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Pablo d'Ors, O Amigo do Deserto, Amigos del Desierto

Fundador dos Amigos do Deserto ao 7MARGENS

Pablo d’Ors: “Temos de trabalhar muito menos e dedicar muito mais tempo não ao urgente, mas ao essencial, ao que é diferente.”

| 19/02/2025

As pessoas assustam-se quando se fala de meditação ou de silêncio, e “estamos tão fora de nós que parece algo heroico dedicar um pouco de tempo por dia para estarmos dentro de nós”. Mas a busca do silêncio e do interior de cada pessoa são cada vez mais essenciais para encontrarmos a unidade pessoal. “A nossa grande aspiração, o nosso grande desejo é a unidade. Quando estamos unidos connosco próprios, estamos bem. Se estamos separados, fragmentados, não estamos bem”, diz Pablo d’Ors, padre católico, escritor e fundador dos Amigos do Deserto, uma associação que pretende fomentar aquela busca.

No próximo fim-de-semana, decorre em Torres Novas um retiro promovido pelo grupo e que terá como dinamizadores três responsáveis da associação: Manuel Bellido (presidente), Isabel Vilar e Maribel Corral. Com esse pretexto, publicamos a seguir esta entrevista, ainda inédita, feita a propósito do seu livro O Amigo do Silêncio.

Admitindo que a Igreja perdeu a cultura e que Deus não está presente em muitas obras de arte, Pablo d’Ors nota outro problema no diálogo do catolicismo com a sociedade: “Nós, ocidentais, sublinhamos o sujeito e o que a Igreja sublinha é a comunidade, o povo, o nós.” E não tem dúvidas: “Temos de trabalhar muito menos e dedicar muito mais tempo não ao urgente, mas ao essencial, ao que é diferente.”

Pablo d’Ors, nascido em Madrid em 1963, foi também professor de dramaturgia e de estética teológica na Universidade Complutense e noutros institutos de estudos superiores de Espanha e da Argentina. Vários dos seus livros (ensaio e ficção) estão publicados em Portugal pela Quetzal e Paulinas Editora.

 

7MARGENS – Há algo de autobiográfico neste livro?

PABLO D’ORS – É autoficcional. O romance, que é uma epopeia do indivíduo, é uma exploração no território da identidade a partir de egos imaginários. O romance nasce com a modernidade, com a consciência do sujeito e, portanto, todo o romance apresenta, de alguma forma, um indivíduo.

O autor procura-se necessariamente a si mesmo, procura uma reflexão e descobrir quem ele é. No romance há sempre a questão de saber quem sou eu – isso é muito claro. O romance aspira – todos os romances e este também – não apenas a ser biográfico, a apontar para o sujeito, mas também a toda a gente, aspira a ser universal.

 

7M – Quando falamos de deserto, podemos fazê-lo em dois sentidos distintos: o deserto como fonte de morte (desertificação de terras, de países, da Amazónia…); ou como sinónimo de vida, quando um livro como este nos leva a procurar a fonte, o que somos. No livro, o protagonista vai para o deserto, para descobrir o quê?

O que descobre, embora não seja dito tão claramente, é que essa paisagem o fascina porque ele é deserto, porque nós somos deserto. Nós somos espaço. E descobrimos isso na medida em que o espaço é mais vazio.

O deserto é isso, é um espaço vazio. O que este livro está a dizer é que o nosso problema é que estamos demasiado cheios – de informação, de objectos, de contactos, de possibilidades – e que, na medida em que nos despimos, na medida em que nos esvaziamos, que vamos para o deserto, que fazemos um deserto interior, nessa medida descobrimos quem somos.

Capa livro O Amigo do deserto, Pablo d'Ors 7M – E porquê localizá-lo na República Checa?

Há uma razão mais pessoal, porque um escritor deve colocar-se na esteira de escritores. Deve declarar, aberta ou discretamente, quem são os seus mestres. E eu coloquei-me, desde o início da minha obra narrativa, na esteira da Europa Central. Boa parte dos meus romances passa-se na Alemanha, na Chéquia, na Áustria, talvez porque estudei numa escola alemã em criança. Esta paisagem, a literatura germânica, Robert Musil, [Herman] Hesse, Stefan Zweig são os autores que mais me influenciaram. Essa seria a razão biográfica.

