
Imagem do vídeo de Highwire, dos Rolling Stones.
Sem qualquer intuito antológico, o 7MARGENS procurará chamar a atenção, nestes tempos, para músicos e músicas que traduzam a urgência da paz em relação a guerras e conflitos que persistem no mundo. Desta vez, trazemos aqui duas músicas escolhidas pelo jornalista Manuel Costa Monteiro para o programa Memória de Elefante, que mantém na TSF em co-autoria com Mário Fernando, e em que refere Highwire, dos Rolling Stones, e Masters of War, de Bob Dylan, na interpretação de Judy Collins.
Nesta rubrica já publicámos textos sobre a guerra da Ucrânia ou sobre o Afeganistão, bem como o apelo de paz feito por muitas mães israelitas e palestinianas, uma recensão de um álbum pela paz no meio da guerra da palestiniana Haya Zaatry, que parecia antever os dias de hoje. Dois discos de Peter Gabriel, um da guineense Fattú Djakité, a história de uma escrava basca que chegou a rainha na corte do Al-Andaluz e a fusão do kamancheh iraniano de Kayhan Kalhor com a corá do maliano Toumani Diabaté completam o leque dos discos já aqui trazidos.
Rolling Stones, Highwire
“Não é sobre a guerra, mas como se fabrica um ditador vendendo-lhe armas”
Ao vasculhar papéis soltos, dei com um texto disperso de Mia Couto, “Medo global”, em que pergunta a dada altura porque motivo a crise financeira nunca atinge a indústria de armamento.
Os Stones, em 1991, já tinham reflectido sobre os gastos em armamento e o comércio em larga escala que os conflitos originam. É o tema da canção Highwire, escrita no rescaldo da Guerra do Golfo (Agosto de 1990-Fevereiro de 91).
Recordo dados de 2021: as 100 maiores empresas do mundo nessa área venderam equipamentos no valor de 560 mil milhões de euros, nessa altura duas vezes e meia mais que a riqueza de Portugal.
É uma canção que não critica directamente as razões da guerra, mas as causas dos conflitos.
Anos depois do seu lançamento, Keith Richards dava uma leitura adicional tomando como exemplo o ataque ao Koweit e a invasão do Iraque em 1990/91 Dizia: “Não é sobre a guerra, mas como se fabrica um ditador instável vendendo-lhe armas. Não se pode fabricar ditadores, porque depois é difícil eliminá-los.”
Mas o comércio de armamentos é o tema central desta canção, tema que ainda hoje é raramente abordado e discutido na esfera pública. Termino como comecei, citando Mia Couto: “Porque motivo a crise financeira nunca atinge a indústria dos armamentos?”
Judy Collins, The Masters of War
“Mestres da guerra/Que brincam com o mundo/como se ele fosse o seu brinquedo” é uma das ideias fortes da canção de Bob Dylan, The Masters of War.
Dylan baseou-se no discurso de despedida do ex-Presidente Eisenhower e herói da Segunda grande Guerra Mundial, no final do seu mandato. Foi em Janeiro de 1961. O Presidente norte-americano defendeu que o seu país deveria ser militarmente muito forte, mas alertou para um perigo: com esse reforço das forças armadas, a capacidade da indústria de armamentos podia influenciar as políticas públicas do país e as decisões tomadas pelos seus governantes.
Dylan confirmaria que esta canção se inspirou nos receios do ex-Presidente norte americano face ao poder das empresas de armamento.
Das várias versões escolhi a de Judy Collins, cantora, cineasta, activista política e social, palestrante sobre a saúde mental e prevenção do suicídio. Cantou com Leonard Cohen, Joni Mitchell, Tom Paxton e cantou Dylan.
“Mestres da guerra/ vocês promovem o pior dos medos de trazer crianças para o mundo.” The Masters of War, canção datada – 1963.
Este texto lido pelo autor na TSF pode ser ouvido nestes dois ficheiros áudios:










