Os valores do Desporto

| 30 Abr 21

Futebol. UEFA

“Há muito que o “mercado” descobriu no futebol uma galinha dos ovos de ouro.” Foto: Cerimónia de abertura da final da Liga dos Campeões 2016-2017, Millennium Stadium em Cardiff, País de Gales © Markos90 / Wikimedia Commons

 

O anúncio da criação da Super Liga Europeia de Futebol (Super League Company) na última semana, criou um pequeno “terramoto” junto da comunicação social, governos, federações, FIFA, UEFA e adeptos.

Porquê tanto alarido? O futebol tem assim tanta importância? Ao que parece tem e muita! Não é por acaso que este desporto rei, movimenta muito dinheiro e muita emoção.

O futebol tem características desportivas únicas, tem regras muito simples (apenas 17!), tem um objetivo também ele muito simples: meter uma bola numa baliza; pode-se jogar em qualquer latitude e cultura; tanto joga o rico como o pobre, cria uma identidade, quase tribal, muito forte; tão facilmente nos leva ao céu como ao inferno; onde a paixão subjuga a razão (…). Tudo isto faz com que desde o Papa Francisco, adepto fervoroso do San Lorenzo (Argentina), até ao mais simples adepto anónimo do Torriense vivam este fenómeno da mesma forma apaixonada e intensa. Para muitos, é mesmo uma religião.

Há muito que o “mercado” descobriu no futebol uma galinha dos ovos de ouro. Sabemos que grande parte das nossas opções de consumo são feitas a partir das nossas emoções e não a partir da razão. Não é por acaso que as grandes multinacionais ou marcas patrocinam o desporto. Os segundos mais caros em televisão são os do intervalo da final da liga americana da Super Bowl, os eventos mais vistos em televisão são todos eles desportivos.

Se, como diz Manuel Sérgio, “o desporto reproduz e multiplica as taras da sociedade e do capital”, então o futebol tornou-se um nicho muito apetecível, criando uma indústria própria que gera muito dinheiro. Segundo a Deloite Football Money League, o futebol profissional geral cerca de 9,7 mil milhões de euros por época.

Não admira, por isso, a proposta da criação da superliga europeia cujo objetivo primeiro, segundo os seus criadores, era “gerar recursos suplementares para toda a pirâmide do futebol”, leia-se a parte de cima da pirâmide. Esta competição de cariz fechado, onde só se participa por convite, congregou à volta da mesma mesa 12 “tubarões” do futebol europeu: Milan, Arsenal, Atlético Madrid, Chelsea, Barcelona, Inter, Juventus, Liverpool, Manchester City, Manchester United, Real Madrid e Tottenham.

Este torneio exclusivo iria distribuir, entre estes clubes, mais de 5 mil milhões de euros, cerca de 200 milhões por equipa, sem o sobressalto de serem eliminados, muito mais que a Liga dos Campeões oferece ao vencedor desta competição, enquanto para os restantes clubes, aqueles que não poderiam sentar-se à mesma mesa, restavam umas pequenas “migalhas”.

A JP Morgan disponibilizou-se a financiar esta ideia, cujo retorno viria, fundamentalmente, da venda de direitos televisivos, atualmente a maior fonte de rendimentos dos clubes.

Para se ter uma noção, segundo a Deloitte, a Premier League (inglesa) está a negociar um acordo de direitos televisivos que vale cerca de dois mil milhões de euros por época. Há muito que os grandes clubes europeus deixaram de ter somente adeptos da sua cidade, eles estão espalhados por todo o mundo. O lema do Barcelona, “mais que um clube”, traduz esta universalidade.

O mercado, nomeadamente o asiático, está ávido de satisfazer os seus fãs cujos clubes estão na Europa, e para isso, necessita de os “alimentar” com jogos televisivos.

É certo que, com a pandemia, a perda de receitas foi bastante grande: segundo a Associação Europeia de Clubes, a quebra pode chegar aos 5 mil milhões nesta época, e as contratações de jogadores são cada vez mais astronómicas. Por exemplo, Neymar foi do Barcelona para o PSG por 222 milhões de euros. O que obriga a encontrar alternativas de receitas, valor económico, para continuar a alimentar esta indústria.

Como afirmou Florentino Pérez, presidente do Real de Madrid e mentor desta superliga: “Quando não temos mais fontes de rendimentos além da televisão, a forma de rentabilizar é fazer jogos mais interessantes. Foi assim que começámos a trabalhar. Chegámos à conclusão que ao criarmos uma Superliga durante a semana, ao invés da Liga dos Campeões, seríamos capazes de diminuir a perda de rendimentos.”

A esta investida da criação da superliga, a UEFA, FIFA, governos e adeptos responderam com um rotundo “não” e com cartazes a dizer que os adeptos são apoiantes, não clientes. Apoiaram-se na defesa dos verdadeiros valores do desporto, como a recompensa do mérito, e do esforço; a incerteza do resultado; a solidariedade, e distribuição de receitas entre clubes; a possibilidade do mais fraco poder vencer o mais forte (…) valores que nos podem “comover”. Mas há muito que estes valores deixaram de orientar o desporto profissional.

Os clubes são, cada vez mais, empresas cotadas em bolsa, onde os jogadores passaram a ser ativos com valor económico, e onde os adeptos são meros piões nesta indústria. É por isso que muitos defendem que este “nado morto” (superliga) não passou de mera batalha, de uma guerra maior, pelo controle financeiro desta indústria, em que a UEFA e a FIFA, desta vez, levaram a melhor. E da próxima?

Tudo isto nos leva a questionar: o desporto profissional tem valores? Tem, se a intenção de quem o dinamiza for que ele seja um instrumento, e uma ferramenta pedagógica ao serviço do ser humano, através de uma competição leal, autenticidade no resultado, audácia dos mais fracos, superação das dificuldades ou recompensa do sacrifico; caso contrário, o desporto será um mero exercício ao serviço da ganância e do poder e perderia todo o seu sentido e significado.

Daí que também seja oportuno salientar que o desporto é um dos primados da educação, corredor para a ética se edificar num fair-play efectivo, onde o desportivismo assente na integridade de cada um, para que o desporto tenha mais qualidade, especialmente humana, promovendo em todos os agentes uma motivação para uma liderança escorreita para a superação – e, porque não, para a transcendência!

 

José Lima é coordenador do Plano Nacional de Ética no Desporto

 

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