Uma razão mais de fundo é que há uma emigração do Norte para o Sul, da República Checa para o Sara. Como se procurássemos a luz, a iluminação, a fonte, e para isso temos de descer.

O deserto é a paisagem do monoteísmo. Dizer monoteísmo, hoje, talvez não seja uma palavra particularmente agradável ao ouvido ocidental, mas é o mesmo que dizer unidade. Procuramos a unidade, a comunhão.

 

7M – Porque estamos muito fragmentados?

A Europa é sobretudo a consciência do indivíduo, do sujeito. A modernidade é isso, a Europa é isso, o Ocidente é isso. Ao sublinharmos tanto o indivíduo, o que fundamentalmente sublinhamos é a diferença: cada pessoa é distinta, cada um é diferente.

O grande problema filosófico, que se traduz nas artes, na política, é o problema da unidade e da diferença. Perante ele, nós, cristãos, temos uma resposta, que é a trindade. É a unidade na diferença: um e três. A nossa grande aspiração, o nosso grande desejo é a unidade. Quando estamos unidos connosco próprios, estamos bem. Se estamos separados, fragmentados, não estamos bem.

 

7M – Esse é um problema grave para a Igreja?

É o problema pastoral mais importante que a Igreja Católica tem actualmente e é por isso que há tantas deserções e abandonos. Nós, ocidentais, sublinhamos o sujeito e o que a Igreja sublinha é a comunidade, o povo, o nós. Como é que alguém se torna cristão? Tornamo-nos cristãos ao sermos baptizados. E o que nos dá o batismo? Dá-nos a incorporação num corpo. Uma boa parte da nossa reação contra a Igreja, hoje no Ocidente, é que não queremos saber nada do coletivo, do corporativo, mas sim do que é realçado na consciência individual. Este é o problema fundamental.

Por isso este livro é um romance de iniciação de uma pessoa que começa a procurar, começa com uma aldeia, com uma associação de amigos do deserto. É isso que nos abre à procura, mas é a partir de uma aldeia. Este é o primeiro desafio. Depois há muitos outros, mas este é o primeiro.

Pablo d'Ors, livro O Amigo do Deserto

Pablo d’Ors a assinar o seu livro O Amigo do Deserto. Foto: Direitos reservados. 

7M – No final, ficamos com a sensação de que só podemos descobrir o deserto se tivermos tempo e dinheiro para ir ao deserto… Como fazê-lo?

Na realidade, o dinheiro é o que não é necessário, porque o deserto, neste livro, é uma metáfora da interioridade. Obviamente, este homem vai mesmo para o Sara, mas o que o livro propõe não é ir para o Sara. O que ele propõe é fazer o deserto dentro de nós próprios e isso não custa dinheiro.

 

7M – Mas é preciso tempo…

Descobrir que somos espaço exige que se invista tempo. Tal como somos espaço, somos tempo, somos temporalidade. Temos tendência a dizer que não temos tempo, mas o que temos é tempo. O problema é como o investimos. O tempo é o que temos. Um dia amanhece e temos 24 horas para ver o que podemos fazer.

Estamos tão fora de nós que parece algo heroico dedicar um pouco de tempo por dia para estarmos dentro de nós. Quando se fala de meditação ou de silêncio, as pessoas assustam-se, mas a minha proposta é muito modesta: eu digo simplesmente para reservar 20 ou 25 minutos por dia para estar dentro de si. O resto do tempo pode estar lá fora, se quiser, mas guarde esse tempo para estar dentro. Na medida em que o fizermos com frequência, as atitudes geradas nessa jornada interior transbordarão para a vida quotidiana. Quando estamos a meditar, o que é que fazemos? Escutar, estar atento e receber.

 

7M – É importante essa aprendizagem?

Se nos educarmos a ouvir, a estar atentos e a receber, na vida quotidiana também começaremos pouco a pouco a estar mais atentos, a ouvir e a receber. Porque essa é a questão, e é a questão eclesial fundamental: o facto de termos feito uma sociedade ocidental e uma Igreja a partir do pensamento e da acção. Na Igreja, diz-se a partir da teologia e da pastoral, mas não a partir da contemplação. É muito bom e necessário pensar e agir, mas há algo anterior, que é olhar, escutar. Antes de elaborar com a mente, é preciso olhar.

