Entrámos no Advento e as cidades começam a vestir-se com as cores do Natal. Nas ruas acendem-se as luzes cintilantes, as montras parecem competir em brilho e exagero. Em casa preparam-se as árvores carregadas de enfeites e os presépios regressam, ora tradicionais, ora reinventados. É o tempo da espera, da antecipação, da promessa de um nascimento que se repete todos os anos e que, ainda assim, insiste em ser novo.
Entre caixas de bolas coloridas e figuras de barro cuidadosamente guardadas, há quem se dedique a montar cenários perfeitos, alinhando pastores, reis magos e animais como se fossem peças de um puzzle imutável. E no meio de toda esta coreografia de consumo e tradição, uma pergunta: e se fosse o Menino a preparar o presépio?
Se fosse o Menino, não haveria coroas nem protocolos. O presépio não estaria numa vitrina, seria um lugar vivo, feito de figuras desconhecidas que não aparecem nas fotografias. Chamaria os que vivem na rua, que conhecem o frio das madrugadas, as mães que carregam filhos sem garantias, os migrantes que atravessam mares com a esperança como única bagagem.
No lugar dos magos, viriam os que sabem partilhar sem esperar nada em troca: o vizinho que empresta tempo, a enfermeira que oferece cuidado, o professor que insiste em ensinar. Os presentes seriam modestos, mas essenciais: pão, ternura, livros usados, mãos calejadas.
Os pastores seriam os trabalhadores invisíveis: os que limpam as ruas antes do sol nascer, os que cuidam dos idosos esquecidos nos lares, os que recolhem lixo e carregam sacos pesados como quem carrega o peso da cidade. Seriam eles os primeiros convidados, porque conhecem o valor da vida sem adornos.
Os animais não seriam de porcelana, seriam os cães abandonados que ainda esperam afeto, seriam os pássaros que ainda resistem ao cimento, os pequenos sinais de vida que sobrevivem à indiferença, lembrando que um nascimento é sempre coletivo.
Maria seria todas as mulheres que resistem; José todos os que constroem casas frágeis com tijolos de fé. E o Menino, ao centro, escolheria estar rodeado de fragilidade e dignidade, não de poder nem de espetáculo.
No presépio que o Menino prepararia não haveria espaço para governantes irresponsáveis, políticos oportunistas e mentirosos, ou empresários em visitas guiadas às suas empresas altamente lucrativas. Seria um lugar sem marketing, sem coroas, sem luxo, apenas silêncio, resistência e ternura.
Esse presépio seria incómodo porque não ficaria bem nas praças centrais dos centros comerciais, nem em postais para turista comprar. Seria feito de rostos cansados e olhares que pedem justiça. Um lugar onde a vida insiste em nascer, mesmo quando o mundo prefere olhar para o outro lado.
E talvez seja esse o maior escândalo: perceber que, se fosse o Menino a preparar o presépio, ele seria um espelho da urgência, um aviso de que todos os dias há um lugar onde a vida começa de novo, e somos nós a decidir se queremos estar nesse lugar ou apenas assistir de longe.

Menino Jesus embrulhado num pano palestiniano, como forma de evocar a Palestina bombardeada pelo exército israelita. Foto © António Marujo/7MARGENS
Júlia Costa é cristã na essência, católica por tradição. Ligada à paróquia da Amadora, na Pastoral Juvenil e na Promoção da Comunidade. Mãe de uma filha, avó de três netos. Profissionalmente na área da contabilidade, embrenhada em números, mas desde sempre fascinada pela palavra.










