A criação, na voz do autor de música religiosa (1)

Padre António Cartageno: “A música está toda dentro de mim”

| 4 Nov 2023

“Nascido em São Mamede de Ribatua (Alijó) em 1946, numa família de músicos ligados à banda filarmónica local, António Cartageno frequentou o Seminário de Beja entre 1958 e 1964, quando deu entrada no Seminário dos Olivais. Em Lisboa frequentou o Centro de Estudos Gregorianos (hoje Instituto Gregoriano de Lisboa).” Foto © Padre José Maria Afonso Coelho

 

António Cartageno completou 50 anos de ordenação e recebeu o título honorífico de monsenhor, concedido pelo Papa Francisco. Quem o conhece sabe que é um trabalhador tenaz, de grande cultura, rápido raciocínio e doce firmeza na procura do rigor. Além de pároco, foi o criador e dinamizador do Coro do Carmo de Beja, sendo um conhecedor profundo do cântico religioso do Baixo Alentejo. Mas, sobretudo, tem sido reconhecido como um notável compositor de música sacra. Fomos conversar com ele, procurando conhecer melhor o seu trabalho de criação musical, sempre em articulação com a palavra, seja um salmo, um texto da tradição da Igreja (de Santo Agostinho ou da tradição oral, por exemplo) ou um poema de um amigo.

Nascido em São Mamede de Ribatua (Alijó) em 1946, numa família de músicos ligados à banda filarmónica local, António Cartageno frequentou o Seminário de Beja entre 1958 e 1964, quando deu entrada no Seminário dos Olivais. Em Lisboa frequentou o Centro de Estudos Gregorianos (hoje Instituto Gregoriano de Lisboa). Foi ordenado padre a 3 de dezembro de 1972 na Igreja do Carmo, em Beja, onde desde há muitos anos é pároco. Entre 1987 e 1994 estudou música sacra em Roma, no Pontifício Instituto de Música Sacra. A nível diocesano e a nível nacional esteve ligado ao serviço de liturgia, na área da música sacra. Alia à composição larga experiência como formador nesta área, o que lhe granjeou amplo reconhecimento a nível nacional e também internacional.

Na primeira parte desta entrevista, a sua formação musical assim como o seu processo de trabalho estarão em destaque. Com ela, o 7MARGENS continua o ciclo de conversas sobre criação, vulnerabilidade e periferias, iniciado com a entrevista a Gisela Cañamero, diretora artística do arte pública – artes performativas de Beja.

Santo Agostinho. Boticelli

Sandro Boticelli, Santo Agostinho: “Sempre fez a sua experiência de procura de Deus e depois de muito procurar, encontrou-O”

 

7M – A música está presente em muitas circunstâncias de particular relação com Deus: como é que ela nos ajuda a fazer essa experiência de Deus?

PADRE ANTÓNIO CARTAGENO – É uma pergunta difícil e uma resposta também difícil. O que sei dizer, a posteriori, é que, de facto, a música toca o coração das pessoas e ajuda-as a encontrar-se com Deus. E digo isto – a posteriori – porque tenho escutado testemunhos. E depois ponho-me a pensar: “É verdade, como é que isto chegou ao coração das pessoas?” É verdade mesmo. As pessoas comovem-se, porventura até choram.

Vou contar-lhe um caso que responde um bocadinho a isso. Quando se fez em Beja a Cantata de Santo Agostinho, no Teatro Municipal Pax Julia, em 2006, veio ter comigo uma cantora no final de um dos quatro coros que me disse: “Quero partilhar consigo o seguinte: eu andava muito confusa, afastada de Deus. E neste período de confusão e turbulência, vieram-me parar à mão estes textos de Santo Agostinho que, revestidos desta música que você compôs e agora com este esplendor todo da orquestra, deram volta à minha vida. Eu já me fui confessar e sou uma pessoa nova.” Estou a dizer textualmente o que a senhora me disse: “Sou uma pessoa nova. E muito obrigado.” E eu disse-lhe assim: “Olhe, só por isto que acaba de me dizer, já valeu a pena eu ter escrito esta Cantata. Vou-lhe dar um abraço, um grande abraço.” E a senhora foi à sua vida. Era uma senhora ainda relativamente jovem, não sei se era casada ou se era solteira, mas havia ali uma criança ao pé dela, talvez fosse filha, não sei. Nunca mais a vi, mas ficou-me para sempre este testemunho no meu ouvido. E para além desse, muitos outros.