O que proponho em O Amigo do Deserto e nos meus livros é que aprendamos a escutar, aprendamos a olhar. O mundo não é, em primeiro lugar, para ser transformado. Em primeiro lugar, o mundo está lá para ser recebido, para ser recebido. E veremos mais tarde se e em que medida é preciso mudar algo ou não. Mas porque temos essa ânsia intervencionista, não deixamos que a realidade se expresse. O que essa ânsia está a revelar é que não temos confiança na realidade. Pensamos que a realidade nos é adversa.

Moinho de areia. Tempo.

Günther Uecker, Sandmühle (Moinho de areia), 1970, Städel Museum, Frankfurt am Main, Alemanha: “O tempo sequestrou-nos: pensamos que não temos tempo e foi-nos dada uma falsa imagem do espaço.” Foto © António Marujo/ 7MARGENS.

7M – Há poucos anos ouvi um sociólogo que dizia que hoje temos dois tipos de pessoas: as que têm espaço (isto é, dinheiro, possibilidades), mas não têm tempo; e as que têm tempo (os reformados, os velhos) mas não têm espaço, porque não se podem deslocar, estão sozinhas. É isso que está a dizer?

Sim, o tempo sequestrou-nos: pensamos que não temos tempo e foi-nos dada uma falsa imagem do espaço, como se o espaço fosse apenas o exterior, quando por dentro temos um espaço interior completamente desconhecido.

O símbolo da cruz é um símbolo muito expressivo, muito eloquente: aponta para o infinito, mas também para o profundo e para o alto. Temos este desejo do infinito, mas esquecemo-nos do desejo do profundo e do alto. Diria que há três movimentos espirituais por excelência: ir para dentro, subir acima e sair para fora.

Mas para que o “para cima” e o “para fora” sejam correctos, primeiro é preciso estar dentro, entrar no profundo; a partir daí há lugar para um “para cima” que não seja ideológico, que seja genuíno, e a partir do alto há lugar para um “para fora” que não seja mero activismo ou mero frenesi.

 

7M – Este problema deveria colocar a questão de repensar toda a organização social? Por exemplo, o horário de trabalho, o tempo que temos para a família, para os amigos, para a cultura, para o ócio, para poder estar tranquilos, sem fazer nada?

Claro que sim. O problema é a mentalidade capitalista.

 

7M – Ouvimos todos os dias dizer que temos de trabalhar mais para…

Temos de trabalhar muito menos e dedicar muito mais tempo não ao urgente, mas ao essencial, ao que é diferente. E o essencial é dar um passeio na natureza, brincar com as crianças, ouvir os idosos, cuidar do corpo, dedicar tempo a Deus. Isto é o essencial e com isto não gastamos tempo.

O problema é o capitalismo, no sentido em que a lógica capitalista é o máximo de produção e o mínimo de esforço. Isso faz-nos acreditar que a vida é para ser aproveitada. E depois, quando acreditamos que a vida é para ser desfrutada, colocamos uma pressão na realidade que nos faz não desfrutar das coisas. Não se trata de aproveitar a vida, mas de a viver, o que é diferente. Esta mentalidade de aproveitar a vida, que é a mentalidade capitalista, é o que nos faz perder, porque nos coloca sob pressão. Tudo o que é essencial, tudo o que é espiritual, para que tenha lugar, tem de ser gratuito, sem pressão para o aproveitar.

Padres de Bombaim numa cerimónia do Jubileu, em janeiro de 2025. Foto © Archdiocese of Bombay.

Padres de Bombaim numa cerimónia em janeiro de 2025: “Nós, padres, temos uma agenda, uma actividade em geral desenfreada.” Foto © Archdiocese of Bombay.

7M – É um processo de grande transformação…

Dou sempre um exemplo nos meus retiros: imaginem que chegam a casa à noite, depois de um dia de trabalho muito duro, sentam-se no sofá, em frente à televisão e ao lado da mulher ou do marido, e um deles diz: agora que estamos finalmente em casa, e que são nove da noite, vamos aproveitar o tempo para o crescimento pessoal.

“Eu não quero crescer pessoalmente, quero descansar.” Não se está com a mulher ou com o marido para aproveitar o tempo, mas para o partilhar, o que é diferente. Com Deus, com a vida, a atitude não é aproveitar, é viver. Por isso, seria uma grande conversão mental.

