Conclusões da assembleia de Praga

Ouvir o grito dos pobres, do planeta e das vítimas da guerra, os desafios da Igreja sinodal

| 9 Fev 2023

assembleia continental do sinodo em praga, 08.02.2023, foto synod.va

Assembleia continental europeia do Sínodo católico em Praga (República Checa): os participantes querem que a experiência se torne identitária na Igreja. Foto © Sínodo 2024.

 

A continuação do processo sinodal da Igreja Católica para lá de 2024 é a grande afirmação de esperança na renovação que consta de um documento conclusivo aprovado esta quinta-feira, 9 de fevereiro, pela assembleia europeia que reuniu em Praga leigos, religiosos, padres e bispos, num encontro sem precedentes na história eclesiástica. Num segundo momento, os bispos presentes irão agora dedicar dois dias a refletir e fazer o seu próprio discernimento sobre as conclusões.

Esta é apenas uma de sete assembleias que, ao nível continental, se estão a desenrolar até março próximo, depois de uma primeira fase de auscultação sobre a vida e ação da Igreja, nas dioceses do mundo inteiro, em 2022. Da síntese europeia e das restantes, sairá um Instrumentum laboris (Documento de trabalho) que servirá de base às duas sessões do Sínodo dos Bispos que decorrerão durante os meses de outubro próximo e no de 2024, no Vaticano.

 

“Continuar a caminhar em estilo sinodal”

A parte do documento final agora tornada pública é apenas um sumário final (o ponto 3) de um documento substancialmente mais extenso e pormenorizado, que foi integralmente lido na sessão final, em inglês. Esse documento, redigido por um grupo de seis pessoas de países diferentes, será agora corrigido e burilado, antes de ser enviado para o secretariado-geral do Sínodo, em Roma.

O texto exprime satisfação pela experiência de partilha e de escuta, vivida nos quatro dias de trabalho, que permitiram conhecer melhor a diversidade das igrejas locais no continente europeu, incluindo as 33 igrejas de tradição oriental ligadas a Roma. Alude, depois, a tensões e questões que elas estão a enfrentar, destacando “a dor das feridas que marcam a nossa história recente, a começar pelas que a Igreja infligiu através dos abusos perpetrados por pessoas que exerciam um ministério ou ofício eclesial”. Mencionam também “a violência implacável da guerra de agressão que tem vindo a desfigurar a Ucrânia”, assim como “as vítimas do terramoto que devastou a Turquia e a Síria”.

A experiência sinodal até agora vivida leva os participantes a afirmar o desejo de “continuar a caminhar em estilo sinodal: mais do que uma metodologia, consideramos um estilo de vida da nossa Igreja, de discernimento comunitário e de discernimento dos sinais dos tempos”, sublinham.

Por isso, querem que esta assembleia continental “não permaneça uma experiência isolada, mas que se torne um encontro periódico, baseado na adoção geral do método sinodal que permeia todas as nossas estruturas e procedimentos em todos os níveis”, para continuar, nomeadamente, a aprofundar e amadurecer pontos como o acompanhamento de vítimas da Igreja, o ‘protagonismo’ dos jovens e das mulheres, a aprendizagem com as pessoas marginalizadas, etc.

 

Prioridade à prática, teologia e hermenêutica da sinodalidade

Sínodo 2024, Praga, Europa

O documento final propõe que se tomem decisões corajosas sobre o maior envolvimento das mulheres na Igreja, incluindo nos processos de tomada de decisões;. Foto © Sínodo 2024

 

As prioridades de ação a médio e longo prazo enunciadas pelos participantes, delegados das conferências episcopais e convidados, apontam em várias direções:

