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Os semideuses do Olimpo e o preço do espetáculo

Simone Biles nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Foto © Secretaría de Deportes, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons

 

Como alguém tão diferente de nós, que cumpre uma rotina tão à margem do nosso cotidiano, pode nos servir de exemplo?

A questão fundamental que Joaquim Fidalgo levantou em seu artigo publicado há dias no 7MARGENS sempre me acompanhou durante meus tempos de repórter de esportes, no Brasil, ao longo da década de 1980: o empenho dos editores em promover ídolos – ou “musas”, no caso das atletas –, o cultivo da ideia de que esses são os novos heróis do nosso tempo – daí as recorrentes metáforas da guerra aplicadas à competição esportiva, à parte os evidentes interesses geopolíticos envolvidos desde sempre, e exacerbados em determinados períodos históricos, sobretudo em Jogos Olímpicos –, as cifras astronômicas investidas nesse setor que se tornou extremamente lucrativo, tudo isso fazia silenciar as perguntas fundamentais que deveriam orientar o jornalismo, não fosse ele também submetido a todos esses interesses.

Então, como agora, a ênfase era no espetáculo, na exaltação das conquistas, e em particular nas histórias de superação tão comoventes daqueles/as jovens pobres que enfrentaram todas as adversidades porque estavam determinados a vencer e finalmente chegaram “lá”. De modo que, se eles podiam, qualquer um também poderia, desde que tivesse o mesmo empenho e a mesma disciplina.

Não precisaria nem deveria ser assim, mas o jornalismo praticado nas grandes empresas costuma interessar-se pelos resultados, raramente pelos processos. Por isso, qualquer tentativa de fugir aos estereótipos, de buscar outros ângulos de abordagem sobre a rotina da prática desportiva, sobre o contexto que promovia alguns entre milhares à condição de ídolos, era rejeitada, normalmente sob a justificativa de que “isso não interessa ao público”. Como se os editores soubessem mesmo, exatamente, o que interessava a seu público. (Hoje, com a perda do lugar de referência que os jornais tradicionalmente ocupavam, talvez o argumento precisasse mudar, porque afinal o público foi para outros lados, não exatamente os melhores. Falar sobre isso dá panos pra manga, mas leva a outro tipo de conversa, que não cabe aqui: a intenção foi só registrar o tipo de atitude que, afinal, pode em parte explicar a perda de público dos jornais tradicionais, desde que apareceu um meio que lhes retirou essa referencialidade).

Ainda assim, a pergunta permanece: como aqueles seres “tão distantes de nós, tão estratosféricos, tão a milhões de quilômetros de nossos corpos medianos”, podem ser nossos ídolos?

Sim, exatamente por isso: porque são estratosféricos, inalcançáveis, sobre-humanos. Apenas se os pensarmos como semideuses poderemos considerá-los ídolos, no sentido da adoração que se devota a uma espécie de divindade. No entanto, são humanos – e a atitude da ginasta Simone Biles é um raro exemplo a comprová-lo, e a comprovar bem mais que isso, pois denuncia o esgotamento a que conduz uma rotina de treinamento além do razoável e uma engrenagem que exige o sucesso permanente, sem falhas: nada menos que a eterna superação em busca da perfeição, em troca da fama e da pequena fortuna que isso pode render. Nessa engrenagem não há lugar para a recusa: enquanto anunciava sua desistência de competir, quebrando a expectativa de uma conquista inédita de medalhas de ouro, a atleta continuava a aparecer na propaganda, girando no ar e pousando suavemente no solo para exibir seu cartão de crédito. “Pague como os campeões”, arrematava o anúncio. E agora? “Pague como quem desiste”? Curioso que não tenha havido menção, ou pelo menos menção de destaque, sobre as consequências da renúncia da atleta diante do compromisso com seus patrocinadores, embora este seja um elemento fundamental que faz girar toda essa engrenagem.

“Além do sofrimento emocional, Simone falou que a queda no salto, durante as eliminatórias, foi resultante da falta de simetria [“sintonia” talvez fosse a palavra mais exata] entre a mente e o corpo [uma desconexão que leva à perda de controle sobre os movimentos do corpo e da noção de espaço]. Simone humanizou as Olimpíadas”, escreveu Tostão, tricampeão mundial de futebol em 1970 e há muitos anos colunista da Folha de S.Paulo.

“Quantas horas, dias, meses, anos de treino intensivíssimo, de dietas, de alimentos medidos ao milímetro, de privações, de sacrifícios” para conquistar um lugar naquele palco, e quem sabe uma medalha, e mais ainda uma medalha de ouro?, indagou Fidalgo em seu artigo. Só isso já permitiria perceber que essas “vacas premiadas” – era assim que médicos e preparadores físicos se referiam aos garanhões do vôlei brasileiro, que então despontava para a glória mundial –, só isso já permitiria perceber que essa linhagem de atletas não poderia servir de exemplo, porque vivem num universo à parte, numa rotina totalmente destacada do cotidiano das pessoas comuns. Porém, faltou um ingrediente fundamental nessa lista: os aditivos químicos, sem os quais não há como competir no nível exigido. Quem trabalhou no meio esportivo sabe que o doping é regra, embora seja noticiado como exceção execrável. Tampouco é casual que tantos jovens frequentadores de ginásios consumam anabolizantes, para obter rapidamente a aparência “atlética” desejada, sem saberem ou sem se importarem com os efeitos colaterais gravíssimos que podem sofrer por causa disso.

Meio a sério, meio a brincar, Fidalgo sugere a realização uns Jogos Olímpicos paralelos, para pessoas comuns, medianamente treinadas, que disputem suas provas por prazer, e lembra do ideal olímpico original, restrito a amadores. É certo que se tratava de um ideal elitista, porque só pode ser amador quem tem condição de se sustentar, ou quem é sustentado por alguém. Foi o profissionalismo que abriu a possibilidade de manifestação de outros talentos que, do contrário, ficariam pelo caminho. Mas, como sempre ocorre no mundo do capital, tudo o que pode dar lucro atrai a cobiça, e a transformação do esporte num espetáculo bilionário conduziu à degeneração do ideal da mente sã em corpo são.

Como a dança, o esporte de alto nível impõe a quem o pratica uma rotina duríssima desde a infância, quando tudo deveria ser brincadeira, e não compromisso. É o contrário de qualquer projeto de educação adequada. Encanta o mundo, mas costuma comprometer seriamente a saúde física e mental de seus protagonistas. Da forma como é encenado, não há alternativa: o espetáculo sempre cobra seu preço.

 

Sylvia Debossan Moretzsohn é professora aposentada da Universidade Federal Fluminense (Brasil), investigadora visitante na Universidade do Minho. 

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