Na Igreja Católica, por exemplo, fazem-se demasiadas coisas. Deveriam ser feitas muito menos, mas muito mais certeiras. Nós, padres, temos uma agenda, uma actividade em geral desenfreada. Como se podem fazer bem as coisas se se tem tantas coisas para fazer? É impossível. É como se tivéssemos de falar quinze horas por dia, no fim acabamos a dizer disparates… Uma cura de silêncio far-nos-ia muito bem a todos.

 

7M – Sair do barulho, do activismo, dos afazeres permanentes…

A única saída que eu vejo para a Igreja, hoje, é a espiritualidade, voltar à fonte. Muitos religiosos e religiosas estão nas coisas de Deus, mas não estão em Deus. Fazem coisas para Deus, mas não estão com Ele. Quando Jesus chama os seus discípulos, chama-os primeiro para estarem com ele e depois para serem testemunhas. Não só testemunho, não só acção, mas também paixão, também acolhimento, também estar. Aprender a ser. É esse o desafio.

capa Biografia do Silêncio, Pablo d'Ors

Uma das edições (Paulinas) do livro A Biografia do Silêncio, editado também pela Quetzal. 

7M – No livro fala da sede que temos no deserto como uma experiência de desejo. Isso faz lembrar o retiro que o então padre Tolentino Mendonça fez ao Papa e à Cúria Romana, em 2018, sobre o elogio da sede [publicado em livro pela Quetzal], em que falava da sede também como um desejo. Mas o desejo já foi visto como algo de pernicioso, de pecaminoso, de mau. É necessário que a Igreja recupere a intuição espiritual sobre o desejo?

O ser humano tem instintos, desejos e ânsia (ou sede). O instintivo refere-se ao corpo, o desejo refere-se à mente e o anseio refere-se ao espírito. O que vejo é que muitas pessoas no Ocidente têm, temos, os instintos mais ou menos satisfeitos, mas há uma insatisfação de fundo, porque a sede ou o anseio profundo não estão satisfeitos.

Hoje não existe uma crise do espírito. O espírito sopra, o espírito está presente. As pessoas têm sede, suscitada pelo próprio espírito. O que há é uma crise do filho e do pai. Do pai porque matámos os pais, desde Freud que não queremos ter nada a ver com a autoridade. E quando se matam os pais, o que acontece? Ficamos órfãos. O que acontece hoje no Ocidente é que somos órfãos. As pessoas não sentem que têm um pai, não sentem que têm uma autoridade, não se sentem apoiadas numa base que lhes dê confiança.

 

7M – Falou também da crise do filho…

A crise do pai é indirectamente uma crise do filho, porque não há caminhos. As pessoas andam à procura. Hoje somos todos errantes, ninguém é peregrino. Um peregrino tem um horizonte claro: vou a Santiago de Compostela, tenho um horizonte claro. Mas um errante vai de um lado para o outro sem saber para onde. E é isso o que acontece: as pessoas andam por aí à procura, mas o que é procuram? Para onde vão? Hoje, mais do que nunca, precisamos de recuperar uma fonte e um caminho.

No cristianismo temos isso; o que acontece é que hoje existe um preconceito anticristão muito forte que nos desafia, aos cristãos, a reinventar ou ressignificar a nossa linguagem para que ela possa ser significativa para as pessoas de hoje.

 

7M – Como na canção de Lhasa de Sela, que morreu em 2010: “Vim iluminada para o deserto para queimar/Porque a alma pega fogo.” Será para dizer que se procura o deserto para, de alguma forma, redescobrir o silêncio, o fogo, o amor de uma maneira diferente?

Sim. O que proponho é que a Europa regresse ao deserto, ao deserto interior, para se descobrir a si própria. Tal como o povo de Israel atravessou o deserto e chegou à Terra Prometida, também nós temos de nos purificar através deste cadinho para lá chegarmos.

Para responder a essa pergunta, deveríamos interrogar-nos: porque vai e quando vai Jesus de Nazaré ao deserto? Jesus vai para o deserto depois de ter sido baptizado, ou seja, depois de ter feito a experiência de uma iluminação fundamental, de ter compreendido a sua identidade para ser posto à prova. O que o Evangelho diz é que o Espírito conduziu Jesus ao deserto para ser tentado pelo demónio. Isso significa que o que nos conduz ao deserto é a luz, é algo positivo. Mas para quê? Para ser posto à prova.

