
Duas voluntárias na sede da organização do 46º Encontro Europeu de Taizé, em Liubliana (Eslovénia). Foto © Comunidade de Taizé
Milhares de jovens chegaram esta quinta-feira, 28, a Liubliana (Eslovénia), para participar no 46º Encontro Europeu de Taizé, que irá decorrer naquela cidade até ao dia 1 de janeiro. A avaliar pelo sorriso no rosto de cada um, visível nos vídeos e fotos que chegam de lá, a alegria por estar ali é grande. Mas… e no fim? “Ousaremos partir de novo, não sozinhos, mas com outros, mutuamente enriquecidos, enquanto caminhamos juntos?”, pergunta o irmão Matthew, prior da comunidade, na mensagem que servirá de mote para este encontro.
O novo responsável de Taizé – a quem o anterior prior, o irmão Aloïs, passou o testemunho há menos de um mês – reconhece que “os desafios de hoje” são muitos. “Vemos que a Criação de Deus está ferida; a nossa família humana, também ferida, faz parte dela”, escreve, referindo-se especificamente às “famílias que são despedaçadas por conflitos e guerras”, mas também às “vidas que foram danificadas por pessoas que professam o nome de Cristo, na Igreja e também na Comunidade de Taizé”, devido aos abusos que sofreram.

Primeira oração comum no 46º Encontro Europeu de Taizé, em Liubliana (Eslovénia). 28 Dezembro 2023. Foto © Laura Pisanello, cedida pela autora
“Contudo, não haverá um apelo para enfrentarmos juntos esses desafios?”, pergunta ainda, lembrando um provérbio africano que diz: “O que faz que uma jornada longa pareça curta é o facto de caminharmos juntos”. E garantindo: “quando enfrentamos tais desafios juntos, pode haver experiências de beleza e de transcendência que nos ajudam a descobrir a faísca que nos faz voltar a partir com nova vitalidade”.
Mas para isso é preciso praticar “um ato de amor” que é escutar, defende o irmão Matthew. Porque “escutar está no cerne de qualquer relação de confiança. Sem a escuta, pouca coisa pode crescer ou desenvolver-se. Nenhuma relação pode funcionar sem ela”, explica o prior da comunidade aos jovens. E lembra que “no centro da escuta está o silêncio”. “Hoje, muitas vezes temos a impressão de que quem grita mais alto tem mais sucesso. A violência parece estar a aumentar em tantos lugares que já não sabemos para onde nos podemos voltar”, diz. E lança mais uma questão: “Tentar ouvir e compreender o outro não será o caminho a seguir?”.
Quanto ao caminho, é preciso fazê-lo como Jesus, que “não excluiu ninguém da sua jornada”. “Enraizado numa comunhão com Deus, partilhou a sua vida com quem quer que viesse até ele, com pessoas justas e injustas. Reconheceu a presença de Deus nos que se encontravam nas margens da sociedade, nos pecadores e nos excluídos, e até nos que não eram do seu próprio povo. Jesus deu o que tinha e também recebeu dos que encontrou. A sua vida foi desafiada por eles e muitas vezes ficou mais rica”. Jesus convida-nos “a trilhar este mesmo caminho”, sugere o prior da comunidade ecuménica.
É certo que “nem sempre é fácil estar com os outros”, pois “cada um de nós carrega feridas” e “às vezes, magoamo-nos mutuamente”. Mas se os escutarmos verdadeiramente “descobrimos a nossa humanidade comum mais frequentemente do que imaginamos”, assegura o irmão Matthew. “As diferenças não são tão grandes quanto pensávamos. A unidade na diversidade é de facto possível.”
Um “milagre de Natal”

Montagem do espaço onde decorrem as orações da noite ao longo de todo o encontro, as quais contarão com transmissão online em direto. Foto © Comunidade de Taizé
O encontro em Liubliana poderá já ser a prova disso mesmo, com vários milhares de jovens de vários países e de diferentes confissões cristãs reunidos durante cinco dias na capital eslovena para rezar e partilhar a vida dos habitantes e das igrejas locais. Na Arena Stozice, cerca de 16.000 jovens participaram na primeira oração comum deste 46º encontro europeu organizado pela comunidade de Taizé, ao início da noite desta quinta-feira, 28 de dezembro. Um encontro que estava a ser preparado há muitos meses e para o qual a máquina de acolhimento esteve a funcionar nos últimos dias.

