Otelo como criação shakespeareana

| 11 Ago 21

A notícia da morte de Otelo (1936-2021) diz pouco sobre a sua vida, mas os comentários produzidos em público a esse respeito são extremamente elucidativos sobre os seus autores. No meio da cacofonia destaca-se a lucidez e sentido da História de Ramalho Eanes.

Otelo Saraiva de Carvalho, 1976.

“Como é que um filho branco de Lourenço Marques era capaz de dar o tiro de misericórdia na política colonial?” Foto: Otelo Saraiva de Carvalho, 1976. © Manuelvbotelho /Wikimedia Commons

 

Shakespeare já em 1603 tinha antecipado quase profeticamente o verdadeiro drama da vida do Otelo português na personagem do general mouro que servia o reino de Veneza. A peça de teatro relata a trama que se desenvolve especialmente à volta de mais três personagens: Desdémona, a mulher de Otelo, Cássio, o seu tenente e Iago, sub-oficial, envolvendo questões como racismo, amor, ciúme e traição, uma ementa de sucesso garantido em qualquer tempo histórico.

O pai de Desdémona, um senador rico de Veneza, inicialmente dera liberdade à filha para escolher o homem com quem casar, pensando sempre que o faria dentre a elite veneziana. Afinal a jovem acabou por fugir para casar com o mouro Otelo, pelo que intentou matá-lo, mas limitou-se a acusá-lo injustamente de ter seduzido a filha com bruxarias.

O problema é que o general mouro era considerado digno de confiança na cidade, estimado pela sua coragem, lealdade, nobreza e o único comandante competente para dirigir um contra-ataque do exército a uma esquadra turca. Quando confrontado com a acusação, defendeu-se ao partilhar a sua história de amor que foi confirmada pela própria Desdémona, pelo que foi absolvido.

O drama adensa-se quando Otelo cai na armadilha lançada pelos seus inimigos, os quais, devido a jogos de poder o levam ao engano de supor que Desdémona andava a traí-lo e a mata, cego de ciúmes, acto de que se arrepende logo que cai em si e descobre que ela era inocente, percebendo que foi enganado, pelo que se suicida sucumbindo ao peso da culpa.

No fundo, a dramaturgia histórica do séc. XX sugere que Desdémona é a pátria com quem Otelo se casa de modo igualmente inesperado em 25 de Abril de 1974. Afinal, foi este “mouro” nascido em Moçambique, este desconhecido capitão de artilharia do exército que desenhou a estratégia e organizou o golpe de estado que libertou a república de décadas de opressão.

O “mouro” nunca seria perdoado pelas elites da metrópole alinhadas com o regime. Como é que um simples capitão deitava abaixo um regime cujos generais (a tristemente famosa “brigada do reumático”) ainda poucos dias antes tinham ido prestar vassalagem ao poder político da ditadura? Ainda se fosse um general como Spínola…

Mas Otelo seria alvo de ainda maior animosidade das elites brancas das colónias que aspiravam quanto muito um regime de poder branco como o de Ian Smith na antiga Rodésia. Como é que um filho branco de Lourenço Marques era capaz de dar o tiro de misericórdia na política colonial? Basta acompanhar as redes sociais para ver o ódio de que era alvo mesmo no momento da sua morte, ainda que sempre tenha negado responsabilidade nas mortes das FP-25, nem se tenha provado a sua autoria material ou mesmo moral de tais crimes. Nunca foi um homem dado a violências. Quando era comandante militar em África Otelo levava sempre uma arma sem munições…

Recusou ser promovido ao generalato (apenas foi graduado transitoriamente a fim de exercer altas funções militares), e rejeitou os convites para ser chefe do Estado-Maior das Forças Armadas ou primeiro-ministro, por exemplo, mostrando um desapego ao poder que muitos dos seus críticos nunca revelaram. Nunca quis levantar a Ordem da Liberdade com que o Presidente Eanes o condecorou quando estava em Belém.

Como se comprova mais uma vez as revoluções consomem os seus filhos. O Otelo romântico, idealista, impetuoso, controverso, desmedido nas palavras, ingénuo e sem cultura política deixou-se enredar pelos acontecimentos e, tal como o Otelo shakespeareano, foi manipulado, levado ao engano, ligou-se a gente que atentou contra a sua amada, a democracia que ajudara a estabelecer.

Disse e fez muita asneira, viveu de forma apaixonada, mas parece que morreu de tristeza. Não se suicidou como o outro Otelo, mas talvez se tenha deixado morrer. Faço minhas as palavras de Eanes: “a Pátria deve-lhe a liberdade e a democracia. E esta é dívida histórica que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.”

As comparações que alguns fazem com Salgueiro Maia apenas para diminuir Otelo são manhosas porque aquele nunca se desgastou em envolvimentos na vida política. E mesmo assim Cavaco Silva negou-lhe uma pensão por “serviços excepcionais e relevantes” que concedeu aos torcionários da PIDE Augusto Bernardo e Óscar Cardoso. Sim, a revolução consome os seus filhos.

Esta também é uma estória de sectarismos e jogos de poder. Se o dramaturgo inglês do séc. XVII vivesse hoje encontraria ainda muito maior inspiração na realidade para escrever “Otelo, o mouro de Lisboa”.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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