um livro no colo ou na mão – a Bíblia – ensinando a ler a sua filha, Maria”, explica o catálogo.

 

Cuidar o Futuro

Maria de Lourdes Pintasilgo enquanto primeira-ministra numa visita de trabalho a Caminha, a ser saudada por uma criança (1979) © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

 

Alguns dos livros da biblioteca pessoal também podem ser vistos na exposição, como exemplos de como se forja uma consciência crente vitalmente ancorada na teologia e na espiritualidade mais profunda dos nossos tempos: Hans Küng ou Bernhard Häring, estão entre os nomes, tal como o irmão Roger de Taizé. Mas Lourdes Pintasilgo também citava com frequência grandes místicos como Teresa d’Ávila, Hildegarda de Bingen ou João da Cruz. E a comunidade ecuménica e monástica de Taizé era, claramente, um dos seus lugares de inspiração: “A Maria de Lourdes ia a Taizé com frequência, talvez buscar confiança no futuro”, escreve ainda Margarida Santos, no catálogo da exposição. “Acreditava que os jovens de hoje estão abertos a entender a mensagem da Ética do Cuidado intrínseca ao ser humano e de renovar o Planeta, a Noosfera Planetária.”

O cuidado. Como a busca que o Graal significa – “o sentido da procura constante, da busca das melhores respostas para a humanidade, em cada tempo”, lê-se no catálogo, a propósito do cálice já referido –, foi esse o horizonte de inspiração para os últimos anos da vida de Maria de Lourdes Pintasilgo. Na década de 1990, ela presidiu à Comissão Internacional População e Qualidade de Vida, que elaborou o relatório Cuidar o Futuro. Mesmo se o objectivo, métodos, temas e propostas não são sempre coincidentes, não é difícil ver neste documento (entretanto disponível em livro electrónico na página da Fundação Cuidar o Futuro, também criada por ela) intuições e modos de ver semelhantes aos da encíclica Laudato Si’, do Papa Francisco – ou mesmo ao documento conclusivo da assembleia ecuménica de 1989, em Basileia, sobre Justiça, Paz e Integridade da Criação. A escritora Lídia Jorge afirma, aliás, num dos depoimentos que se podem ver na exposição, que Pintasilgo foi uma voz que, antes do Papa Francisco, tomou a política na perspectiva do Evangelho.

“Cuidar o Futuro é um relatório que hoje tem uma actualidade extrema. Nós não podemos pensar nos objectivos de desenvolvimento sustentável se não pensarmos nas ideias que Maria de Lourdes Pintasilgo nos deixou”, diz Guilherme d’Oliveira Martins a propósito desse documento, num dos vários depoimentos que podem ser vistos na exposição e dos quais são também selecionadas algumas frases no catálogo (que remete ainda para o endereço onde os vídeos podem ser vistos).

As duas edições que até agora o relatório teve em Portugal podem ser vistas também na exposição, a par de outras obras que marcaram o percurso de Maria de Lourdes: Sulcos do Nosso Querer Comum, Imaginar a Igreja, Os Novos Feminismos, Dimensões da Mudança, As Minhas Respostas ou Palavras Dadas. Para um Novo Paradigma – Um Mundo Assente no Cuidado, uma antologia de textos de Pintasilgo, consubstancia essa ideia que lhe era tão cara e que tem sido um mote importante também no pensamento do Papa João Paulo II.

Fora do universo crente em sentido estrito, mas também alimentando a sua espiritualidade, a poesia e a literatura – Miguel Torga, Helder Macedo, Eugénio de Andrade, entre outros – marcam igualmente presença no percurso de Pintasilgo. Aliás, nos programas O Mundo de, em que era entrevistada por Adelino Gomes na Antena 1, e no qual alternava com Mário Soares, Francisco Pinto Balsemão e José Saramago, frequentemente ela referia a literatura, a arte, a música ou a poesia que ia frequentando. Foi o caso da evocação que fez de O Viajante Magnífico, obra de Yves Simon, e A Viagem Magnífica, da pianista Maria João Pires com música de Schubert.

