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Os ultracrepidários

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A pandemia foi uma das razões para a eleição do ultracripedarismo como palavra do ano na Bélgica. Foto © Wladimir B/Bigstock.com

 

Ultracrepidário é uma daquelas palavras que parecem ter sido usadas pelo Capitão Haddock para injuriar alguém. Ao amigo de Tintin devemos “anacoluto”, “coleóptero”, “ectoplasma”, “intelijumento”, “sacripanta”, “trangalhadanças” ou “vivissector”, para citar apenas alguns dos insultos recolhidos por Albert Algoud no Dicionário Ilustrado dos Insultos do Capitão Haddock, editado há pouco em Portugal [1], mas da boca da colérica e fascinante personagem criada por Hergé nunca saiu o vocábulo “ultracrepidário”.

O ultracrepidarianismo é um termo recente que designa um hábito antigo. Foi agora eleita na Bélgica como a palavra do ano de 2021 para assinalar a extraordinária generalização da prática de emitir juízos sobre assuntos que se desconhecem. A crise mundial de saúde pública, como a propósito da nova palavra do ano foi assinalado, fez proliferar aqueles que, após um preâmbulo que invariavelmente começa por: “Não sou um especialista em saúde, mas…”, peroram com detalhe sobre matérias cuja complexidade evidentemente não dominam.

A acompanhar o texto sobre a escolha de “ultracrépidarianisme”, o jornal belga Le Soir [2] publicou um cartoon que mostra várias pessoas à mesa a falarem sobre o coronavírus sem dizerem nada. “Na verdade, não é isso”, diz um. “É, no entanto, simples”, afirma alguém. Outra pessoa refere: “Vou-vos explicar”. A quarta personagem apresenta um gráfico e uma senhora declara: “Li que de facto…”. Um cão deitado ao lado conclui: “Não há um que saiba mais do que eu.” Esta cacofonia ignorante, se não caracterizou exclusivamente o ano findo, talvez se tenha tornado particularmente paroxística em 2021.

Ultracrepidarianismo nasceu da palavra “crepidam” (acrescida do prefixo “ultra”), que se encontra numa locução latina citada por Plínio o Velho. A propósito de uma história de uma jovem universitária dos Estados Unidos da América que pediu apoio para realizar um trabalho científico, mas insultou um especialista na matéria que, prontificando-se a ajudar, a corrigiu, Rui Estrada, professor da Universidade Fernando Pessoa, recordou no site Página 23 [3] que “o pintor Apeles (século IV a.C.) tinha o hábito de expor as suas pinturas frente à casa, escondendo-se para ouvir os comentários. Certo dia, um sapateiro, olhando para as sandálias representadas, considerou que tinham poucos cordões. Apeles aceitou a correcção e voltou a exibir a obra revista. Mais tarde, o mesmo sapateiro fez uma nova observação acerca da representação da perna na pintura. Apeles apareceu subitamente e criticou a ousadia do sapateiro, dado que, desta feita, estava a falar de um assunto em que não era competente. Disse-lhe então: ne supra crepidam sutor iudicaret, ou seja, ‘não julgue o sapateiro além da chinela’”. Como escreve Rui Estrada, “não vá o sapateiro além da chinela ficou como provérbio popular, significando a necessidade imperativa de termos conhecimento para falar, com propriedade, do que quer que seja, justamente o que aconteceu com o sapateiro no primeiro dos comentários que fez acerca da pintura de Apeles”.

Os que falam sem saber não escasseiam nos jornais, nas rádios e nas televisões e abundam nas redes sociais. “A televisão tinha promovido o idiota da aldeia em relação ao qual o telespectador se sentia superior. A tragédia da Internet é que promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade”, disse há uns anos Umberto Eco, num encontro que teve com jornalistas quando recebeu em 2015 o doutoramento honoris causa em Comunicação e Cultura dos media pela Universidade de Turim [4]. Notou ele na altura que “as redes sociais dão o direito à palavra a legiões de imbecis que antes falavam apenas nos bares, depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade”. Para agravar o panorama, têm-se multiplicado os ultracrepidários que cumulam a desvergonha com a arrogância intimidatória.

 

Notas

[1] Edições ASA, Novembro 2021

[2] Mathieu Colinet – “«Ultracrépidarianisme» est le nouveau mot de l’année 2021”. Disponível em https://www.lesoir.be/414939/article/2021-12-28/ultracrepidarianisme-est-le-nouveau-mot-de-lannee-2021

[3] Rui Estrada – “Ne supra crepidam sutor”. Disponível em http://pagina23.pt/ne-supra-crepidam-sutor/

[4] Amalia Angotti – “Umberto Eco, Internet dà diritto di parola a legioni imbecilli”. Disponível em https://www.ansa.it/sito/notizie/cultura/libri/2015/06/10/eco-web-da-parola-a-legioni-imbecilli_c48a9177-a427-47e5-8a03-9ef5a840af35.html

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