Ouvir a voz da solidão
Nas margens da filosofia (XXI)
Há dois anos, as minhas netas mais velhas iniciaram-se no estudo da filosofia, uma disciplina obrigatória no 10º e 11º anos de escolaridade. E uma delas ofereceu-me pelo Natal uma fotografia com a seguinte legenda: “A filosofia ensina-nos a ouvir a voz da solidão.” Achei curioso que uma miúda de dezasseis anos tivesse a intuição de que a solidão também tem voz e que o isolamento pode constituir uma experiência benéfica de autoconhecimento, algo que nos faz crescer e encarar o mundo de uma outra maneira. Há solidões escolhidas, modos de vida pelos quais se opta deliberadamente e que, como tal, podem levar a uma vida feliz, realizada à margem da convivência social. Lembremos o caso dos eremitas, um fenómeno que podemos observar em várias religiões ao longo dos tempos.
Mas o homem é por natureza um ser gregário e desde a Antiguidade que os filósofos analisaram os efeitos de uma solidão compulsiva, escrevendo sobre a dificuldade de estarmos sós, defrontando-nos connosco mesmos. Assim, o estóico Séneca distinguiu a solidão que se escolhe, da solidão que nos é imposta e que, como tal, nos perturba e atemoriza, à maneira da fome ou das doenças. Por isso escreveu: “(…) tirai à alma os divertimentos que em si mesmos ocupam os que andam a correr de um lado para o outro e ela não consegue suportar estar em casa e na solidão das suas quatro paredes; é contrariada que se vê abandonada a si própria.”[1]
Diferente é a posição de Descartes quando, no século XVII, nos fala das condições que possibilitaram a escrita de uma das suas obras mais conhecidas – o Discurso do Método: “(…) a entrada do Inverno deteve-me num acampamento onde, não encontrando nenhuma conversação que me entretivesse e não tendo, felizmente, quaisquer preocupações ou paixões que me distraíssem, ficava todo o dia sozinho, fechado num quarto aquecido, com todo o vagar para me concentrar nos meus pensamentos.”[2] O caminho percorrido pelo filósofo desenrolou-se em várias etapas que se iniciaram com a avaliação crítica das ciências do seu tempo, passando depois pelas regras do método, pelas máximas de uma moral provisória, pelas provas da existência de Deus e da alma, pelos problemas inerentes à física e à medicina. E ao longo desta sua longa meditação sobre o modo como lhe foi possível estudar o mundo e encontrar a verdade, a solidão não lhe pesou. Pelo contrário, ela foi uma condição essencial para levar a cabo a tarefa que se propôs, sem que sentisse falta de interlocutores reais.
Na mesma época, o tema da solidão foi abordado por Pascal que sobre ele escreveu o célebre fragmento conhecido como divertissement. Aqui a perspectiva é outra, visto que o filósofo se debruça sobre a angústia que em nós provoca o isolamento. O facto de estarmos sós, circunscritos às dimensões do nosso quarto, é uma situação que nos leva a reconhecer a contingência da existência humana e a consciencializarmo-nos dos problemas decorrentes da privação de distracções e de companhia: “Quando me pus a considerar as diversas agitações dos homens e os perigos e trabalhos a que se expõem (…) disse muitas vezes que toda a infelicidade humana vem de uma única coisa que é a de não sabermos estar descansados num quarto.”[3] Sentimo-nos infelizes quando somos impedidos de conviver, quando ficamos privados das distracções que nos abrem para o mundo exterior, quando nos obrigam ao isolamento, longe uns dos outros. A nossa “falsa natureza” tenta preencher o vazio recorrendo a entretenimentos vários que nos distraiam. Mas trata-se de uma ilusão pois todo esse movimento impede-nos de aceder ao nosso eu mais profundo, ao qual nem o divertimento nem a convivência social satisfazem, pois são factores aleatórios que apenas de um modo provisório nos conseguem libertar da angustiada condição que é a nossa. Para Pascal só nos realizamos verdadeiramente quando repousamos no coração de Deus, esquecendo o que é supérfluo e exterior.
Independentemente da crítica pascaliana quanto à incapacidade humana de se bastar a si mesma num espaço fechado, temos de reconhecer que há uma solidão que isola e entristece. Verificamo-lo nesta época de confinamento, nomeadamente entre aqueles que o vivem por imposição. Estão neste caso os velhos, os doentes e as muitas pessoas que subitamente se viram privadas de partilhar afectos e de trocar gestos de carinho como tocar e abraçar. Uma solidão não escolhida, resultante de circunstâncias que nos ultrapassam, provoca sentimentos de tristeza, de depressão e de abandono, tão devastadores como a fome ou a sede.
É aqui que os filósofos nos podem ajudar pois quando escrevem não o fazem no meio do burburinho e da agitação. Os grandes sistemas dos quais somos herdeiros exigiram solidão e recuo do mundo. Certamente que discutiram e dialogaram e que a troca de opiniões muitas vezes ajudou à consolidação das suas teses. Muito do que pensaram foi exposto sob a forma de debate, de controvérsia e de diálogo onde uns e outros confrontaram ideias, justificaram pontos de vista e tentaram calar os adversários. Mas é inegável que o essencial das suas obras teve como contexto inspirador o que reflectiram a sós e passaram a escrito, ouvindo a voz da solidão. Tentemos seguir o seu exemplo aproveitando o isolamento que nos foi imposto e tirando dele o melhor partido.
[1] Sénèque, De la tranquillité de l’âme in Les Stoïciens, Paris, Bibliothèque de la Pléiade, 1962, p. 665.
[2] Descartes, Discours de La Méthode, 2, Paris, Garnier, 1960, p. 42.
[3] Pascal, Pensées, 136 (139), Paris , Seuil, 1962, p. 77.
Maria Luísa Ribeiro Ferreira é professora Catedrática de Filosofia da Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa
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