Encontro de Taizé em Rostock

Os ucranianos cantaram e a unidade entre cristãos até parece ser mais fácil

| 17 Jan 2023

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A participação de jovens ucranianos no encontro mostrou que “mais forte que a violência e o mal, a luz da esperança guia os nossos passos no caminho da paz”. Foto © Comunidade de Taizé.

 

Mário Reis nunca tinha ouvido um aplauso tão longo em toda a sua vida, em nenhum dos concertos aos quais foi até hoje, em nenhuma das peças de teatro às quais assistiu, nem tão-pouco no final de algum discurso que tenha escutado. No dia em que ouviu esse aplauso, ou melhor, nessa noite, Mário não estava em nenhum espetáculo ou conferência inspiradora: estava numa oração ecuménica, mais propriamente no Encontro Europeu de Taizé, que decorreu de 28 de dezembro a 1 de janeiro na cidade de Rostock, numa das regiões mais secularizadas da Alemanha. O longo e sentido aplauso, com milhares de jovens a baterem palmas de pé, durante cerca de três minutos, era dirigido aos participantes ucranianos que tinham conseguido também estar ali, uns vindos diretamente da Ucrânia, alguns de países europeus onde se encontram refugiados. Os ucranianos cantaram um canto de Natal do seu país e isso foi a prova de que “mais forte que a violência e o mal, a luz da esperança guia os nossos passos no caminho da paz”, como dissera momentos antes o prior da comunidade de Taizé, o irmão Aloïs.

Este foi um encontro que, três semanas antes da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (entre 18 e 25 de janeiro), reuniu muito menos participantes do que o habitual. Mário Reis, 27 anos, da paróquia de São Miguel de Souto (diocese do Porto), foi um dos 13 portugueses inscritos, entre um total de cinco mil participantes. Ao último encontro presencial antes da pandemia, que se realizou em Wroclaw, na Polónia, em dezembro de 2019, tinham ido 150 jovens de Portugal, num total de 15 mil. Além do facto de estarmos ainda no rescaldo da pandemia, o irmão David (português que integra a comunidade de Taizé) aponta a guerra, “a crise económica e os preços dos combustíveis”, e ainda “o facto de Rostock ser uma cidade pequena, sem aeroporto” como outras possíveis razões para este decréscimo de participantes. “Há também grupos que estão já tão centrados na JMJ [de Lisboa] que não têm disponibilidade para organizar outras peregrinações”, assinala, em declarações ao 7MARGENS .

Mas nem por isso o encontro de Rostock foi menos significativo. Na verdade, acabou por ser “um dos encontros mais especiais”, garante Sérgio Rodrigo, outro dos portugueses que lá estiveram, e que vai já no seu 16º encontro europeu de Taizé (foi a todos desde 0 de 2004, que teve lugar em Lisboa). Sérgio, 47 anos, faz parte da equipa da pastoral juvenil da diocese do Porto e afirma que, apesar de só ter decidido “à última hora” que iria, e de a viagem ter sido mais longa que o costume (foi necessário voar até Hamburgo e depois fazer o resto do caminho de comboio), “o balanço de Rostock não podia ser mais positivo”, sobretudo por ter sentido que “cada vez mais somos solidários uns com os outros”.

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Sérgio Rodrigo, em Hamburgo, etapa no caminho rumo ao encontro de Rostock. Foto: Direitos reservados.

A “situação de guerra em plena Europa foi muito abordada” e “o momento em que, na oração de dia 31, todos os jovens se levantaram para aplaudir os ucranianos tocou-nos imensamente”, sublinha. “É daquelas coisas que nos marcam e que nunca mais vou esquecer”, garante Sérgio, em quem ficou também a ressoar a mensagem do irmão Aloïs, que “tinha muito a ver com a solidariedade”.

“Além de nos convidar à confiança e à oração, que são sempre pontos fortes em Taizé, ele deixou o apelo a caminharmos juntos”, recorda Sérgio. De facto, na mensagem do prior de Taizé para 2023, é a “fraternidade universal” que aparece sempre no horizonte, como grande objetivo a cumprir.

“Comecemos por fazer crescer a unidade visível dos cristãos!”, desafiou o irmão Aloïs. “Procuremos a parte de verdade que existe no outro – isso ajudar-nos-á a crescer”, afirmou, defendendo que “um lugar de respeito mútuo pode ser o diálogo entre crentes de diferentes religiões”, e que, entre eles, “a amizade autêntica é possível”.

Paradoxalmente, a situação de guerra pode ter trazido algo de positivo nesse sentido, e aquele aplauso durante a oração foi um exemplo disso mesmo. “No contexto da guerra que atinge a Ucrânia e tantos outros lugares do mundo, algumas pessoas têm dificuldade em rezar, como se Deus estivesse ausente ou calado diante do mal. E, no entanto, ao rezarmos pela paz, desperta também o nosso sentido de responsabilidade e a nossa solidariedade para com todos aqueles que sofrem terrivelmente com o drama da guerra”, escreveu o prior de Taizé na mensagem aos jovens para este novo ano.

 

“Um dos encontros mais acolhedores”

Ao mesmo tempo, o facto de ter sido possível realizar o encontro naquela que é uma das regiões “mais secularizadas da Europa” é também um excelente sinal. Até porque “apesar de ser uma região com poucos cristãos, foi um dos encontros mais acolhedores”, assinala André Ribeiro, da paróquia de Massamá (diocese de Lisboa), que participou como voluntário.

