Publicamos hoje o quarto texto sobre 1700 anos do Concílio de Niceia (atual İznik, Turquia), de uma reflexão de Vítor Rafael, colunista regular do 7MARGENS, doutorando em História e Cultura das Religiões pela FLUL – Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e investigador na Universidade Católica Portuguesa – Centro de Investigação em Teologia e Estudos da Religião. [Ler textos anteriores]
Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado

Matthias Grünewald: Cristo na Cruz, detalhe do painel central da Crucificação do Retábulo de Isenheim (c.1512-15)
Nunca, como nos tempos que correm, foi tão pertinente reflectir acerca da morte de Jesus. Afinal, Ele morre consumido por amor por cada um pessoa e a Sua mensagem, de cada pessoa carregar todos os dias a sua própria cruz, deve impelir cada vez mais a uma cultura de proximidade, amparando e servindo-nos uns aos outros em amor, cuidando dos mais fragilizados e necessitados.
Padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos
Se Deus usou Maria para dar a vida a Jesus, foi ao governador romano Pôncio Pilatos que deu o poder de lhe retirar a vida. Algumas fontes existentes acerca deste governador – Josefo, Tacitus e Filo de Alexandria – retratam-no como um homem extremamente cruel que pouco ou nada se importava com as crenças ou convicções religiosas do povo judaico – o que, segundo alguns comentadores, contraria a imagem dócil e indecisa que o autor do evangelho de João expõe acerca do mesmo. Entre estas duas personalidades, aliás as únicas cujos nomes estão registadas no Credo, existe um fosso abissal. Ao poderoso governador romano que detém uma posição de elevada autoridade, privilégios, influência e riqueza, contrasta-se uma simples e humilde jovem, sem qualquer privilégio ou valor na sociedade de então. Ambos tiveram um papel relevante na história de Jesus.
Foi crucificado
A crucificação era o método de condenação à morte usado pelos romanos, cujo propósito era provocar a morte mais dolorosa e humilhante possível. As vítimas deste horrível espetáculo público, depois de serem despidas, supliciadas e pregadas na cruz, serviam igualmente de exemplo e dissuasão para a prática de crimes hediondos que lesassem o império romano. Geralmente era usada para punir os escravos e inimigos do estado, sendo a prática posteriormente estendida aos cidadãos romanos das classes mais baixas.
Paulo afirma que o Cristo crucificado é escândalo para os judeus e absurdo para os gentios (1 Coríntios 1:18-25). É interessante verificar que não existe iconografia que represente Jesus crucificado antes de Constantino (século IV); só imagens de Jesus retratado como o Bom Pastor ou como um jovem sem barba. Para os judeus era inconcebível que o Messias fosse condenado como um criminoso e morto numa cruz romana, que era associada à ideia de maldição (Deuteronómio 21.22-23). Também para os gregos, a mensagem da cruz de Cristo é um absurdo, contrária à imagem esperada de um filósofo que personificasse uma espécie de clímax de toda a sabedoria.
A cruz é decerto um lugar sagrado, de contemplação e de reflexão. Segundo as palavras de Jesus, aquele que o desejar seguir tem de tomar cada dia a sua cruz (Marcos 8:34). Mas que significado tem hoje o carregar a cruz? Paulo diz que ela é poder (δύναμις, dynamis) de Deus (1 Coríntios 1:18) cuja mensagem se revela na debilidade do nosso Deus e que contrasta com o poder humano. Jesus, sendo Deus, esvaziou-se a si mesmo, tomou a forma de um escravo e entregou-se incondicionalmente em amor por todos (Filipenses 2:5-8). A cruz é assim um paradigma para as vidas de quem nele crê, que convida diariamente ao sacrifício do próprio ego, do egoísmo, dos próprios interesses em prol dos irmãos, dos debilitados, dos rejeitados, dos pobres, dos pecadores.
Morto e sepultado

Caravaggio,O Enterro de Cristo (1603-4). Pinacoteca do Vaticano.
Não restam dúvidas de que a morte de Jesus é um tema central ao longo de todo o Novo Testamento. Além de a mesma ter sido provocada pelos opositores do Senhor – os fariseus (Lucas 4:29), Herodes (Lucas 13:31), os judeus (João 5:16) – segundo o evangelho de Marcos, Jesus está consciente da sua vocação messiânica e ensina aos seus discípulos que importava “que o Filho do homem padecesse muito, e que fosse rejeitado pelos anciãos e príncipes dos sacerdotes, e pelos escribas, e que fosse morto, mas que depois de três dias ressuscitaria” (Marcos 8:31; Mateus16:21; Lucas 9:22).
Se por um lado a morte de Jesus é expressão máxima do Seu amor por nós (João 15:13; Romanos 5:8; I João 3:16), algumas passagens falam-nos acerca do seu sacrifício que tira os pecados do mundo (Hebreus 9:28; I João 2:2), da sua entrega em resgate por nós (I Timóteo 2:6) e da maldição da lei (Gálatas 3:10-13). Jesus é igualmente retratado como o Servo sofredor de Isaías, perfurado pelas nossas transgressões, esmagado pelas nossas iniquidades (Isaías 53:5-6). Paulo afirma mesmo em Romanos 5:11 que, através de Jesus, alcançamos a reconciliação com Deus.
Muitas interpretações têm sido dadas ao longo dos séculos ao significado da morte de Jesus, dando origem a algumas teorias ou modelos de expiação. Entre os pais da Igreja, pensava-se que a morte de Jesus foi necessária para nos resgatar do diabo e satisfazer as suas exigências, uma vez que quando Adão e Eva pecaram, a humanidade ficou cativa de Satanás. Mais tarde em plena cultura medieval, Anselmo de Cantuária defendia outra teoria, objetiva: o ser humano, ao pecar, ofendeu a honra infinita de Deus e, ao fazê-lo, a sua culpa tornou-se infinita, sendo assim necessária uma satisfação infinita que só a morte de Jesus podia reparar.
Abelardo, um monge do século XII, defendia outra tese, subjetiva: Jesus morreu como demonstração do amor de Deus, cuja vida tinha como propósito influenciar a humanidade em direção ao seu aperfeiçoamento moral e à transformação da sua vida interior. Já os reformadores do século XVI, com as suas teorias da substituição penal, advogavam que Jesus tem de ser punido em nosso lugar para satisfazer as exigências da justiça de Deus a fim de que os pecados da humanidade possam ser justamente perdoados.
A ideia de que Deus exija o sacrifício de Jesus para nos salvar da Sua própria ira ou que O entregue por nosso resgate, acarreta consequências nefastas decorrentes dessas imagens negativas construídas acerca de Deus. A morte do Senhor deveria ser antes entendida numa perspetiva holística, onde se declara a vitória cósmica de Cristo e a participação de cada pessoa nesse processo. O Cristo ressurreto (voltaremos a este tema no artigo 5 do Símbolo), é o primogénito da nova criação (Romanos 8:28,29), onde no final haverá novos céus e nova terra (2 Pedro 3:13).








