Ouvir a voz da solidão

| 23 Jun 20

Nas margens da filosofia (XXI)

Há dois anos, as minhas netas mais velhas iniciaram-se no estudo da filosofia, uma disciplina obrigatória no 10º e 11º anos de escolaridade. E uma delas ofereceu-me pelo Natal uma fotografia com a seguinte legenda: “A filosofia ensina-nos a ouvir a voz da solidão.” Achei curioso que uma miúda de dezasseis anos tivesse a intuição de que a solidão também tem voz e que o isolamento pode constituir uma experiência benéfica de autoconhecimento, algo que nos faz crescer e encarar o mundo de uma outra maneira. Há solidões escolhidas, modos de vida pelos quais se opta deliberadamente e que, como tal, podem levar a uma vida feliz, realizada à margem da convivência social. Lembremos o caso dos eremitas, um fenómeno que podemos observar em várias religiões ao longo dos tempos.

Mas o homem é por natureza um ser gregário e desde a Antiguidade que os filósofos analisaram os efeitos de uma solidão compulsiva, escrevendo sobre a dificuldade de estarmos sós, defrontando-nos connosco mesmos. Assim, o estóico Séneca distinguiu a solidão que se escolhe, da solidão que nos é imposta e que, como tal, nos perturba e atemoriza, à maneira da fome ou das doenças. Por isso escreveu: “(…) tirai à alma os divertimentos que em si mesmos ocupam os que andam a correr de um lado para o outro e  ela não consegue suportar estar em casa e na  solidão das suas quatro paredes; é contrariada que se vê abandonada a si própria.”[1]

Diferente é a posição de Descartes quando, no século XVII, nos fala das condições que possibilitaram a escrita de uma das suas obras mais conhecidas – o Discurso do Método:    “(…) a entrada do Inverno deteve-me num acampamento onde, não encontrando nenhuma conversação que me entretivesse e não tendo, felizmente, quaisquer preocupações ou paixões que me distraíssem, ficava todo o dia sozinho, fechado num quarto aquecido, com todo o vagar para me concentrar nos meus pensamentos.”[2] O caminho percorrido pelo filósofo desenrolou-se em várias etapas que se iniciaram com a avaliação crítica das ciências do seu tempo, passando depois pelas regras do método, pelas máximas de uma moral provisória, pelas provas da existência de Deus e da alma, pelos problemas inerentes à  física e à  medicina. E ao longo desta sua longa meditação sobre o modo como lhe foi possível estudar o mundo e encontrar a verdade, a solidão não lhe pesou. Pelo contrário, ela foi uma condição essencial para levar a cabo a tarefa que se propôs, sem que sentisse falta de interlocutores reais.

Na mesma época, o tema da solidão foi abordado por Pascal que sobre ele escreveu o célebre fragmento conhecido como divertissement. Aqui a perspectiva é outra, visto que o filósofo se debruça sobre a angústia que em nós provoca o isolamento. O facto de estarmos sós, circunscritos às dimensões do nosso quarto, é uma situação que nos leva a reconhecer a contingência da existência humana e a consciencializarmo-nos dos problemas decorrentes da privação  de distracções e de companhia: “Quando me pus a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e trabalhos a que se expõem (…) disse muitas vezes que toda a infelicidade humana vem de uma única coisa que é a de não sabermos estar descansados num quarto.”[3] Sentimo-nos infelizes quando somos impedidos de conviver, quando ficamos privados das distracções que nos abrem para o mundo exterior, quando nos obrigam ao isolamento, longe uns dos outros. A nossa “falsa natureza” tenta preencher o vazio recorrendo a entretenimentos vários que nos distraiam. Mas trata-se de uma ilusão pois todo esse movimento impede-nos de aceder ao nosso eu mais profundo, ao qual nem o divertimento nem a convivência social satisfazem, pois são factores aleatórios que apenas de um modo provisório nos conseguem libertar da angustiada condição que é a nossa. Para Pascal só nos realizamos verdadeiramente quando repousamos no coração de Deus, esquecendo o que é supérfluo e exterior.

Independentemente da crítica pascaliana quanto à incapacidade humana de se bastar a si mesma num espaço fechado, temos de reconhecer que há uma solidão que isola e entristece. Verificamo-lo nesta época de confinamento, nomeadamente entre aqueles que o vivem por imposição. Estão neste caso os velhos, os doentes e as muitas pessoas que subitamente se viram privadas de partilhar   afectos e de trocar gestos de carinho como tocar e abraçar. Uma solidão não escolhida, resultante de circunstâncias que nos ultrapassam, provoca sentimentos de tristeza, de depressão e de abandono, tão devastadores como a fome ou a sede.

