Funeral do antigo Chefe de Estado

Os “valores cristãos” de Jorge Sampaio, segundo o patriarca de Lisboa

| 13 Set 21

O patriarca de Lisboa a ser entrevistado pela RTP: “Uma homenagem muito sentida e muito respeitosa ao grande cidadão”

 

Os valores que o Presidente Jorge Sampaio viveu na sua vida pública eram “com certeza” valores “essencialmente cristãos”, disse o cardeal-patriarca de Lisboa, a propósito da acção política do antigo Presidente da República. Sábado ao final da manhã, na fila no meio de outros cidadãos para velar o corpo de Sampaio, o patriarca disse, em declarações à RTP, que os princípios da “solidariedade, atenção a todos, sobretudo os mais pobres, os mais excluídos, e a preocupação não apenas pelo que está próximo” mas também por quem está mais longe, “tudo isso é essencialmente cristão”.

Inquirido sobre as razões da sua presença no velório, o patriarca afirmou que estava ali para prestar “uma homenagem muito sentida e muito respeitosa ao grande cidadão”, que teve “uma enorme coerência com tudo aquilo que acreditou em toda a vida”. Jorge Sampaio exerceu “as mais altas funções de Estado e mesmo depois de as ter deixado de desempenhar continuou igual a si mesmo, solidário, com portugueses, com refugiados, muito atento à vida internacional naquilo que ela tem de mais importante, que é encontrar-nos com uma sociedade de todos para todos”, acrescentou. “Por isso a minha presença aqui é uma sentida e respeitosa homenagem.”

O cardeal Clemente acrescentou ainda que, na acção política de Jorge Sampaio enquanto presidente da Câmara Municipal de Lisboa, valoriza “em especial a sua atenção ao problema do alojamento das pessoas que não tinham alojamento condigno, à erradicação das barracas”. O mandato de Sampaio enquanto autarca “também se revelou pela sua tolerância, pela sua capacidade de congregar os mais diversos sectores, tivessem ou não tivessem apoiado a sua candidatura”, disse o patriarca, para quem o que Sampaio conseguiu na autarquia conseguiu também “como chefe de Estado: um congregador de todos os portugueses”.

 

Vera e André Sampaio: “Um homem bom, um pai extraordinário”. Foto © Rui Ochoa/Presidência da República

 

No funeral de Estado que decorreu na manhã deste domingo, dia 12 de Setembro, os filhos do Presidente Sampaio, Vera e André, falaram do pai como um “homem bom, atento e disponível”, “popular sem ser populista”, “justo, corajoso, sem medo de chorar” e “um homem bom, um pai extraordinário”.

Repartindo o discurso, foi a filha que começou por evocar o “homem bom, atento e disponível, para quem as pessoas contavam cima de tudo, não as pessoas em geral, mas cada pessoa com nome e rosto”.

Perante cerca de 300 pessoas, incluindo Presidente da República, presidente da Assembleia da República e primeiro-ministro, o secretário-geral da ONU, António Guterres e o rei de Espanha, Filipe VI, Vera e André Sampaio descreveram o pai como um “estadista e cidadão comum”, “lutador e pacificador”.

Coube à filha o primeiro discurso na cerimónia oficial no claustro do Mosteiro dos Jerónimos, numa intervenção em que quis recordar o pai com a “autenticidade e proximidade” com que falava com os filhos.

Na parte lida pelo filho André, que estava visivelmente emocionado, este falou do pai como alguém “popular sem ser populista, sempre próximo sem nunca banalizar a proximidade, que foi estadista e simultaneamente cidadão comum, que foi amado sem gostar de ser venerado”.

Os filhos destacaram que Sampaio “não gostava de arrogância” e “cultivava a amizade e a camaradagem porque sabia que, na vida e na política, nada se pode fazer sozinho”. Nos agradecimentos, incluíram o actual e os ex-Presidentes da República, bem como o secretário-geral da ONU, António Guterres, várias outras figuras do Estado, o rei de Espanha e também todos os portugueses pelo carinho que demonstraram, além de mensagens recebidas de todo o mundo, “de Portugal a Timor-Leste, do Brasil a São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Moçambique”.

Depois dos filhos terem evocado o pai, a actriz Maria do Céu Guerra declamou o poema Uma pequenina luz bruxuleante, de Jorge de Sena: “Uma pequenina luz bruxuleante/Não na distância brilhando no extremo da estrada/ Aqui no meio de nós e a multidão em volta/ Une toute petite lumière/ Just a little light/ Una picolla, em todas as línguas do mundo (…) Desde sempre, ou desde nunca, para sempre ou não: Brilha/ Uma pequenina luz bruxuleante e muda/ Como a exactidão como a firmeza, como a justiça/ Apenas como elas/ Mas brilha/ Não na distância. Aqui/ No meio de nós/ Brilha (a recitação do poema pode ser vista neste vídeo da TVI).

Além da poesia, a cerimónia foi ainda pontuada com várias peças musicais, interpretadas pela Orquestra Sinfónica Portuguesa e o Coro do Teatro Nacional de São Carlos, dirigidos pela maestrina Joana Carneiro. Lacrimosa, do Requiem de Mozart; o Intermezzo da ópera Cavalleria Rusticana, de Pietro Mascagni e In Paradisum, do Requiem de Gabriel Fauré. Na fase inicial da cerimónia, crianças da Escola Portuguesa de Díli (Timor-Leste) interpretaram a canção Ai, Timor, de Luís Represas.

 

Marcelo no uso da palavra, com a urna de Sampaio em primeiro plano: “Um grande senhor do seu e nosso mundo”. Foto © Rui Ochoa/Presidência da República.

 

No discurso com que também se despediu de Jorge Sampaio, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa terminou citando o mesmo poema de Jorge de Sena para dizer que Sampaio era “uma pequenina mas enorme luz bruxuleante, que deu e dá vida a Portugal, que deu e dá vida ao mundo”.

“Um grande senhor do seu e nosso mundo”, começou por dizer o Presidente da República, um dos “maiores” na história de Portugal “que sentiu, que pensou, que construiu com a suprema delicadeza de quase pedir desculpa por estar a construí-la” ou “no humanismo fundado numa ética de compaixão, de partilha e de serviço – compaixão não condescendente, não sobranceira, não assistencial, antes de identificação plena com o sofrimento, a privação, o abandono sem esperança”.

Jorge Sampaio, acrescentou ainda Marcelo, “não amou Portugal pela força, amou Portugal pela fragilidade: quando é o reconhecimento da fragilidade a inflamar o nosso amor a chama deste é muito mais pura”. E “amou Portugal no calor imparável dos seus sonhos de jovem, liberdade, igualdade, democracia, socialismo, universalidade”, bem como na “fraternidade para com os perseguidos e na sua defesa na barra de uma justiça pré-ordenada”.

Sampaio amou Portugal, depois, “na militância solidária com os seus próximos, mas também com os mais distantes no universo”, ou os sem tecto “a quem ajudou a dar tecto, dos sem horizonte a quem ajudou a dar razões de esperança, o sujar as mãos de intelectual nas obras de que se fazem as casas, as escolas, as ruas, os bairros, as cidades, as metrópoles”. E amou Portugal ainda “na saga do povo timorense, no abraço aos pobres vindos de fora, falando português com os moçambicanos aquando dos ciclones ou aprendendo essa fala com os estudantes refugiados sírios e ainda há dias afegãos”.

Em síntese: “Amou Portugal pela fragilidade e tantas vezes na fragilidade. Mais do que isso: fez dessa fragilidade sua, de todos nós, força sua, nossa, de todos nós.”

 

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