 

7M – O que significa isso?

Significa que a sombra, a prova, é um dom do Espírito para crescer. Temos de ir ao deserto para crescer, para nos purificarmos, para verificar esse amor, para realizar a nossa identidade. É depois de passar pelo deserto que Jesus começa a sua vida pública. E nós poderemos começar uma vida pública “fecunda” se passarmos por esse cadinho.

 

7M – É nesse sentido que toma o exemplo de Carlos de Foucauld, um homem que vive só, que morre só e que procurou o anonimato, mas acabou se tornar um mestre da mística cristã – e tudo isto graças ao deserto?

Carlos de Foucauld, como Thomas Merton, por exemplo, são diferentes, mas têm uma coisa em comum: são paradigmas ou arquétipos da solidão com um grande poder de radiação e de comunicação. Nesse sentido, são muito expressivos de como a solidão ou o deserto podem ser enormemente fecundos: no coração do deserto há um oásis.

Para mim, Carlos de Foucauld tem um significado muito especial, porque creio que ele é um padre do deserto contemporâneo. Na Igreja Católica, depois da geração apostólica, vieram os padres e as madres do deserto, que foram como que o primeiro cenário da espiritualidade cristã. Foucauld traz-nos hoje o deserto de novo, no século XXI. Como se dissesse: só se voltarmos ao vazio é que o podemos perceber.

Ele não é apenas mais um fundador, como Santo Inácio, São Francisco, São Domingos ou Santa Teresa. Temos de o comparar com os pais do deserto porque ele traz-nos o deserto, hoje.

Carlos de Foucauld foi canonizado pelo seu trabalho com os tuaregues: um dos “arquétipos da solidão com um grande poder de radiação e de comunicação”. Foto: Direitos reservados.

7M – Tendo em conta algumas coisas que já falámos, Carlo Carreto também tem razão no sentido de que podemos encontrar o deserto no meio da cidade?

Claro que sim. Para mim esse é o grande desafio. No meu trabalho pastoral, tento fazer exactamente isso: que todas as pessoas que vivemos na cidade, possamos fazer pequenos desertos na nossa vida. Gosto de falar da fuga mundi intermitente, ou seja, ir e voltar. Não apenas indo para o deserto, como se fazia antes, mas voltando ao mundo para ser compassivos, partilhar e irradiar essa luz. E como o mundo tende a desgastar-nos e a ofuscar-nos, voltar a retirar-nos. Esta viagem de ida e volta tem de ser permanente. Temos de estar permanentemente a ir e a voltar, a aproximarmo-nos e a afastarmo-nos. É essa a dinâmica espiritual que pode permitir uma certa fecundidade.

 

7M – Numa passagem do livro, uma das personagens, o professor, diz que só somos livres quando podemos levar connosco tudo o que é nosso. Mas hoje, se pensarmos num refugiado que leva o essencial para vir de onde há guerra ou perseguição, essa pessoa não é livre.

Claro que não. É contra a sua vontade que tem de deixar o seu país. A grande aventura humana é ser. Ser pessoas. Como esta aventura é demasiado grande para nós, inventámos substitutos como o poder, o prazer ou o ter. Quanto mais coisas tivermos, menos somos. As coisas, as propriedades, o ter, distraem-nos da grande aventura de ser pessoa.

As coisas são boas, desde que estejam ao serviço da pessoa, que não se tornem senhores absolutos. Nesse sentido, a pobreza franciscana, a pobreza evangélica, não é outra coisa senão a capacidade de desapego, de não se apegar às coisas, às pessoas, às ideias. Creio que o desafio espiritual fundamental é o desapego.

Em termos cristãos, é a bem-aventurança dos pobres, ou seja, os que não estão apegados às coisas, os que estão livres das coisas, não os pobres sociológicos. O que não é fácil, porque temos uma tendência natural a sermos auto-afirmativos e a possuir, para sermos fortes. Por isso, ter a liberdade de deixar ir é um grande trabalho interior, claro que é.

Pablo d'Ors, capa livro Espanto e Encantamento

Espanto e Encantamento, outro livro de Pablo d’Ors.  

