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[Entre Margens]

Os valores que Ventura diz querer recuperar serão mesmo cristãos?

| 26/01/2026

 

O país ouviu André Ventura dizer que um dos seus imperativos era devolver os valores cristãos à sociedade portuguesa. Sendo uma nobre intenção, perguntei-me logo: mas a que valores se estará a referir?

Seria pretensioso da minha parte se pretendesse influenciar o sentido de voto dos eleitores que, para isso, não precisam das minhas opiniões. Essa é uma decisão da esfera pessoal de cada um. Não me quero pôr em bicos de pés, julgando-me mais cristão que os demais. Quem conhece as minhas intervenções públicas, sabe que, para mim, como escreveu o saudoso Papa Francisco: «A realidade é superior à ideia»[1] e «O todo é superior à parte»[2].

Acolhimento de refugiados na estação de Berlim Foto © Helena Araújo

Na certeza de que Ventura lê o mesmo Evangelho que eu, pergunto-me se será compatível com esse Evangelho a recusa a acolher refugiados, quando o próprio Jesus e seus pais viveram esse drama, tendo fugido à tirania do raei Herodes. Foto: Acolhimento de refugiados na estação de Berlim. © Helena Araújo

Posto isto, e na certeza de que Ventura lê o mesmo Evangelho que eu, pergunto-me se será compatível com esse Evangelho a recusa a acolher refugiados, quando o próprio Jesus e seus pais viveram esse drama, tendo fugido à tirania do raei Herodes (cfr. Mateus 2, 13-22). Sabendo que Jesus apreciava o trabalho, e que, segundo a Tradição, teria exercido a profissão de carpinteiro até aos 30 anos, e que se fez colega de uma frutuosa pescaria no barco dos seus amigos, isso não o impedia de defender os que passavam privações. Recordo, apenas, dois episódios: não deixou ir embora os que o ouviam, porque podiam desfalecer com fome, dando indicações aos seus apóstolos para lhes darem de comer (cfr. Mateus 15, 32-39); também os seus amigos sentiram fome e, mesmo contra a lei judaica, colheram espigas de trigo de propriedade alheia, e em dia de sábado, para se alimentarem (cfr. Marcos 2, 23-28). Jesus também se identificou com todos os que matam a fome aos famintos, que visitam os prisioneiros, que dão guarida aos forasteiros…, afirmando mesmo que, quem assim procede, é a Ele mesmo que o faz. (cfr. Mateus 25, 35-45). Como poderá um cristão ser contra as ajudas subsidiárias para satisfazer necessidades básicas?

Jesus nunca pactuou com a maldade, nem branqueou a assunção de responsabilidades dos maldosos, condenava a suas atitudes, mas apostava na sua reabilitação. A este propósito lembro Zaqueu, um corrupto financeiro (cfr. Mateus 19, 1-10), a mulher adúltera (cfr. João 8, 1-11) e a parábola do Filho Pródigo (cfr. Lucas 15, 11-13). Poderá um cristão não apostar na conversão dos pecaminosos ou no acolhimento dos “diferentes”? Jesus, sendo judeu, meteu conversa com uma mulher estrangeira, a samaritana, sendo certo que judeus e samaritanos não se relacionavam. (cfr. João 4, 1-42). Poderá um cristão ser tão radical no acolhimento de imigrantes? Em suma, a lei cristã é amar a Deus e ao próximo, incluindo os inimigos, como a nós mesmos (cfr. Mateus 22, 36-40). Não é nada fácil, mas é uma exigência do discipulado cristão.

André Ventura sabe, como eu, que estes e outros valores cristãos são os fundamentos da Doutrina Social da Igreja (DSI) também conhecida como Pensamento Social Cristão. Não tenho espaço para explanar os princípios deste Pensamento. Recordo apenas um, que é o “alicerce” de todos os outros: o respeito e a defesa inalienáveis da dignidade do ser humano. Poderia referir, ainda, algumas das orientações do Papa Francisco no capítulo V – “Uma política melhor” – da Carta Encíclica Fratelli Tutti. Mas sei que Ventura nunca gostou de Bergoglio, por isso cito o atual Papa: «a encarnação (Deus feito homem em Jesus) exige também de nós um compromisso concreto com a promoção da fraternidade e da comunhão, para que a solidariedade se torne o critério das relações humanas; com a justiça e a paz; com o cuidado dos mais fracos e a defesa dos mais vulneráveis.»[3]

Finalmente, gostaria que Ventura compreendesse que quanto mais humanista for a sociedade portuguesa, mais cristã será.

 

[1] Cfr. FRANCISCO, Carta Encíclica Fratelli Tutti (3 de outubro de 2020), Paulinas Editora- Secretariado Geral do Episcopado, Prior Velho 2020, 231-233.
[2] Cf. Ibidem 234-237.
[3] Leão XIV no Angelus: não há culto autêntico a Deus sem o cuidado da carne humana

 

Eugénio Fonseca é presidente da Confederação Portuguesa do Voluntariado.

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