Se me perguntassem, há alguns anos, qual era a minha conceção sobre a natureza humana, diria, sem grandes hesitações, que era um otimista. Talvez conduzido pela perspetiva da fé cristã, via o ser humano do ponto de vista da sua origem absoluta. A sua existência não fora fruto do acaso, mas da vontade consciente de Deus, que o criara à sua imagem e semelhança para ser o guardião da vida e do mundo. E apesar de a história bíblica não terminar por aqui, a sua sequência trágica parecia enquadrada num plano mais global no qual toda a criação se haveria de reconciliar consigo mesma. O fim, previamente previsto e desejado por Deus, seria a glória da vida plena e não o absoluto nada.
Uma tal perspetiva tem necessariamente repercussões sobre a forma como observamos a história humana. E, na verdade, todos os grandes momentos da história da humanidade me pareciam encaminhá-la para um fim maior. Adotara, portanto, uma conceção progressiva da história, talvez ingenuamente otimista.

A ilustração da capa de “Uma História do Paraíso (I) – O Jardim das Delícias”: Jean Fouquet, “A Criação – Deus apresentando Adão e Eva” em “Antiquités Judaiques” (c.1470-76). Bibliotheque Nationale, Paris
No passado recente, via, no Ocidente, as liberdades serem amplamente protegidas e vividas, a solidariedade entre nações ser aprofundada, os direitos das minorias serem conquistados, o papel da mulher ser amplamente revisto no sentido de lhe reconhecer a igualdade em relação à outra metade da humanidade, os direitos sociais serem consolidados, etc. Enfim, tudo parecia progredir, depois de um período negro da história humana que havia culminado nas duas guerras mundiais. Vivíamos agora o despertar da humanidade para a sua reconciliação com a vida.
Mas as circunstâncias que sustentavam esse otimismo antropológico ruíram. O advento da extrema-direita veio conturbar a vida dos povos. Os discursos de ódio voltaram a dominar a cena política, as minorias voltaram a ser pisoteadas nos seus direitos fundamentais, o discurso político passou a utilizar a mentira, sem a mínima vergonha ou consciência moral, para fins claramente partidários e pessoais, a consciência moral volatilizou-se na contradição hipócrita entre um discurso moralista passadista e uma prática totalmente avessa aos mais elementares valores éticos, o papel social e político da mulher voltou a ser questionado, o autoritarismo e a perseguição política voltaram à ordem do dia, o outro (o imigrante, o homossexual, o trans-sexual, o cigano, etc.) passou a ser o demónio de que nos temos de livrar, a violência verbal e física criou raízes no quotidiano, etc.
A profunda alteração das circunstâncias provocou em mim um certo desalento e modificou sensivelmente a minha perspetiva antropológica. Talvez o facto de eu próprio me ter afastado da Igreja a que pertencia (mas não do Evangelho que ela anuncia) tenha tido alguma influência nesta alteração de perspetiva. Penso, porém, que o fator principal foi o advento da extrema-direita — com o seu discurso racista, xenófobo, homofóbico, transfóbico, misógino, etc. — e sobretudo o facto incontornável da enorme massa humana que a ela aderiu. A princípio, julguei impossível que uma maioria de pessoas pudesse embarcar neste tipo de discurso e de prática. Sempre soube que nem todos os seres humanos se adaptam à evolução civilizacional das sociedades. Há sempre quem decida ficar para trás, assumindo como válidos os valores que, entretanto, as relações sociais passaram a recusar. No entanto, seria sempre um pequeno grupo de saudosistas de que a história não haveria de guardar memória. Infelizmente, não é isso que está a acontecer. Uma mole humana, instigada pelas eficazes estratégias de propaganda da extrema-direita nas redes sociais, aderiu a tão descabido projeto político-social. Não sei se virão a constituir governo, mas atendendo ao que tem acontecido nos EUA e em vários países europeus, tudo leva a crer que assim será.
Talvez o ser humano não seja mesmo essa imagem e semelhança de Deus que a Bíblia proclama ou talvez a continuação da narrativa bíblica relatando o fracasso do projeto original de Deus tenha um peso muitíssimo maior do que a forma ingénua como muitos cristãos olham para a história da humanidade e leem a condição humana. Seja como for, o mundo parece à deriva, sem rumo que o possa levar para onde esteja ao abrigo da catástrofe que parece procurar. A violência grassa um pouco por todo o lado, as guerras pontuam os continentes, as ameaças imperiais tomam a dianteira, o direito internacional é olimpicamente ignorado a favor da força bruta, o genocídio passou a estar na ordem do dia, etc.