7M – Já referiu a falta do deserto e a fragmentação como problemas no cristianismo de hoje. No livro Silêncio – Uma História Cristã, o historiador inglês Diarmaid MacCulloch, conta a história da espiritualidade do silêncio no cristianismo. Perdeu-se essa tradição dos grandes místicos, dos grandes buscadores na Igreja ocidental?

Há 50 ou 70 anos, ninguém tinha uma Bíblia em casa. E só os monges e os padres liam os Evangelhos ou o Novo Testamento.

 

7M – Falando de católicos…

Sim, falando de católicos, exactamente. Depois, após o Concílio Vaticano II [1962-65], a Palavra difundiu-se e compreendeu-se que é um tesouro para todos. O que aconteceu com a Bíblia, que agora todos entendem como tesouro, é o que eu gostaria – creio – que está a começar a acontecer com o silêncio.

As pessoas pensam que o silêncio é só para os monges, mas o silêncio é para toda a gente. O erro tem sido o de identificar a vida contemplativa com a vida monástica. Não. A vida monástica é para aqueles que se querem retirar para um mosteiro, mas a vida contemplativa, a vida interior, é para todos. O grande desafio para a Igreja é fazer entender que o silêncio, a mística, são para todos.

Tem havido um grande esquecimento? Sim. Porque articulámos o cristianismo apenas a partir da Palavra, não a partir do silêncio, não a partir da experiência interior. E este é o grande desafio para a Igreja e para a religião cristã do século XXI.

 

7M – Talvez também haja uma ideia errada dos monges. Em Cister, um deles dizia-me: “Aqui equilibramos o trabalho, a oração, o descanso.” Há um longo caminho a percorrer nesse equilíbrio…

Fizemos uma idolatria do trabalho. Descansamos pouco e dedicamos muito menos tempo ao espírito ou à alma. O monge, como a própria palavra indica, monos, um, é o arquétipo da unidade, da unidade na diversidade, porque há que fazer muitas coisas durante o dia: comer, dormir, trabalhar, falar, ler, estudar… E a proposta monástica é uma vida harmoniosa. O que nós mais precisamos, homens e mulheres do século XXI, é de harmonia. Fizemos do trabalho, da produção, do pragmático, um ídolo; tudo o resto foi completamente marginalizado.

 

7M – No livro A Biografia do Silêncio, fala da ética do cuidado e da atenção. Onde é que essa ética é mais necessária hoje? Nas questões ambientais, noutras coisas?…

O cuidado tem pelo menos quatro vertentes: o cuidado consigo próprio, o cuidado com os outros, o cuidado com o ambiente e, por fim, o cuidado com Deus. Se tivermos os três primeiros – cuidar de nós próprios, cuidar dos outros e cuidar do ambiente ou da criação – isso é cuidar de Deus. Cuidar de Deus não é mais do que fazer isso conscientemente.

O que é a espiritualidade? A espiritualidade é a consciência do natural. Qual é a adoração que Deus quer? A adoração que Deus quer é que cuidemos de nós próprios, que cuidemos do mundo e dos outros. Não é mais importante cuidar do meio ambiente, cuidar de si mesmo, cuidar dos outros – tudo vai em paralelo. Na medida em que cuidamos realmente de nós próprios, cuidamos dos outros e cuidamos do mundo. Na medida em que se cuida do mundo, cuida-se de si e cuida-se dos outros. São todas coisas paralelas.

capa Sendino Está a Morrer, Pablo d'Ors

capa Sendino Está a Morrer, Pablo d’Ors

7M – E a história de Sendino Está a Morrer é essa atenção aos outros numa pessoa específica?

É a história de uma mulher que se dá aos outros e que, de repente, descobre que também tem de receber dos outros. Não só para dar, mas também para receber. Nesse sentido, é muito emblemática, porque nos ensinaram a agir, a amar, mas não a nos deixarmos amar; a ajudar, mas não a nos deixarmos ajudar.

O que Sendino está a dizer é que deixar-se ajudar é um nível mais elevado do que ajudar, porque quando ajudamos somos como Deus para os outros, mas quando nos deixamos ajudar permitimos que os outros sejam Deus para nós. E essa é a essência desse pequeno livro.

 

7M – Essa é uma história biográfica?

