Mãos à Obra

Os voluntários que escutam os presos

| 28 Mai 2021

apoio ajuda foto direitos reservados

As associações Confiar e APAR apoiam, há mais de 20 anos, os reclusos “nas suas necessidades materiais, sociais e espirituais, através de grupos de voluntários visitadores”. Foto: Direitos reservados.

 

Eles também fazem fila à porta das cadeias para visitar os presos. São voluntários das associações que apoiam os reclusos e as suas famílias. Escutam as suas preocupações, ajudam-nos a resolver problemas, a organizar festas de aniversário, a apoiar os filhos e a encaminhar a vida quando saem da cadeia.

Duas destas associações, a APAR (Associação Portuguesa de Apoio ao Recluso) e a Confiar, dedicam-se há mais de 20 anos a “apoiar as pessoas reclusas nas suas necessidades materiais, sociais e espirituais, através de grupos de voluntários visitadores”, diz Luís Gagliardini Graça, presidente da Confiar, associação criada em 1999 pelo padre Dâmaso Lambers e por um grupo de leigos católicos.

Tendo em vista a reinserção social, esta associação tem desenvolvido várias iniciativas, no âmbito das práticas restaurativas, tanto internamente como numa Casa de Saída onde se instalam ex-reclusos que não têm alojamento. Agora, porém, vão poder estender essas práticas à comunidade: ganharam uma candidatura ao projeto “Bairros Saudáveis” que se chama, precisamente, Bairro Restaurativo do Alcoitão. Ali pretendem aplicar essas práticas, “unindo raças, credos e etnias numa sã e profícua convivência e compreensão mútua, através da consciência do próximo”, adianta Gagliardini Graça.

Na perspetiva da reinserção social, existe também, desde 2017, o Centro de Apoio Familiar, fruto de uma parceria com a Câmara Municipal de Cascais, que, através da “Justiça Restaurativa”, visa prestar apoio psicossocial às pessoas reclusas, ex-reclusas e às suas famílias, bem como às vítimas dos crimes.

Com o propósito de aprofundar o estudo científico e a mensurabilidade da ação restaurativa, a associação criou ainda o Observatório e Centro de Competências em Justiça Restaurativa, em parceria com o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa (ISCSP-UL).

 

Identificar e resolver os fatores de risco

Mas uma das principais funções da Confiar é desenvolvida pelo Gabinete de Apoio à Liberdade, que identifica os fatores de risco para cada recluso a seis/doze meses da sua saída, tais como “a falta de documentação, de alojamento, de vínculo familiar, saúde, solidão, as dívidas à Autoridade Tributária e à Segurança Social, ou a falta de trabalho”, refere Gagliardini Graça.

Para resolver esses problemas, são desenvolvidos os “Fatores de Proteção”, que abrangem o apoio psicossocial, o RSI, a Casa de Saída, a formação profissional, a busca ativa de emprego “e as práticas restaurativas que os permitem reconciliarem-se com o seu passado e comprometerem-se com o seu futuro”, sublinha o presidente da associação.

Todo este trabalho é desenvolvido a par de um esforço para vencer vários tipos de obstáculos, como as “disfuncionalidades psicológicas, sociais, financeiras, culturais e materiais” que caracterizam grande parte da população reclusa. Gagliardini Graça refere também o “enorme estigma que marca a população em conflito com a lei, o que gera algum distanciamento e mesmo alguma repulsa no apoio à sua reinserção socioprofissional.” Problemas que têm grande impacto na vida da associação: “A Confiar precisa de ir buscar os melhores técnicos para colmatar e lidar com os mais fragilizados, com os mais pobres dos pobres, e isso gera enormes carências financeiras.”

O principal apoio vem do seu parceiro principal, a Câmara Municipal de Cascais, mas a associação está a candidatar-se a vários projetos de financiamento nacionais e internacionais.

 

Ajudar reclusos em Portugal e no estrangeiro
prisao foto (c) Fifaliana Joy Pixabay

Ajudar todos os reclusos, independentemente da sua “nacionalidade, raça, religião, cor política e género” é o objetivo da APAR. Foto: Direitos reservados.

 

Mais cedo do que a Confiar, na década de 1980 foi criada a APAR, com o objetivo de “ajudar todos os reclusos das 49 cadeias portuguesas, independentemente da nacionalidade, raça, religião, cor política e género” e ainda “todos os reclusos portugueses em cadeias no estrangeiro”, diz Vítor Ilharco, da direção da associação. Uma missão cumprida exclusivamente por voluntários.

