Óscar Braga (1931-2020): o bispo “agrónomo” que mais vocações semeou

e | 28 Mai 20

D. Óscar Braga, bispo de Benguela

D. Óscar Braga (à esquerda), antigo bispo de Benguela, que morreu no dia 26 de Maio. Foto Diocese de Santarém/Agência Ecclesia

 

Tinha por detrás dele a aura de engenheiro, mais concretamente de regente agrícola, múnus a que se tinha dedicado antes de se decidir pelo sacerdócio e entrar no Seminário dos Olivais, em Lisboa, onde concluiu os cursos de Teologia e de Filosofia. O antigo bispo de Benguela (Angola), Óscar Braga, morreu esta terça-feira, 26 de maio, aos 89 anos.

Filho de colonos portugueses, Óscar Braga nasceu em Angola, em Malange, em 1931, onde fez os estudos iniciais. Entre a agricultura e a vontade de servir pastoralmente os angolanos chegou a ordenação de padre, em 1964.

D. Óscar levaria a agronomia para o seu ministério de pastor. Primeiro como padre, depois como chanceler e vigário-geral de Malange, e finalmente assumindo, já depois da Revolução de 25 de Abril, em novembro de 1974 e por 34 anos, o governo da diocese de Benguela.

Da sua formação inicial de quem trata do cultivo dos campos, passou a tratar de cultivar a humanidade: a preocupação e o conhecimento profundo de cada pessoa, e o cultivo da relação pessoal fez de Óscar Braga um pastor de excelência, reconhecido pelas populações.

No Sul de Angola, entre abundantes acácias rubras, empreendeu um dos mais notáveis feitos na gestão do Seminário Diocesano, que abastece de clero toda a antiga colónia, incluindo algumas dioceses de Portugal.

Num período particularmente duro da história de Angola, que incluiu a descolonização, a guerra civil e os anos de um regime hostil à Igreja Católica, D. Óscar soube impor-se e Benguela passou de zero padres diocesanos a 302, tantos quantos os padres por ele ordenados – um número de que poucos bispos se podem orgulhar por esse mundo fora.

Sem medo, Óscar Braga não teve dificuldade em tornar pública a informação de que a hierarquia católica tinha apresentado ao MPLA e à UNITA a disponibilidade total para mediar o conflito, à semelhança do que acontecera em Moçambique. Mas, ao contrário do país lusófono do Índico, as forças beligerantes em Angola não aceitaram a medição da Igreja porque ambas pensavam que iam ganhar a guerra, destruindo o ‘inimigo’. Esta não aceitação custou caro demais ao povo angolano.

A ação de D. Óscar notou-se também no serviço social da Igreja Católica, sobretudo quando colocou a Cáritas a apoiar milhares de pessoas vitimizadas pela guerra civil angolana. Sempre interveniente, nem sempre apreciado (dentro ou fora da Igreja), destacou-se pela sua enorme verticalidade, humildade, simplicidade e entrega total à missão, numa permanência activa, por longo tempo, entre o povo que sempre serviu e as instituições civis e eclesiásticas.

Para além de ter ‘lançado’ o Escutismo em Angola, criou o Movimento Promaica (Promoção da Mulher na Igreja Católica) num período em que as mulheres queriam e precisavam de dar a entender aos senhores da guerra que estavam cansadas de ver maridos e filhos a morrer nas linhas da frente. Muitas mulheres da Promaica forçaram o movimento a favor da paz para o país, após muitas manifestações e intervenções junto de políticos e militares.

Óscar Braga. Benguela. Lobito, Angola. Mulheres

Missa no bairro de morro São João Batista, no Lobito (Angola), na Páscoa de 2017, animada pela Promaica, associação de defesa do papel das mulheres na sociedade e na Igreja fundado em Benguela por D. Óscar Braga. Foto © Tony Neves

 

“Os feitos de pastor zeloso e dedicado, durante os seus 34 anos de pastoreio à frente da diocese de Benguela, são incontáveis: desde a formação do clero local até à criação de obras sociais. No seio da Conferência Episcopal, foi sempre um irmão e amigo com quem se podia contar em todos os momentos”, escreveu o presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé, Filomeno Vieira Dias, arcebispo de Luanda, reagindo à notícia, citado pela Ecclesia.

Em Junho passado, em Benguela, estava já muito débil, mas sempre simpático e acolhedor. Essa foi a sua imagem de marca que, quem o conheceu, guardará para sempre.

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