Vista de Liubliana (Eslovénia), cidade jovem e sustentável, que acolhe o 46º Encontro Europeu de Taizé. 28 Dezembro 2023. Foto © Laura Pisanello, cedida pela autora
Liubliana é uma cidade jovem e sustentável, com um centro histórico que se desenrola sob o castelo e amplos espaços verdes, uma história recente contada com orgulho. Cheia, nestes dias, de turistas, que se misturam também com os jovens de mochila às costas, vindos de toda a Europa.
Repleta de jovens, na Arena Stozice ecoavam também vozes de crianças e adultos que há anos aderem à mensagem ecuménica proposta por Taizé. Cerca de 40 irmãos da comunidade sediada na pequena aldeia da Borgonha (França) cantaram os primeiros cânticos, juntando-se depois as vozes dos milhares que participam depois o Evangelho: “Rabi, onde moras? Vem e vê. (Jo 1,38-39)
“Que alegria estar aqui. Foi uma oportunidade para encontrar os cristãos de Liubliana, procurando escutar-se uns aos outros”, sublinhou o irmão Matthew, o novo prior da comunidade. Com ele estavam também o bispo católico Stanislav Zore e o pastor da Igreja Evangélica.
Todos os cristãos são convidados a escutar toda a gente e os jovens a tornarem-se embaixadores da reconciliação. Nestes tempos marcados por conflitos, a escuta e a paz são as palavras que ressoam na arena.
Depois de um encontro com menos participantes que o habitual em Rostock (Alemanha) no ano passado, este 46º Encontro Europeu de Taizé promete superar as expetativas e pelo menos mais do que trriplica o do ano passado, apesar de não ter sido ainda revelado o número de inscritos (até porque há sempre aqueles que só decidem ir à última hora). Na semana passada, ainda foi necessário assegurar dois mil novos espaços de alojamento para jovens peregrinos. Com um “milagre de Natal”, a organização conseguiu que todos os participantes pudessem ser recebidos em famílias de acolhimento. Ao todo, 50 paróquias estão a receber os participantes.
Do programa fazem parte momentos de oração e celebração comunitária, oficinas sobre fé e vida interior, alterações climáticas, envolvimento social, cultura e criação artística, grupos de reflexão, encontros por países e a habitual vigília pela paz na noite de fim de ano, seguida da “Festa das Nações” a abrir o ano de 2024.
As orações da noite poderão ser acompanhadas em direto através da página oficial da comunidade de Taizé, já esta quinta-feira, às 17h de Portugal continental, e na sexta, sábado e domingo, às 18h.
Líderes religiosos e políticos unidos ao encontro

Von der Leyen esteve em Taizé no verão de 2022, onde falou aos jovens. E agora escreveu-lhes uma mensagem. Imagem captada da transmissão do YouTube.
Reconhecendo a importância deste encontro, vários líderes religiosos dirigiram mensagens aos seus participantes nos últimos dias.
Foi o caso do Papa, para quem este encontro ecuménico é uma “oportunidade de redescobrir “a dimensão profunda da escuta”, à semelhança do que aconteceu na a JMJ Lisboa 2023. “A última Jornada Mundial da Juventude permitiu-vos viver, como Igreja e como comunidade, a bela experiência da amizade com Deus e com os outros. Sois hoje de Deus, sois hoje da Igreja! A Igreja precisa de vós para ser plenamente ela mesma. Como Igreja, sois o Corpo do Senhor Ressuscitado presente no mundo”, diz a mensagem de Francisco, enviada esta quinta-feira através do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin.
“Infelizmente, atualmente a violência está a ganhar cada vez mais terreno. Estamos a viver tempos difíceis, com conflitos e guerras espalhados por todo o mundo, porque já ninguém ouve. Exorto-vos a ousar construir um mundo diferente, um mundo de escuta, de diálogo e de abertura”, refere o texto dirigido a todos os participantes.
Francisco alerta para as formas de “marginalização, fechamento, exclusão e rejeição” de pessoas, convidando os jovens a “construir pontes entre povos, culturas e religiões, para um mundo estável e aberto”. “Através de palavras e ações, enviem uma mensagem forte a um mundo que rejeita os vulneráveis. Tornem os seus sonhos de amor, justiça e paz uma realidade, começando por cada um de vocês”, apela.
Já António Guterres, secretário-geral da ONU, faz questão de agradecer aos jovens “pelo seu compromisso em promover a paz, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos em todo o mundo”.
“Os valores de solidariedade e compaixão da Comunidade de Taizé são soluções para um mundo em turbulência. Tal como a sua mensagem nos inspira, devemos encontrar caminhos para percorrermos juntos as divisões em busca de soluções partilhadas, unidos pela nossa humanidade comum”, defende no seu texto. E assegura aos jovens: As Nações Unidas estão convosco e com todas as pessoas que se esforçam para criar um mundo mais justo e compassivo”.
Ursula von der Leyen, que esteve em Taizé no verão de 2022 e diz que o encontro europeu de Taizé é para si própria “um momento de pausa e reflexão”, aproveitou por seu lado para dar uma novidade aos participantes: “queremos criar um espaço pan-europeu de diálogo e reconciliação”, o qual “será organizado como uma série de diálogos com os cidadãos e será uma oportunidade para nos conhecermos e sairmos das nossas bolhas sociais. Uma oportunidade de combater o preconceito e substituí-lo pela compreensão”. E termina a sua mensagem com um apelo: “Conto com o vosso envolvimento e a vossa energia para ajudar a dar vida a esta nova iniciativa”.
(O texto inclui notas de reportagem de Laura Pisanello, em Liubliana)