  • “aprofundar a prática, teologia e hermenêutica da sinodalidade, redescobrindo “algo que é antigo, pertence à natureza da Igreja e é sempre novo”.
  • abordar a questão de uma Igreja toda ela ministerial, como horizonte de reflexão sobre carismas e ministérios (ordenados e não ordenados) e as relações entre eles;
  • explorar as formas de exercício sinodal da autoridade, ou seja, o serviço de acompanhamento da comunidade e de salvaguarda da unidade;
  • esclarecer os critérios de discernimento sobre o processo sinodal e quais as decisões que pertencem a que nível, do local ao universal;
  • tomar decisões concretas e corajosas sobre o lugar da mulheres na Igreja e sobre o seu maior envolvimento a todos os níveis, incluindo os processos de preparação e tomada de decisões;
  • considerar as tensões em torno da liturgia, para re-entender sinodalmente a Eucaristia como fonte de comunhão;
  • favorecer a formação para a sinodalidade de todo o Povo de Deus, com particular atenção ao discernimento dos sinais dos tempos para o cumprimento da missão comum;
  • renovar um vivo sentido de missão, fazendo a ponte entre fé e cultura para ligar o Evangelho à sensibilidade das pessoas, encontrando uma linguagem capaz de articular tradição e aggiornamento, mas acima de tudo, caminhar com as pessoas em vez de falar delas ou para elas”.

Como se repara, o teor das prioridades é sobretudo virado para o interior da Igreja, aspeto que foi objeto de alerta, quando o documento foi colocado em debate na sessão plenária, até porque, ao longo dos quatro dias de trabalho, várias foram as intervenções a colocar ênfase numa Igreja “em saída”. É sobretudo no último ponto, sobre o “sentido de missão”, que se enuncia a perspetiva da relação com a vida das pessoas e das sociedades, os seus sofrimentos e esperanças, quando acrescenta que “o Espírito pede-nos para ouvir o grito dos pobres e da terra na Europa, e em particular o grito desesperado das vítimas da guerra que exigem uma paz justa”.

 

Bispo Ornelas: “Oportunidade extraordinária”

Bispo José Ornelas: é importante a Igreja refletir sobre “as dificuldades da guerra, das desigualdades, das migrações, da integração e de compreensão” no seu interior. Foto © 7Margens

 

O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e bispo de Leiria-Fátima, José Ornelas, que chefiou a delegação portuguesa a Praga, interveio nesta quinta-feira no plenário em que se comentava o documento conclusivo. Na ocasião, sugeriu que as conclusões não afunilassem já para soluções, nesta fase, ao contrário do que defendia uma intervenção anterior.

Segundo o bispo português, dever-se-ia enunciar e distinguir os pontos que contam já com uma significativa convergência de sensibilidades, daqueles que exprimem questões que estão ainda em aberto e que, por isso, carecem de aprofundamento.

Entretanto, Ornelas difundiu um comunicado, enviado também ao 7MARGENS, em que considera a assembleia uma “oportunidade extraordinária” para “escutar a Igreja da Europa nas suas dificuldades, nas tensões que existem, mas na vontade de ultrapassá-las e de viver em comum o ser Igreja”.

O bispo, que tem ainda dois dias de trabalho na segunda parte da assembleia reservada aos responsáveis das diferentes conferências episcopais, disse que “uma das palavras que mais se ouviu foi ‘unidade na diversidade’, a convergência na diversidade daquilo que somos, não querendo ser uniformes, mas ser verdadeiramente irmãos e irmãs na mesma Igreja”.

Destacando que os dias de escuta e discernimento, em Praga, foram de uma “discussão muito clara e transparente”, aludiu à importância de a Igreja refletir sobre “as dificuldades da guerra, das desigualdades, das migrações, da integração e de compreensão dentro da Igreja”.

“Estamos a caminho de um Sínodo da Igreja toda e queremos, como Europa, dar o sentido daquilo que somos, nas dificuldades mas na esperança do caminho que percorremos juntos”, acrescentou.

 

(As gravações em vídeo de todas as sessões plenárias, bem como outra documentação estarão disponíveis na página da Assembleia Continental de Praga.)

 

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