7M – Há-de ter tido muitas histórias do género…

Estou a lembrar-me, ainda sobre a Cantata de Santo Agostinho, que um casal veio dizer-me, a propósito de palavras minhas de introdução à Cantata (“Sempre fez a sua experiência de procura de Deus e depois de muito procurar, encontrou-O”): “Olhe, isto que você aqui escreveu passa-se connosco. Nós também andámos à procura e encontrámos. Esta síntese que está aqui, no fundo, também é a síntese da nossa vida”.

Bem, isto certamente terá sido mais pelo texto que pela música. Seja como for, partilho outro testemunho ainda, desta vez a propósito da Cantata de Nossa Senhora da Conceição, que fizemos em Julho em Olhão. Dias depois da apresentação mandei ao pároco um e-mail a agradecer a iniciativa e a oportunidade de apresentarmos esta obra. Ele disse assim: “Eu é que estou grato. Assisti a dois ensaios ao vivo aqui na igreja e depois assisti também, naturalmente, à apresentação e eu das três vezes chorei”.

 7M – Onde é que está o segredo desta comoção?

Eu tinha um professor, que morreu já, Domenico Bartolucci – foi um grandíssimo da música –, a quem ouvi dizer: “A música deve levar à comoção, deve tocar o coração das pessoas. E se não atingir esse objetivo, de alguma maneira, a música passa ao lado, passa por cima, passa pelo lado, mas não entra no coração, não deixa marca.”

Coro do Carmo. Cartageno

António Cartageno a dirigir um concerto do Coro do Carmo, em Janeiro de 2016: “A música sacra tem os textos e o envolvimento do espírito de oração.” Foto © Padre José Maria Afonso Coelho

 

7M – E como é essa experiência de Deus pela música para o compositor?

Para mim… estamos a falar de música sacra, atenção, música sacra.

7M – E o que tem de particular a música sacra?

Para já, tem os textos. Tem os textos sacros e o envolvimento do espírito de oração.

7M – A música sacra é sempre acompanhada de palavra?

Nem sempre. Por exemplo, a música de Bach: grande parte da vastíssima obra de Bach não tem texto, é apenas música. Mas música, muitas vezes, de comentário a obras, por exemplo, a corais. Os corais são um género cultivado na época, melodia muito quadrada, mais estrófica. Estas melodias que circulavam na época, algumas, muitas delas, não eram músicas de Bach; eram melodias que, como digo, circulavam. E Bach aproveitou-as e incluiu-as, por exemplo, na Paixão segundo São Mateus, ou na Paixão segundo São João. Neste caso, tinham texto.

Mas um livro que ele escreveu, Orgelbuchlein, é todo à base destas melodias corais, mas depois trabalhadas de uma forma artística, muito ornamentadas. A melodia está lá, sim, na base está lá, mas está disfarçada através daquela construção, daquela floresta de sons que Bach sabia fazer. E ele louvava a Deus com isso. E quem hoje continua a ouvir essa música louva a Deus através daquilo que ele escreveu há 200 e tal anos e que ainda continua a ser sempre música que toca o coração. Claro que é discutível até onde começa a música sacra, do ponto de vista instrumental, e onde acaba a música sacra e começa a música profana, que já não entra na igreja. Isso era outra questão que nos levaria mais longe, porque, como sabe, a Igreja só aceita música sacra na liturgia. Ou pelo menos música religiosa, música que tem uma conotação religiosa.

7M – Mas quando olhamos para a vastidão do mundo, até as próprias celebrações litúrgicas têm acompanhamentos musicais diversos…

Pois têm, e a música evoluiu e hoje tem outras formas, não estou a dizer que é só a música de Bach. Hoje, por exemplo, a música de Olivier Messiaen é um universo completamente diferente, uma linguagem diferente. E, no entanto, é uma música que se toca nas igrejas. É quase impossível cantar a música de Messiaen. Mas toca-se, os organistas gostam de tocar. É difícil, é uma linguagem completamente atonal, fora dos parâmetros de tudo o que está para trás.

