[Olhar de teóloga]

Outros o farão por nós

| 13 Fev 2022

Assembleia plenária da Conferência Episcopal Espanhola, Março de 2020. O cardeal Juan José Omella, presidente da Conferência Episcopal Espanhola: “O resto de nós vai ter de lidar com a vergonha de ter de calar perante os muitos comentários que se ouvem sobre a Igreja e contra os quais não há defesa possível.” Foto © ReligiónDigital

 

 

Pode ser que ainda haja espaço de manobra. Ou não. O que eu creio é que a pouca credibilidade que nos restava foi por água abaixo. E não é porque não fosse previsível; não é porque não tivéssemos tido tempo de pôr as barbas de molho, vendo os nossos países vizinhos a fazerem aquilo que deveria ter sido feito muito antes; não é porque a situação não apontasse na direcção que, finalmente, tomou o assunto; não é porque muitos de nós não o tivéssemos pedido desde há algum tempo com verdadeiro espírito eclesial.

Aqui nada apanhou ninguém de surpresa, nem sequer a recusa da Conferência Episcopal Espanhola em investigar como tal os casos de abusos sexuais. Embora houvesse sempre a esperança que o fizésseis, mas não. Isso não aconteceu.

Agora outros o farão por nós e fá-lo-ão primando pelos seus próprios interesses, e não tanto pelo interesse das vítimas. Esses outros também não merecem muita credibilidade; contudo, para algumas das vítimas serão a referência de terem tentado ou conseguido fazer algo, aconteça o que acontecer no final. E, obviamente, venceram a batalha dos media.

 

A casa de todos

O resto de nós vai ter de lidar com a vergonha de ter de calar perante os muitos comentários que se ouvem sobre a Igreja e contra os quais não há defesa possível. No entanto, caros bispos, podeis ficar descansados, muitos de nós católicos continuaremos a inventar mil maneiras de defender a Igreja em que acreditamos e que consideramos ser a casa de todos.

Porém, seria interessante que começásseis a pensar em desculpas – porque em razões será impossível – com as quais se possa tentar explicar o abandono, a indiferença, a falta de credibilidade e, em suma, a situação em que nos deixais a todos. Creio que nos aproximamos muito da imagem do Evangelho de sermos ovelhas sem pastor.

O que ninguém queria – e quero acreditar que vocês bispos também não – já nos caiu em cima. A crise dos abusos sexuais, que já por si é um abismo moral e criminoso, está em vias de se tornar na crise que acabará em grande medida por nos vir a atropelar com outras. Isso sim, a vida, com uma dessas partidas que algumas vezes prega, dá-vos a possibilidade de começar a pensar em como gerir as crises dos abusos de consciência, espirituais e laborais. Porque estas denúncias também irão chegar e mais vale irem-se preparando.

 

Desde a transparência

Intuo, espero e desejo que nem todos vocês tenham cerrado fileiras em torno da recusa de investigar como Conferência Episcopal. Espero que neste, como em muitos outros temas, agora que temos de aprender a alcançar consensos, sejais capazes de o fazer e, mais importante ainda, que mostreis abertamente como o fizeste. Seria muito bom ir praticando a transparência porque aquilo que vós decidis, diz respeito a todos nós. E todos somos Igreja.

Apesar do que possais pensar, não estais sozinhos. Muitos de nós estamos dispostos a dar uma mão, ou as duas se for necessário, para tirar a Igreja deste pântano em que vós, e a verdade é que lamento dizê-lo, a metestes. E fá-lo-emos, se nos pedirdes, porque a nossa consciência de pertença à Igreja é muito forte e está acima de certas atitudes que vemos e acima de nos vermos a nós próprios mais ou menos apreciados e respeitados.

Pode ser que ainda haja espaço de manobra. Ou não. Depende de vós. Quereis a nossa ajuda?

 

Cristina Inogés Sanz é teóloga e integra a comissão metodológica do Sínodo dos Bispos católicos. Este texto é publicado por cedência da autora e da revista espanhola Vida Nueva ao 7MARGENS. Tradução de Júlio Martin.

 

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