É uma história verdadeira, sim. Trabalhei durante 10 anos como capelão num hospital e Sendino era uma mulher doente, entre as que conheci. Ela sabia que, para além de capelão, eu era escritor, pediu-me para a ajudar a escrever um livro e é tudo isso que conto no livro. Comecei a ajudar, mas depois ela faleceu e, antes de morrer, pediu-me que desse a conhecer a sua experiência.

 

7M – Tendo sido chamado ao Dicastério para a Cultura, do Vaticano, pergunto como se pode olhar hoje para a relação entre a Igreja e a cultura contemporânea: distância, proximidade, onde ficamos?

Apesar de todos os esforços, a Igreja perdeu a cultura contemporânea: quantos romances ou quantos filmes ou quantos quadros são escritos, projectados ou pintados que têm a ver com com o mundo espiritual, com Deus?… Deus está ausente da literatura, do cinema, do teatro…

Isto significa que os crentes e a Igreja, não souberam – não soubemos, porque eu considero-me crente e membro da Igreja – não soubemos impregnar a cultura, fomos em direcções diferentes.

 

 7M – E quando há um filme, um livro ou uma obra de arte que fala destes temas, também quase não há diálogo…

Tentamos, mas há um território básico que faz com que isso não funcione. E não funciona para o mundo nem para a Igreja. Não funciona para o mundo porque este não tem um pensamento evangélico, porque é de outro tipo, e também porque há no mundo, justificada ou injustificadamente, muitos preconceitos contra o cristianismo.

Da parte da Igreja, como é difícil estar no mundo sem ser criticada e sem ser atacada, ela tende a retirar-se e a esconder-se ou a refugiar-se nas suas paróquias, nos seus conventos. E assim cria-se uma dialéctica: as pessoas não sentem que a Igreja está no mundo, porque está retirada.

Sinodais aplaudem o Papa na conclusão da assembleia do Sínodo dos Bispos, 26 outubro 2024. Foto Clara Raimundo

Participantes no Sínodo aplaudindo o Papa no final da assembleia, em Outubro de 2024: Francisco “dá testemunho do diálogo, de encontro com os outros, e de procura comum.” Foto © Clara Raimundo/7MARGENS.

7M – Como disse, estar no mundo é difícil…

Estar no mundo é difícil, mas se nos retirarmos, perdemos relevância. Este binómio, já foi dito por muitos teólogos e sociólogos, é a relevância e a identidade: se queremos ser socialmente relevantes, perdemos identidade; se nos refugiamos dentro de nós próprios para garantir essa identidade, perdemos relevância.

É muito difícil. Ser padre é precisamente, ou deveria ser, uma ponte, um pontífice entre o mundo e Deus, entre a sociedade e a Igreja. Essa tarefa de estar na fronteira de forma frutuosa é difícil, porque se tende a deslocar-se para um lado ou para o outro: tornamo-nos demasiado eclesiásticos ou demasiado mundanos. Manter-se num ponto em que se é significativo para ambos, que é o que eu modestamente tento fazer, não é fácil.

 

O Papa consegue fazê-lo? Por exemplo, no sínodo e com o processo sinodal em que o Papa tanto insistiu, no sentido da escuta, essa atitude foi fundamental para traduzir essa intuição de escuta, de fazer ponte, de ser pontífice?

Eu, que não sou um homem do Vaticano, apesar do cargo para o qual fui nomeado em 2014, sou um homem de Francisco. Penso que este Papa tem feito muito bem: é um homem de escuta, que dá testemunho daquilo que prega, e a sua pastoral não é uma pastoral da alternativa (o mundo de um lado e a Igreja do outro), mas é uma pastoral de diálogo, de encontro com os outros, e de procura comum, de compreensão. Para mim ele é exemplar.

 

7M – Embora todos conheçamos os ataques que sofre, mais ainda com o sínodo e as suas conclusões.

Faz parte da fidelidade a si próprio ser incompreendido e ser atacado. Se toda a gente o aplaudisse, seria um mau sinal. É lógico que ele tenha os seus detractores, o próprio Jesus de Nazaré também os teve, por isso como é que um dos seus seguidores não os terá?

(Foto de destaque: Pablo d’Ors em Lisboa, quando apresentou o seu livro O Amigo do Deserto; Direitos reservados.)

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