7M – Que enriquecimento lhe trouxe a sua experiência como formador, em Angola? E a participação em celebrações litúrgicas em Angola, com milhares de pessoas, durante horas?

A música sacra tem a sua inculturação própria. Em Angola, em 2014, fui encontrar música agradável. Os angolanos são muito musicais. Conseguem meter duas, três, quatro vozes, quase espontâneas. Claro, com erros de harmonia, mas à sua maneira. E eu fiquei espantado.

Uma vez, logo de manhã, no Huambo, onde celebram missa muito cedo, era um dia de semana e eu ouço cantar: “Ai, que bonitos cânticos!”. E não eram os nossos, mas eu sei que também se cantam os nossos cânticos em Angola, em Moçambique, em Timor, nas ilhas de Cabo Verde, por aí adiante. Mas eles também têm a sua música própria, autóctone, onde o ritmo tem uma preponderância fundamental e não vamos dizer que não é música sacra: é a música própria da sua cultura, é o movimento corporal e até os batimentos.

Cheguei a estar numa celebração litúrgica com cinco mil pessoas. Acho que se celebrava o Dia Nacional de Angola ou o aniversário da fundação da cidade de Luanda. E então, no pavilhão principal da cidade, completamente engalanado, estavam aquelas pessoas todas, um coro enorme, mais de 200 jovens. Lá estavam a cantar os seus cânticos cheios de vida, de colorido, de força. Não vamos dizer que não era música sacra. À sua maneira, é a sua música sacra. Claro que depois adaptam outras coisas que vão daqui e de além, nomeadamente da Europa, mas têm a sua música sacra.

Fra Angelico, Cristo Glorioso na Corte Celeste (1428-30), National Gallery, Londres, Reino Unido

 

7M – No limite, nada impede que alguém possa sentir estar a fazer a experiência de Deus mesmo com música profana. Aí não há fronteiras?

Acho que há. Música conotada, por exemplo, com experiências e ritmos e letras que se ouvem numa discoteca… aí eu não diria que se faça experiência de Deus. Às vezes, ao contrário da música sacra, há música que provoca a dispersão, não a interioridade. Provoca quase uma alienação. Não sei se pode dizer isto, mas o falecido Papa Bento XVI escreveu também sobre isso. Refletiu melhor que ninguém, talvez, sobre isso, sobre o que é e o que não é a música sacra. E referia-se também a essas experiências. A música que mexe connosco é capaz de levar os jovens ao êxtase e, no entanto, estão fora, é alienante.

Eu, quando fui a Angola falar às pessoas, fui falar da música sacra. O bispo dom Zacarias Kamuenho, que era o delegado da Conferência Episcopal para a liturgia, pediu-me: “Fale também do canto gregoriano, ensine-lhes algumas melodias de canto gregoriano”. E eu, naturalmente, falei disso. Eles gostaram e interessaram-se muito.

Nessa altura, já tinham o seu iPad, já tinham gravador, levavam para casa e ouviam, estudavam. No outro dia, perguntavam-me coisas. Fiquei admirado com o interesse deles. Até queriam entrar em campos que não se explicam assim em cinco minutos, coisas da harmonia… Porque um ou outro andava a aprender órgão, queria saber mais coisas da teoria e da prática da harmonia aplicada ao teclado. É uma coisa que leva tempo. Mas vi o interesse das pessoas. Em Luanda estive hospedado na sede da CEAST, a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé. E lembro-me que um ou dois deles foram lá ter comigo com as suas coisas, os seus apontamentos, e diziam-me “explique lá isto melhor” e “a gente quer saber”.

7M – Ávidos da oportunidade…

Exato, e não têm ninguém que saiba aprofundadamente estas coisas. Acho eu que não tinham. Portanto, a música sacra existe em todos os povos, mesmo aqueles que não têm a nossa forma de expressão, mesmo aqueles que nunca ouviram cantar o canto gregoriano, mas que porventura, quando o descobrem, também sentem que é uma música interiorizante. E cada povo se exprime à sua maneira. Nós estamos muito marcados pela nossa prática ocidental, da liturgia romana, que se espalhou por toda a Europa e pelo mundo, mas há zonas onde esta música mais cultivada, mais erudita, não entrou. Eles têm coisas simples, muito elementares. E aí têm a sua forma de louvar a Deus. Nada a dizer.