“Será que, como pretendia Hegel, a história é constituída por avanços e recuos (não um vetor, mas uma espiral), sendo que, no cômputo geral, o saldo será positivo, porque é a Razão (Deus) que a conduz por caminhos ínvios para fins redentores?” Foto © Ludde Lorentz / Unsplash
É certo que esta análise se circunscreve a um curto lapso da história humana. Uma visão mais abrangente seria decerto mais profícua no que a uma verdadeira visão antropológica diz respeito. Será que, como pretendia Hegel, a história é constituída por avanços e recuos (não um vetor, mas uma espiral), sendo que, no cômputo geral, o saldo será positivo, porque é a Razão (Deus) que a conduz por caminhos ínvios para fins redentores? Não é claro que assim seja. Há com certeza uma evolução do conhecimento humano e essa evolução trouxe melhorias significativas na vida das populações humanas. Mas podemos estar seguros de que houve também uma evolução da consciência humana, dos valores em que acredita, da relação entre discurso e ação, da prática concreta dos valores morais na relação com os seus semelhantes e com a totalidade das coisas criadas? Não é, de todo, evidente que assim seja. Aliás, uma análise séria dos tempos atuais parece derrotar qualquer veleidade nesse sentido.
É possível que uma tal viragem à extrema-direita se relacione com a atual evolução do capitalismo. A ser assim, é preciso rever completamente a forma de organização económica que à atual situação nos conduziu. De facto, se a prosperidade económica foi aumentando após a Segunda Guerra Mundial e com ela o bem-estar social, nos últimos vinte a trinta anos, temos vindo a assistir à rápida concentração do poder económico nas mãos de poucos multimilionários, ao empobrecimento constante das classes trabalhadoras e à desarticulação da classe média. Caminhamos para um abismo onde a maior parte será pobre e um pequeníssimo grupo de privilegiados açambarca a totalidade dos recursos. Hoje, há multimilionários que afrontam o poder dos Estados que a eles se não sujeitam porque o seu poderio económico ombreia com os recursos de muitos Estados. Seja como for, tomaram indiretamente conta dos aparelhos de Estado, manipulando a opinião pública através dos meios de comunicação tradicionais que lhes pertencem e das redes sociais de que são detentores.
Talvez a verdade acerca do ser humano não resida nem no pessimismo antropológico, segundo o qual o ser humano é intrinsecamente mau, nem no otimismo que se lhe opõe, segundo o qual o ser humano é intrinsecamente bom. É possível que a natureza humana no seu estado “puro” (ainda não contaminado pelo ambiente social) não seja nem moralmente boa nem moralmente má. Cada ser humano nasce como pura possibilidade e é o contexto que o vai moldando à medida que cresce, até atingir a maturidade moral e poder decidir por si próprio qual o universo de valores que pretende adotar e que decisões tomar. A liberdade torna o ser humano responsável pelo que é, embora o que é seja parcialmente o resultado do contexto em que cresceu.
Que fazer, então, face a uma tão desastrosa situação, como aquela que se configura nos tempos que vivemos? Em primeiro lugar, julgo que nos não podemos deixar levar pelo desânimo. Essa seria a derrota absoluta dos valores em que acreditamos e a submissão a entidades obscuras e fins contrários aos interesses da humanidade como um todo.

“Em tempos obscuros como o nosso, a militância pública dos que defendem a democracia, a liberdade, a igualdade e todos os valores inscritos nas declarações internacionais de direitos humanos é um dever moral de que ninguém se deve eximir. Foto: Eleanor Roosevelt exibe a edição do Jornal das Nações Unidas contendo a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1949).” Foto © Centro Regional de Informação das Nações Unidas (UNRIC)
Em tempos obscuros como o nosso, a militância pública dos que defendem a democracia, a liberdade, a igualdade e todos os valores inscritos nas declarações internacionais de direitos humanos é um dever moral de que ninguém se deve eximir. Esta militância terá, com certeza, vários níveis de intervenção. Cada qual saberá onde e quando investir na defesa dos seus pontos de vista. Alguns escrevem denunciando os atropelos à dignidade humana e propondo um universo de valores onde todos tenham lugar; outros sairão à rua, empunhando o seu descontentamento e propondo alterações na legislação; outros usarão as redes sociais para desmascarar mentiras e repor a verdade; etc. Cada pessoa de boa vontade, que está verdadeiramente empenhada em construir uma sociedade mais justa e solidária, saberá como e onde agir. Só a indiferença face ao atual estado de coisas deverá ser excluída. Conduzir a história para a afirmação da vida é um direito e, sobretudo, um dever moral. Seremos chamados a intervir onde quer que as pessoas sejam espezinhadas, independentemente da sua nacionalidade, etnia, cor, língua, opinião política, religião, condição social ou sexo. Os direitos humanos ou são universais ou não são humanos.
Neste sentido, quem acredita profundamente no poder civilizador dos direitos humanos não pode ficar indiferente aos atropelos a que são sujeitos tanto no convívio social, como nas relações políticas, sem esquecer a vida institucional das comunidades religiosas. Nenhum cristão deveria ficar indiferente ao facto de muitas igrejas discriminarem as mulheres e a comunidade LGBT+. Nenhum elemento de qualquer religião deveria sentir-se confortável com práticas degradantes como a excisão feminina e tantas outras que as religiões institucionais não só toleram como justificam. Se acreditamos que tudo quanto existe teve origem nesse Princípio sem princípio a que chamamos Deus, para o qual tende o universo, não pode haver lugar para crenças e práticas que degradem, humilhem e discriminem seres humanos ou para práticas que destruam a Natureza da qual a vida humana depende.
Jorge Paulo é católico e professor do ensino básico e secundário.










