Uma das impressões mais profundas e duradouras ao visitar Maastricht – bela, ordenada, silenciosamente perfeita – é a forma como a cidade, outrora bastião católico da Contra-Reforma, se metamorfoseou num altar estético.
Ali, onde a vida orante moldava o ritmo dos dias, ergue-se hoje uma outra liturgia, que traduz não Deus, mas os velhos ídolos. As igrejas permanecem, mas passaram de lugares de encontro com o Mistério para espaços de fruição.
Visitar a chamada Livraria dos Dominicanos, instalada numa igreja do século XIII, é talvez o exemplo mais acabado dessa metamorfose. As abóbadas góticas elevam-se intactas, os frescos subsistem, a luz entra como sempre entrou, mas o silêncio que se experimenta não é o da oração. À penúria de almas orantes sucede um séquito de almas sedentas de insólito, de experiência, ainda que totalmente desligadas da génese espiritual daquele espaço.
O mesmo se pode dizer de um ginásio como o Il Fiore, instalado numa antiga igreja paroquial do século XIX, onde sob vitrais e tetos altos se pratica agora uma disciplina do corpo que substitui a antiga disciplina da alma. Ou ainda do antigo complexo dos Cruzios, onde um mosteiro do século XV acolhe hoje um hotel de charme e um restaurante, transformando a hospitalidade cristã num negócio rentável e com lista de espera. Mesmo a antiga igreja dos agostinianos, hoje espaço cultural, continua a reunir pessoas, não em torno da Palavra mas do evento.

Livraria Dominicana em Maastricht: “À penúria de almas orantes sucede um séquito de almas sedentas de insólito, de experiência, ainda que totalmente desligadas da génese espiritual daquele espaço.” Foto © Shutterstock
Este fenómeno, que em Maastricht surge com particular nitidez, não é um acidente. A sua raiz encontra-se na ruptura introduzida pela Revolução Francesa e consolidada pelas guerras napoleónicas: a secularização radical dos bens da Igreja, a sua transformação em propriedade comum, sujeita às mesmas regras fiscais e administrativas de qualquer outro património. Sendo edifícios exigentes, pensados para durar, mas também para ser habitados por uma prática viva, muitos destes templos tornaram-se, ao longo do tempo, insustentáveis.
Na Bélgica, um sistema ligeiramente mais benigno foi adiando o desfecho: as igrejas mantêm uma função social até ao limite, mas quando falta o pároco, quando falta a comunidade, a transição torna-se inevitável. Na Holanda, mais pragmática, mais rápida a agir, o processo foi mais direto, e o resultado está à vista de todos.
Mas hoje o paradoxo impõe-se. No mesmo país onde igrejas se tornam ginásios ou livrarias, assiste-se a um inesperado regresso do religioso. Algumas igrejas católicas, em registos litúrgicos exigentes, enchem-se de gente nova, sedenta de Deus. Como se, no meio da saturação de experiências, emergisse de novo uma fome mais funda.
Esse facto revela uma vez mais que a espiritualidade não é um adereço da condição humana, mas parte da sua essência. E a religião, que lhe dá forma no tempo e na história, não é apenas uma estrutura institucional entre outras – é também memória, pertença, linguagem comum, lugar de partida e de regresso.

Montagem fotográfica do Kruisherenhotel, um hotel de luxo num mosteiro gótico no centro de Maastricht, Holanda. Foto © Kleon3 – CC BY-SA 4.0, Wikimedia
Os templos podem desaparecer ou transformar-se. Podem tornar-se livrarias de uma beleza irrepreensível, restaurantes gourmet, hotéis onde a experiência se desenha ao milímetro. Podem, em suma, converter-se em objetos perfeitos de uma cultura que sabe conservar a forma, mas quer afastar-se do sentido.
Essa perfeição, que não é mais do que uma vanitas cuidadosamente construída, não preenche o coração humano. Mais cedo ou mais tarde, como o filho pródigo, a pessoa confronta-se com a sua própria penúria. E nesse momento percebe que nada pode preenchê-lo para lá do encontro decisivo em que se vê inteiro sob o olhar amante do Outro.
Mesmo sem templos, ou para além deles, permanece a possibilidade desse encontro – e a ressurreição abriu-o definitivamente. E por isso, mesmo quando as pedras mudam de função, mesmo quando os altares se tornam mesas ou estantes, sabemos que todos os Santos têm um passado e todos os Pecadores um futuro. Naquele que nos ama e que, pelo Seu amor, nos salva.
Dina Matos Ferreira é jurista, doutorada em Ciência Política e Relações Internacionais, Segurança e Defesa, especialista em Pensamento Social Católico.
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