António Cartageno

António Cartageno: “A primeira coisa é olhar para o texto, meditá-lo.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – Então, e como é esta experiência para o compositor António Cartageno?

Pois, esta experiência… Quando me pedem para fazer algo, compor, dão-me o texto. Às vezes ainda eu próprio tenho de o retocar. Se é um texto com métrica regular ou que devia ser (muitas vezes não é) e tem ali uns versos que têm mais sílabas e outros menos, e outros têm os acentos fora de sítio, eu tenho de lhe dar uns retoques.

Essa é uma preocupação que tenho, se se tratar de música de metro de sete sílabas… ou cinco, ou dez… Às vezes, há também textos que não são poéticos, são simplesmente textos em prosa. Ou melhor, são poéticos, mas não têm rima – o que é também um desafio. Na Cantata de Santo Agostinho, a maioria do texto é assim. E é um desafio muito maior, que nos dá também mais liberdade de criar, porque quando o texto é muito igual, há pouca liberdade de fugir daquele esquema.

7M – Como se faz então?

Dizia eu que a primeira coisa é olhar para o texto, meditá-lo. Aí, tenho de rezar o texto também. Rezá-lo primeiro e ver como é que os crentes podem rezar aquelas palavras, acrescentando-lhe a mais-valia de uma veste sonora. E o meu trabalho é todo esse. Um texto poético, à partida, já é uma mensagem: um hino da liturgia das horas, por exemplo. Mas se for revestido com uma melodia fica muito mais rico.

Santo Agostinho escreveu que quem canta reza duas vezes. Portanto, se eu cantar o texto, a oração é mais forte, mais intensa, mas precisamos de uma melodia boa que nos ajude a elevar o coração a Deus. É isso que eu tento fazer. E imagino sempre como é que uma assembleia – um grupo pequeno, uma assembleia grande como Fátima, ou outra enorme como a do Papa Francisco, em Lisboa –, como é que a assembleia reage, como é que agarra nesta melodia para louvar a Deus. Costumo dizer que é uma folha em branco, completamente em branco, que é preciso começar a povoar com as notas, com o ritmo, com a harmonia, até dar aquilo que eu entendo que é esta conjugação da melodia, do ritmo, da harmonia, da expressão, do acompanhamento.

7M – Como é que tudo isso pode favorecer a oração?

Para mim, trata-se de torná-la mais forte, mais intensa. Se rezar o texto já é rezar, cantá-lo é rezar duas vezes. E cantá-lo bem. Se for mal cantado, às vezes dá para fugir. Uma coisa é o que está escrito, outra coisa é o que depois se consegue cantar. Isso também exige a educação das pessoas: fazer um pequeno ensaio, ajudar a ultrapassar certos vícios enquanto cantam, etc.. Porque tudo isso favorece a oração.

Eu preparo as coisas de modo que, na minha ótica pelo menos, ajudem a rezar. E a rezar melhor, a louvar a Deus. A Constituição Dogmática sobre a Sagrada Liturgia, que foi o primeiro documento do Concílio Vaticano II, sobre a reforma da liturgia, diz que a música sacra tem duas finalidades: uma é o louvor de Deus e a outra é a santificação dos fiéis. Ao mesmo tempo, a música sacra deve ser para louvor de Deus e para a santificação dos fiéis. [cf. Sacrossanctum Concilium, 112).

Padre Cartageno: “Na liturgia, tudo deve tender para a perfeição.” Foto © Maria do Sameiro Pedro

 

7M – Aliás, no livro Mensageiro da Esperança: bodas de ouro sacerdotais, Padre António Júlio da Silva Cartageno [ed. do Secretariado Nacional de Liturgia – ver no final], há um texto de D. Manuel Clemente em que ele refere precisamente a importância que o seu trabalho teve, e tem tido, para a reforma litúrgica da música sacra na sequência do II Concílio do Vaticano [1962-65].

Exatamente. Na implementação das orientações do Concílio, porque antes do Concílio era uma coisa e depois do Concílio passou a ser outra. A ideia de participação, por exemplo, não existia. O povo estava a assistir à missa e ia rezando o terço, porque não percebia nada. E a missa lá ia decorrendo. Era tudo em latim. As pessoas estavam completamente alheias ao que estava a passar.