Com 95% de associados reclusos, a área em que se têm destacado é principalmente a do aconselhamento jurídico, no âmbito da defesa dos seus direitos e da procura de soluções para preparar a saída da cadeia.

“Em defesa dos Direitos Humanos, denunciamos (e por vezes participamos à Justiça) todos os abusos e ilegalidades de que temos conhecimento, na convicção de que, se um recluso está preso por não cumprir a Lei, a Lei que rege a vida dentro das cadeias tem de ser cumprida até como exemplo para a reabilitação”, sublinha Vítor Ilharco. “As cadeias são um monte de problemas e podemos dizer que é difícil encontrar algo que esteja certo: instalações degradadas ao nível do terceiro mundo, comida péssima (o Estado paga às empresas de fornecimento €3,20 pelas quatro refeições diárias de cada recluso, ou seja, 80 cêntimos por cada refeição), má qualidade na saúde, falta de trabalho (e quando há, é pago a €2,00 por dia), dificuldade para estudar, dificuldade nos contactos com as famílias (podem fazer uma única chamada por dia de cinco minutos), zero preocupação com a reabilitação, etc., etc., etc…”

Nas cadeias femininas, os problemas agravam-se, já que muitas mulheres presas têm os filhos consigo.

A impossibilidade de dar resposta atempada aos pedidos de apoio é apontada por Vítor Ilharco como a principal dificuldade com que a APAR se debate, apesar de contar apenas com o apoio dos sócios não reclusos e dirigentes.

Mas, contra todas as dificuldades, os voluntários das associações continuam a fazer fila à frente das cadeias. Para visitar e apoiar os presos, acreditando que “todo o homem é maior do que o seu erro.”

 

Judeus da Europa “mais angustiados que nunca” face ao aumento do antissemitismo

Estudo revela

Judeus da Europa “mais angustiados que nunca” face ao aumento do antissemitismo novidade

O mais recente relatório da Agência da União Europeia para os Direitos Fundamentais (FRA) não deixa margem para dúvidas: o antissemitismo cresceu nos últimos cinco anos e disparou para níveis sem precedentes desde o passado mês de outubro, o que faz com que os judeus a residir na Europa temam pela sua segurança e se sintam muitas vezes obrigados a esconder a sua identidade judaica.

Fundadora da Comunidade Loyola castigada pelo Vaticano é ministra da comunhão em Braga

Decreto de extinção a marcar passo?

Fundadora da Comunidade Loyola castigada pelo Vaticano é ministra da comunhão em Braga novidade

A pouco mais de três meses de se completar um ano, prazo dado pelo Vaticano para extinguir a Comunidade Loyola, um instituto de religiosas fundado por Ivanka Hosta e pelo padre Marko Rupnik, aparentemente tudo continua como no início, com as casas a funcionar normalmente. No caso da comunidade de Braga, para onde Ivanka foi ‘desterrada’ em meados de 2023, por abusos de poder e espirituais, a “irmã” tem mesmo estado a desenvolver trabalho numa paróquia urbana, incluindo como ministra extraordinária da comunhão, com a aparente cobertura da diocese.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Sobreviventes de abusos acusam bispos de os “revitimizar” no processo de compensações financeiras

Contra a obrigação de repetir denúncias

Sobreviventes de abusos acusam bispos de os “revitimizar” no processo de compensações financeiras novidade

Vários sobreviventes de abusos sexuais no seio da Igreja Católica expressaram, junto da presidência da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), o seu descontentamento quanto ao “método a utilizar para realizar as compensações financeiras”, dado que este obriga todas as vítimas que pretendam obtê-las a repetirem a denúncia que já haviam feito anteriormente.

Cuidar do outro com humanidade

Cuidar do outro com humanidade novidade

A geração nascida em meados do século passado foi ensinada a respeitar os mais velhos, a escutá-los e seguir os seus ensinamentos, dada a sua condição de anciãos e, por tal, sabedores daquilo que é melhor para a família, para cada comunidade e para a sociedade em geral. Era assim que se preparavam as novas gerações para aprenderem a respeitar o outro, os seus pais, irmãos e avós, cuidando deles e uns dos outros, desde a nascença até à morte. [Texto de Caseiro Marques]

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This