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Pacto de Luz

Pacto de Luz

by | 1 Mar 19 | Sete Partidas, Últimas

Foto © Marta Parada

Por cá o Inverno vai bem alto, que é o mesmo que dizer temperaturas muito baixas e neve fresca todos os dias. Mas é a escuridão que inquieta e desequilibra, fazendo-me desejar a cada ano, por esta altura, regressar ao meu tão amado Sul.

Dentro das casas acendem-se velas e ilumina-se ao pormenor cada recanto, cada janela. Ilumina-se o escuro num pacto silencioso. Um pacto de luz até que os dias renasçam.

Também por esse motivo, o Natal ganha um sentido ainda mais especial. As casas iluminam-se como nos postais e nas janelas nascem estrelas que nunca se apagam durante os meses seguintes. Crentes e não-crentes aguardam ansiosamente a chegada da Luz.

Volvidos dois meses desse tempo tão doce e luminoso, ainda permanecem reminiscências da sua presenca nos jardins, janelas e entradas de algumas casas.

Por isso me apeteceu partilhar um pouco da experiência de Natal num dos países menos religiosos do mundo.

Sem o Natal, os meses de Inverno e escuridão seriam na sua totalidade um tempo de hibernação colectiva. Com ele, sonha-se um tempo outro e trabalha-se em conjunto a esperança de o ver chegar. Adiam-se milagrosamente dores, doenças e depressões e as cidades são movidas por um extra hygge  que esta quadra proporciona.

Quase como saudade, a palavra hygge  não tem tradução fácil. É uma filosofia de vida que se encontra em pequenos prazeres, momentos de grande felicidade e espiritualidade. Visitar um mercado de Natal e comer pinnebrød  (massa de pão espetado num pau) acabado de fazer na fogueira; ir em família escolher o pinheiro de Natal e sentar-se depois em volta de uma fogueira do antigamente a ouvir a lenha a estalar; decorar a árvore ao som de melodias do tempo dos avós; ver a neve a cair lá fora enquanto se come julegrøt  (papa de Natal) que se serve quente com manteiga e canela no dia 23 de dezembro….

E, depois, a banda sonora que passa na rádio e nas listas do Spotify traz-nos memórias dos Natais da nossa infância. E nos teatros representam-se peças de Natal de autores locais, nas quais as famílias se encontram para experimentar a fantasia.

Já as igrejas são os cenários ideais para ouvir ressoar as vozes de solistas e coros que exaltam este tempo e despertam sentidos que se desconheciam. Nas escolas, coros de alunos recitam as musicas cuidadosamente ensaiadas nas semanas anteriores.

No dia 13 de Dezembro (dia do Solsticio de Inverno no antigo calendário juliano), criancas vestidas de túnicas brancas e empunhando uma luz, desfilam na procissão de Santa Luzia, organizada nas escolas e infantários. Esta celebracao representa o regresso da luz, o maior desejo dos escandinavos neste periodo do ano.

Depois, os pais multiplicam-se em dugnads, um conceito de trabalho voluntário com séculos de existência, praticado inicialmente na maioria das sociedades agrícolas tradicionais. O dugnad permanece uma prática vital e bem enraizada na sociedade norueguesa. Assumido como um dever, tem como princípio fundamental a importância da participação de toda a sociedade civil, sem qualquer interferência do Estado, na construção de um mundo melhor. Desde servir gløgg  (bebida natalícia quente feita de especiarias e servida com amêndoas e passas) e pepperkaker  (bolos de pimenta e gengibre que fazem as delicias dos miúdos) nas festas de Natal da escola ou fazer bolos para vender na festa de Natal do clube desportivo, o espírito do dugnad tem muitos praticantes e não é mais do que o retrato de uma sociedade civil generosa, que vai para além dos seus interesses pessoais e oferece o seu tempo e trabalho em beneficio de um bem comum, na certeza de que o contributo de cada um importa e faz a diferença.

Mas refiro tudo isto para falar de um conto de Natal.

Nesta altura, os habituais livros das mesas de cabeceira são substituídos por contos de Natal. Astrid Lindgren ou Alf Prøysen são dois lendários e contados muitas vezes de cor pelos avós, mas novos autores emergem com novos desafios nesta quadra tão mágica.

No último Natal cruzou-se comigo um desses desafios. Digo cruzou porque os livros que tenho lido ao longo da vida trazem tanto sentido ao que estou a viver no momento que acredito que a escolha é bilateral. Escolhemo-nos um ao outro.

Cruzámo-nos pela primeira vez numa livraria e chamou-me a atenção pela beleza da capa que reconheci ser da ilustradora norueguesa Lisa Aisato. Já a conhecera de livros para a infância que temos em casa. Não lhe toquei. Nesse dia, fiquei com ele no pensamento. Nem sequer tinha memorizado o titulo. Certo é que, passado alguns dias, lá estava ele de novo. Pousado numa mesa na casa de uma amiga da minha filha mais nova. Desta vez, olhei-o com mais cuidado. Snøsøsteren, assim se intitulava. Que quer dizer “Irmã de neve”. Da autora norueguesa Maja Lunde. “A mãe leu-me… é lindo mas é muito triste”, comentou a pequena Malin. Fiquei ainda mais curiosa. Um livro de Natal triste para crianças. Corri a comprá-lo.

Desta vez o coração e o cérebro sintonizaram de imediato e a leitura fluiu. Era ímpossivel parar antes do fim.

Em cada página, um mistério. Em cada mistério, uma revelação.

Um rapaz que nada sozinho na piscina. Está sozinho e sente-se só, depois de recentemente ter perdido a sua irmã mais velha por quem tinha uma imensa ternura.

Em casa vive uma mãe, um pai e uma irmã pequenina. Todos perdidos de si próprios. E o Natal prestes a chegar parece uma ameaça ao que a memória tenta apagar. Nada acontece como antes. O aconchego deste tempo parecia distante. Nada de árvores. Nada de luzes. Nada de músicas. A escuridão já não existe só la fora. Está em cada um e não parece haver estrelas suficientes para a iluminar.

O rapaz nada na piscina. Ele e esta sua história. Do lado de fora da piscina, um rosto sardento nunca antes visto chama-o. Tornam-se os melhores amigos. Têm em comum a busca da alegria. Revisitam-se nas suas histórias e exaltam-se nas suas fantasias cheias de cores, músicas e enfeites de Natal. Juntos dão gargalhadas e fazem construções de neve e o tempo parece entrar noutra dimensão…uma suave cadência onde apetece ficar para sempre.

E a transformação vai acontecendo aos poucos.

Ela, que surge de dentro dele na busca de um sentido para tanto sofrimento.

Ele, que a transporta dentro de si, na certeza de que juntos se superarão.

E, como que numa epifania, o mistério acontece e da escuridão nasce a luz.

E, num exercício de superação de si próprio e dos seus fantasmas e medos, o rapaz regressa a casa transfigurado. E o resto da familia deixa-se tambem transfigurar perante tamanha beleza.  

“Vou ter tantas saudades tuas. Disse ela. Ao mesmo tempo começou a nevar. Pequenos e belos flocos de neve caiam do céu (…). Cada vez que nevar, podes pensar em mim. Disse ela. E lembra-te que eu estou em cada floco de neve. És tu que és a minha irmã de neve. Disse eu. Ela acenou. Sim, quero mesmo ser. Adeus. Havemos de nos ver outra vez”.

E naquela casa houve outra vez Natal, a cinco.

Lá fora está a nevar.

Marta Parada Carvalho é médica pediatra e vive em Skien, Noruega

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