Depois do Concílio, sendo tudo em português ou na língua de cada povo, as pessoas vão entendendo, mas depois é preciso ajudá-las ainda a interiorizar, a aprender a escutar uma leitura, e também educar os leitores para que possam transmitir bem a palavra, porque isso faz parte do tal conceito de participação. As pessoas não podem participar bem, por exemplo, se a leitura for mal proclamada, como não podem participar bem se o cântico for mal cantado. É uma participação pobre. Na liturgia, tudo deve tender para a perfeição.

7M – O que está em jogo é um trabalho muito técnico, mas envolve muito mais do que a técnica.

Exatamente.

7M – E não acredito que essa emoção não o trespasse também a si.

Ah, sim!

7M – E como é que o compositor António Cartageno lida com a sua própria emoção?

Quando estava a escrever a Cantata de Santo Agostinho, a certa altura, há um texto dele que eu musiquei – porque a Cantata é toda, praticamente, com palavras de Santo Agostinho –, em que ele fala da sua experiência. E eu revesti de música as suas palavras: “Saboreei-Vos e tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz.” Fui experimentando e depois comecei a cantar aquilo, a tocar e a cantar. A certa altura, eu próprio, sozinho, estava a chorar. Como é que é isto? Não é explicável, é um texto muito intenso. Alguém que começa a experimentar que descobriu Deus, começa a experimentar a presença de Deus na sua vida… “Saboreei-Vos e tenho fome e sede de Vós. Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz.”

E eu, quando acabei, toquei e experimentei mais uma vez – não é só a melodia, é também a harmonia que está por trás de tudo isso e o texto, antes de mais – e dou comigo a cantar e a chorar. Portanto, sou o primeiro a sentir, antes de ela chegar ao ouvinte, sou o primeiro ouvinte interior. Para mim, a música, quando a estou a pensar, está toda dentro de mim. E vejo que aquela forma de expressão também me comove. Ou comove-me a mim em primeiro lugar. E, portanto, também partilho com os outros que depois podem ou não fazer a mesma experiência.

António Cartageno aos 12 anos. Foto do arquivo pessoal de António Cartageno

7M – Mas quando acontece esse momento de partilha com os outros, já muito experimentou?

Ah, sim, sim, sim… Já levou muita volta, até chegar à perfeição. À perfeição, enfim… nada é perfeito neste mundo. Até chegar àquele ponto que me parece já aceitável. Aliás, eu não costumo publicar as coisas antes de, minimamente, me convencerem. Às vezes, ando muito tempo, muito tempo, a remoer, a procurar a forma. Isto é como um trabalho de… sei lá, de artesanato, que o artista anda ali às voltas a procurar, a ajeitar, a dar a melhor forma ao objeto para que ele seja apresentável. Se uma coisa não me convencer a mim, penso que também pouco poderá produzir no coração dos outros.

7M – Até porque, entre o momento inicial da criação e, por exemplo, uma cantata, com diversos coros, com orquestra, há um extensíssimo trabalho. Quem assiste à cantata pode não ter noção disso.

Não, não tem. Primeiro, componho. Escrevo para órgão, para piano. E depois, numa fase posterior, é que faço a instrumentação. Este é o meu método. Às vezes deixo logo um apontamento, são-me logo sugeridos, digamos, pela minha sensibilidade, são-me logo sugeridos os instrumentos que vou pôr ali. Outras vezes deixo para mais tarde e depois vou meditando e vendo melhor. Isto quando há texto. Se não houver texto, tenho de pensar logo.

Por exemplo, a Cantata de Santo Agostinho tem uma pequena introdução instrumental de um minuto, minuto e meio. Esgota-se em pouco tempo, mas está ali condensada muita coisa, porque cria logo uma atmosfera. E por acaso essa introdução à Cantata de Santo Agostinho é muito interiorizante. Com pequenos apontamentos de oboé, clarinete, fagote, melodias que saem um bocadinho fora dos parâmetros.