É aqui que os filósofos nos podem ajudar pois quando escrevem não o fazem no meio do burburinho e da agitação. Os grandes sistemas dos quais somos herdeiros exigiram solidão e recuo do mundo. Certamente que discutiram e dialogaram e que a troca de opiniões muitas vezes ajudou à consolidação das suas teses. Muito do que pensaram foi exposto sob a forma de debate, de controvérsia e de diálogo onde uns e outros confrontaram ideias, justificaram pontos de vista e tentaram calar os adversários. Mas é inegável que o essencial das suas obras teve como contexto inspirador o que reflectiram a sós e passaram a escrito, ouvindo a voz da solidão. Tentemos seguir o seu exemplo aproveitando o isolamento que nos foi imposto e tirando dele o melhor partido.

[1] Sénèque, De la tranquillité de l’âme in  Les Stoïciens, Paris, Bibliothèque de la Pléiade, 1962,  p. 665.
[2] Descartes, Discours de La  Méthode, 2, Paris, Garnier, 1960, p. 42.
[3] Pascal, Pensées, 136 (139), Paris , Seuil, 1962, p. 77.

 

Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa

 

Artigos relacionados

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa

Precisamos de nos ouvir (21) – Luísa Ribeiro Ferreira: Um confinamento na companhia de Espinosa novidade

Recebi do 7MARGENS um convite para escrever sobre a minha experiência desta pandemia, partilhando a fragilidade da condição que actualmente vivemos. Respondo recorrendo a Espinosa, o filósofo com quem mais tenho dialogado e que durante o presente confinamento revisitei várias vezes, quer por obrigação (atendendo a compromissos) quer por devoção (a leitura das suas obras é sempre gratificante).

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Peditório digital da Cáritas entre 28 de fevereiro e 7 de março

O peditório nacional da rede Caritas vai pela segunda vez decorrer em formato digital, podendo os donativos ser realizados, durante a próxima semana, de 28 de fevereiro a 7 de março, diretamente no sítio da Cáritas Nacional ou por transferência bancária.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

França: a Marianne de barrete frígio ficou traumatizada novidade

Os políticos europeus em geral não sabem nada do fenómeno religioso. Pior. Fingem que sabem e não se rodeiam de quem os possa esclarecer. Entretanto, a França parece querer trilhar um caminho perigoso. Quando o governo coloca as leis republicanas ao mesmo nível da lei de Deus, faz da república uma deusa e do secularismo uma religião.

Banco da solidariedade, experiência única

Sobre uma oportunidade de resistência coletiva     Muito se tem escrito e tenho escrito sobre a falta de saúde mental a que, provavelmente, estamos e estaremos sujeitos durante e após esta pandemia. Os números crescem, traduzidos por sofrimentos enquadráveis...

Que futuro, Iémen?

O arrastar do conflito tornou insuficiente a negociação apenas entre Hadi e houthis, já que somados não controlam a totalidade do território e é difícil encontrar uma solução que satisfaça todos os atores. Isso será ainda mais difícil porque as alianças não são sólidas, os objetivos são contraditórios e enquanto uns prefeririam terminar a guerra depressa, outros sairiam beneficiados se o conflito continuasse. Além disso, muitos são os que enriquecem à custa dele. Para esses, o melhor é que este não termine.

Cultura e artes

Canções para estes tempos de inquietação 

No ano em que Nick Cave se sentou sozinho ao piano, para nos trazer 22 orações muito pessoais, desde o londrino Alexandra Palace para todo o mundo, numa transmissão em streaming, o australiano dedicou-se também à escrita de 12 litanias a convite do compositor neoclássico belga Nicholas Lens.

Franz Jalics, in memoriam: a herança mais fecunda

Correr-se-ia o risco de passar despercebido o facto de ser perder um dos mais interessantes e significativos mestres da arte da meditação cristã do século XX, de que é sinal, por exemplo, o seu reconhecimento como mestre espiritual (a par de Charles de Foucauld) pela conhecida associação espanhola Amigos del Desierto, fundada por Pablo d’Ors.

A luta de Abel com o Caim dentro dele

Como escrever sobre um filme que nos parece importante, mas nem sequer foi daqueles que mais nos entusiasmou? E, no entanto, parece “obrigatório” escrever sobre ele, o último filme de Abel Ferrara, com o seu alter-ego e crístico Willem Dafoe: Sibéria.

Sete Partidas

Vacinas: Criticar sem generalizar

Alguns colegas de coro começaram a falar dos espertinhos – como o político que se ofereceu (juntamente com os seus próximos) para tomar as vacinas que se iam estragar, argumentando que assim davam um bom exemplo aos renitentes. Cada pessoa tinha um caso para contar. E eu ouvia, divertida.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco

Pin It on Pinterest

Share This