André, 25 anos, ficou em casa de “uma família cuja mãe e a filha eram protestantes e o pai não acreditava sequer em Deus” e diz que “não podia ter sido melhor acolhido”. Mário, que ficou com a namorada em casa de um casal em que “ele era católico e ela não tinha religião”, partilha da mesma opinião. Este já foi o seu sétimo encontro, por isso sabe bem do que fala.

Encontro europeu de Rostock, 2022, Foto Mário Reis

Mário Reis, à direita, juntamente com a namorada e o casal alemão que os recebeu em sua casa durante o encontro. Foto: Direitos reservados.

 

Para André, a forma como os habitantes da região “tão diferentes em termos religiosos e culturais” receberam os milhares de participantes no encontro foi “mesmo um exemplo do que deve ser o ecumenismo e do que devemos procurar, em todas as partes do mundo”.

“É uma região com muito poucos cristãos e foi muito bonito ver as diferentes Igrejas unidas a trabalhar juntas para poder acolher todos os jovens. Para comunidades tão pequenas, foi um grande esforço, mas a alegria de terem conseguido organizar tudo era visível. Alargaram as comunidades, convidando muitos não-cristãos a acolherem, e para estes foi uma descoberta das iniciativas cristãs”, assinala o irmão David.

Na verdade, recorda, “Rostock foi a cidade escolhida para acolher este encontro devido à insistência que as Igrejas fizeram no convite. Alguns pastores empenharam-se a fundo em encontrar soluções para todas as questões e conseguiram mobilizar as Igrejas e a cidade. Já estava a ser preparado antes da pandemia”.

Entre as centenas de voluntários que colaboraram com a organização, na sua maioria alemães, essa alegria e espírito de entreajuda era bem visível. André, que fez parte da “equipa dos transportes”, testemunhou isso mesmo. “Ficámos muito unidos e vários me têm perguntado sobre a Jornada Mundial [de Lisboa]. Provavelmente, reencontrarei alguns deles já em agosto”, partilha, com indisfarçável satisfação.

Encontro europeu de Rostock, 2022, Foto André Ribeiro

André Ribeiro, à esquerda, juntamente com a “equipa dos transportes”, da qual fez parte como voluntário. Foto: Direitos reservados.

 

Unidade dos cristãos e conversão sinodal intimamente ligadas

O irmão David espera agora que a mensagem do irmão Aloïs venha a ressoar também em “todos os que virão a Taizé ao longo de 2023”. “Esperamos mais de mil jovens portugueses para a semana do Carnaval e vamos procurar com eles inspirações para responder a este apelo do irmão Aloïs”, adianta ao 7MARGENS.

O monge português da comunidade revela ainda que a comunidade está já a trabalhar na preparação do Encontro do Povo de Deus, que irá acontecer dia 30 de setembro, em Roma, precedendo os trabalhos da próxima assembleia de bispos que integra o Sínodo da Igreja Católica

O anúncio foi feito pelo Papa, no passado domingo, 15 de janeiro, nas vésperas da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (que se assinala de 18 a 25 de janeiro): “O caminho da unidade dos cristãos e o caminho da conversão sinodal da Igreja estão ligados. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para anunciar que no sábado 30 de setembro haverá uma vigília de oração ecuménica na Praça de São Pedro, onde confiaremos a Deus os trabalhos da 16ª assembleia geral ordinária do Sínodo dos Bispos”. Francisco convidou “os irmãos e as irmãs de todas as confissões cristãs a participar neste Encontro do Povo de Deus” e encarregou a comunidade de Taizé de animar, para os jovens que vão à vigília, “um programa especial durante todo o fim-de-semana”.

“Estamos já a trabalhar com grupos e movimentos muito diferentes nesta preparação e a comunhão que se vai vivendo é muito forte”, destaca o irmão David. Na próxima segunda-feira, dia 23 de janeiro, “estará disponível um site dedicado ao encontro: www.together2023.net“, avança ele ao 7MARGENS.

Para o irmão David, não restam dúvidas: “É caminhando com outros que nos vamos descobrindo melhor e aprofundando a unidade”. Para Mário, Sérgio e André, também não. Todos eles estão já a pensar no próximo encontro ecuménico, que terá lugar na capital da Eslovénia, Ljubljana. E em levar mais jovens com eles.

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No final do encontro de Rostock, o irmão Aloïs anunciou o local do próximo: Ljubljana, na Eslovénia. Foto © Comunidade de Taizé.

 

Até lá, contam participar em algumas das iniciativas previstas para a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos nos próximos dias [ver outro texto no 7MARGENS], participar na JMJ de Lisboa, em agosto, onde também estarão alguns irmãos da comunidade de Taizé, e organizar e participar em algumas orações ao estilo de Taizé (muitas delas divulgadas nas páginas e grupos ligados à comunidade nas redes sociais).

E assim se vai cumprindo o que escreveu o irmão Aloïs na sua mensagem de agradecimento após o encontro de Rostock: “Retomamos agora o nosso caminho rumo a uma comunhão mais pessoal com Deus, rumo a uma fraternidade mais profunda entre nós, especialmente entre os cristãos ainda separados, rumo a uma nova solidariedade entre todos e com a criação. (…) Que todos possamos continuar essa busca onde moramos!”.

 

(No vídeo acima, pode ser acompanhada a oração de dia 31 de dezembro e o momento do aplauso, que começa ao 1:12:20.)

 

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