7M – E a Cantata foi editada, está disponível para se ouvir em disco…

As Edições Paulinas fizeram um CD só com a Cantata de Santo Agostinho, gravada ao vivo, na igreja do Castelo de Ourém. Nessa altura foi com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa, seis coros de Leiria, sob a direção do Maestro Paulo Lourenço.

7M – Em todo esse processo, que é um processo criativo, mas também técnico, exigente, como é que acontece essa relação entre a criação e o estudo?

A primeira coisa, de facto, é escrever com correção, escrever bem, com bases técnicas. A harmonia tem as suas leis, a que é preciso obedecer. Depois há outros compositores, contemporâneos, que já têm outra linguagem, e eu também, num ou outro momento, uso uma linguagem já fora do estilo clássico. Mas eu procuro que a música, antes de mais, seja correta, que seja bem escrita, do ponto de vista harmónico, rítmico, instrumental e, sobretudo no caso de obras com texto, que este seja respeitado e enobrecido, enaltecido. Porque a música é para tornar a palavra ainda mais bela. E se ela não consegue…

Por exemplo, há formas de musicar que estropiam o texto, que põem acentos musicais fora do acento tónico da palavra. Há compositores que às vezes se distraem um bocado nessa forma de apresentar as coisas, depois sai uma certa cacofonia que não é agradável.

Cartão de estudante de António Cartageno no Centro de Estudos Gregorianos de Lisboa. Foto do arquivo pessoal.

 

7M – E a palavra é fulcral para si…

Procuro sempre respeitar a palavra, enaltecê-la, enobrecê-la, ampliá-la, torná-la mais audível, mais percetível, para que chegue também ao ouvido e ao coração das pessoas. Por isso, também é importante que o coro depois a cante bem, a pronuncie bem. Mas a minha preocupação, antes de mais, é esta: trabalhar a palavra. Melhor, trabalhar a música, respeitando sempre a palavra, para que a música ajude e dê mais força à palavra. E se isso estiver feito, já é um bom caminho andado.

Depois, para além disso, a harmonia que se escolhe. O nosso espírito reage a certas harmonias. Há momentos em que eu uso, por exemplo, acordes diminutos. São acordes que tocam algumas fibras do coração. Aquilo é assim como quem nos pica e, às vezes, basta mudar uma nota ou duas e a coisa tem logo outro sabor, no sentido auditivo. Quer dizer, toca outras fibras do coração.

7M – É um novo sabor auditivo, mas com grandes consequências em termos de experiência emocional.

E é isso mesmo, é isso mesmo. Às vezes a gente acerta, outras vezes acerta menos. Mas procuro. Ainda agora, mesmo com a Cantata de Nossa Senhora da Conceição, há ali momentos que, conjugando as vozes com a harmonia que está a ser produzida, com o efeito de um ou outro instrumento e com o entusiasmo e o envolvimento em crescendo, verdadeiramente exaltam mesmo as pessoas. A certa altura, as pessoas sentem-se arrebatadas.

Na Cantata de Nossa Senhora da Conceição, algumas vezes as pessoas a meio bateram palmas, mas não estávamos ainda para acabar nem nada. Mas, pronto, respeitámos e parámos um bocadinho, depois continuámos. Bateram palmas porque estavam exaltadas. Tudo isso, naturalmente, é resultado da forma como o texto foi tratado. E da harmonia que lá está e também da instrumentação, e tudo isso são o sal e a pimenta para dar sabor. É verdade.

 

“Tudo o que sou e o que fiz é puro dom de Deus, o supremo Artista” 

 

Ordenação de presbítero de António Cartageno, dia 3-12-1972. Foto do arquivo pessoal de António Cartageno

 

O padre António Cartageno foi recentemente homenageado na sua terra natal, São Mamede de Ribatua, Alijó (Trás-os-Montes) por ocasião das suas bodas de ouro de ordenação, completadas a 3 de dezembro de 2022, dia em que foram também festejadas publicamente em Beja.