 

Alegria, alegria

Maria de Lourdes Pintasilgo no Mercado de Campo de Ourique, em Lisboa, em ação de campanha para as eleições presidenciais de 1986. Foto © Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra/Arquivo Lourdes Pintasilgo

 

Falando de uma personalidade que passou pela vida com uma intensidade rara e contagiante, não poderiam faltar depoimentos de algumas das muitas “deixou o rasto da memória e o sulco, fundo, lavrado no coração, de uma imensa e eterna saudade”, nas palavras do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Começando pelos textos que, no catálogo, abordam várias facetas da sua personalidade e do seu percurso: Viriato Soromenho-Marques, Ramalho Eanes, António Guterres, frei Bento Domingues, Fátima Grácio, Helder Macedo, José Manuel Pureza, Luís Moita, Alfreda Fonseca,

No texto que abre o catálogo, sobre o “realismo profético” de Pintasilgo, Soromenho-Marques escreve que ela encarava a vida política “como um serviço público, como uma entrega ao bem de todos, sem agendas ocultas nem interesses inconfessados”, como um “dom de si na entrega ao serviço do bem comum, por vezes até à exaustão”. E acrescenta: “De todos os mais salientes protagonistas da vida pública nacional depois do 25 de Abril, Maria de Lourdes Pintasilgo foi quem mais aguda e coerentemente percebeu que a política ou seria a longa e tenaz aventura colectiva da salvação de um mundo em naufrágio, ou poderia tornar-se numa das mais vãs actividades humanas.”

Entre os depoimentos que podem ser vistos em vídeo, a escritora Lídia Jorge, autora do recente Misericórdia, sintetiza o sentir e as afirmações de vários dos intervenientes: “Ela queria, no fundo, que em todos os domínios humanos se vivesse a fraternidade pura. E é assim que eu a vejo: vejo-a com essa aura, uma aura resplandecente de uma mulher que lutou com todas as forças das suas capacidades pelo bem de todos.”

O percurso de vida daquela que também foi a primeira mulher a candidatar-se a Presidente da República aparece na exposição com objectos e imagens significativos: os brinquedos de criança, documentos e relativos à sua formação escolar e universitária, as primeiras actividades do Graal, as suas actividades internacionais – incluindo como membro do Conselho Executivo da Unesco e da Universidade das Nações –, o programa do Governo por ela presidido, fotos e vídeos da sua acção como primeira-ministra ou da campanha para as presidenciais…

Um cometa, na expressão do maestro Victorino d’Almeida; dinamizadora da democracia participativa, para a jornalista Cláudia Lobo; falava do Evangelho como transformador da vida, como recorda o também jornalista José Carlos de Vasconcelos; profundamente empenhada no desenvolvimento humano, recorda Maria de Belém Roseira; militante de causas humanitárias, feminista visionária, católica comprometida, resume Leonor Beleza; alguém que queria transpor para a vida política os “grandes propósitos do Evangelho”, como diz Ramalho Eanes.

O refrão do hino da sua campanha, escrito por Pedro Barroso e Pedro Osório (?), diz: “Alegria, alegria,/ canto novo, voz aberta/ quando a esperança sai à rua/ nascem rosas nas janelas.”

Mulher humanista, com uma forte consciência social e política, como refere o folheto de apresentação da exposição, é de todas essas dimensões que esta mostra fala. E ainda da alegria e da esperança que Maria de Lourdes Pintasilgo trouxe à vida em Portugal. Também por causa da sua fé.

 

Maria de Lourdes Pintasilgo – Mulher de um Tempo Novo
Museu da Presidência da República e Jardim da Cascata – Palácio de Belém
Terça-feira a domingo; 10h-13h (última entrada às 12h) | 14h-17h30 (última entrada às 17h); até 30 de Outubro.
Informações: https://www.museu.presidencia.pt/pt/visitar/maria-de-lourdes-pintasilgo-mulher-de-um-tempo-novo/

Catálogo
Coordenação geral: Maria Antónia Pinto de Matos
Ed. Museu da Presidência da República
286 pág., 28 euros

 

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