Das palavras pronunciadas em São Mamede de Ribatua, a 18 de agosto, coincidindo com as festas do santo padroeiro, consta o seguinte testemunho / testamento espiritual que, com a sua autorização, a seguir transcrevemos:

Tudo é dom de Deus. Cito, a propósito, a “Carta aos Artistas”, do saudoso Papa João Paulo II:

A beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do «talento artístico» […] esta espécie de centelha divina que é a vocação artística — de poeta, escritor, pintor, escultor, arquiteto, músico, ator… —, […] [talento] a desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade (n. 3)”. Noutro ponto desta Carta, o Papa afirma ainda: “o sopro divino do Espírito Criador vem ao encontro do génio do homem e estimula a sua capacidade criativa. Abençoa-o com uma espécie de iluminação interior, […] tornando-o apto para conceber a ideia e dar-lhe forma na obra de arte (n. 15)”.

No que me diz respeito, tenho consciência de que o que sou e o que fiz, em especial na arte musical, é puro dom que Deus, o supremo Artista, se dignou conceder-me, dom a que tenho procurado corresponder com muito trabalho e dedicação, tentando pô-lo ao serviço da sua glória e da santificação dos fiéis, através da Igreja que sirvo. E também isto é um serviço à cultura, em favor da sociedade em que estou inserido, nomeadamente a […] cidade de Beja, o Alentejo e até Portugal.

Como ouvi dizer há quatro anos em Roma ao grande compositor inglês John Rutter, “a música sacra é como uma oferenda que pomos sobre o altar”. Sinceramente é isto mesmo que eu desejo: colocar tudo o que sou e o que fiz nas mãos de Deus, para O louvar, para O bendizer, dar-Lhe graças pelos seus dons – pois eu sei que tudo nos vem de Deus. E bendizê-Lo também por toda a minha vida, por todo o meu ministério pastoral junto das comunidades que sirvo, que é dom gratuito da bondade de Deus que se dignou escolher-me e servir-se do rapazinho que há 50 anos veio lá dos socalcos do Alto Douro para a planície alentejana.

Agradeço, pois, a Deus Pai, Senhor de todos os dons, que na minha vida se serviu de tantas mediações – centenas de pessoas concretas e instituições várias, que Ele pôs ao longo do meu caminho – para eu poder chegar ao dia de hoje. Apetece-me cantar como o salmista: Quero bendizer-vos todos os dias da minha vida!

Do vasto labor do padre Cartageno, destacamos três livros de referência, entre mais extensa bibliografia, além da obra discográfica: Cânticos Alentejanos (2001, 2ª edição), Bendizei o Senhor (2021), além de Mensageiro da Esperança: bodas de ouro sacerdotais, Padre António Cartageno (2022).

Antologia de cânticos religiosos alentejanos, recolhidos em primeira mão junto dos seus detentores e transcritos em colaboração com o Cónego António Mendes Aparício, que também assina a introdução, quer da 1ª edição (1978) quer da 2ª, há muito esgotada. Inclui Cânticos da Missa, Cânticos do Natal, da Quaresma, a Nossa Senhora, alusivos aos Santos Populares e ainda Preces para pedir a chuva.

 

Coletânea dos cânticos litúrgicos principais da autoria do Padre Cartageno, particularmente dirigida aos coros litúrgicos. Obra monumental, referente a uma parte apenas da sua obra de compositor, cuja introdução e índice podem ser lidos neste endereço.

 

 

Volume organizado pelo Padre José Maria Afonso Coelho, que reúne diversos testemunhos de homenagem ao Padre Cartageno, bem como uma minuciosa “Nota biográfica” da autoria do organizador do volume. Assinam os testemunhos D. João Marcos, D. Manuel Clemente, D. José Cordeiro, Padre Pedro Lourenço Ferreira, Cónego António Mendes Aparício, entre outros, como Rão Kyao, Mafalda Vasques, Luís Filipe, Luís Paulino Pereira, José Filipe Guerreiro.

Recentemente foi nomeado Capelão de Sua Santidade, tendo-lhe sido atribuído pelo Papa Francisco o título de Monsenhor, a pedido de D. João Marcos, bispo de Beja. As circunstâncias da atribuição deste título honorífico são detalhadas nesta mensagem do bispo de Beja aos Padres e Diáconos da Diocese:

 

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Irritações e sol na cara

Irritações e sol na cara novidade

“Todos os dias têm muito para correr mal, sim. Mas pode-se passar pela vida irritado? Apitos e palavras desagradáveis, respirações impacientes, sempre com o “não posso mais” na boca.” – A crónica de Inês Patrício, a partir de Berlim

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This