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O padre José Planas, mais conhecido por Pepe, numa entrevista a um podcast da Diocese de Málaga. Foto retirada do site oficial da diocese.

Em Málaga

Padre dança flamenco na missa: “Se cantar é rezar duas vezes, dançar é três”

| 03/03/2025

 

Há um padre, nos arredores de Málaga, no sul de Espanha, que evangeliza há décadas através da dança do flamenco. E já contou com um apoio de peso: o próprio Papa João Paulo II. Hoje com cerca de 75 anos, continua a acreditar que a Eucaristia deve ser uma festa. E, seja pela vivência seja pela curiosidade, as pessoas enchem o templo e participam ativamente.

Referimo-nos ao padre José Planas, mais conhecido por Pepe. O flamenco está-lhe no sangue e tradu-lo em palavras eloquentes, numa entrevista publicada pelo site Alfa & Omega: “Mamei-o em casa; cresci entre ciganos e o meu avô e a minha mãe eram cesteiros, uma família humilde, com um sabor flamenco muito bonito, presente em todas as celebrações”, relata Pepe que, entretanto, não deixa de anotar que o flamenco “não é só cantar e bailar; é um modo de viver”.

Não é em todas as celebrações que se lança a cantar e a dançar flamenco. Fá-lo há mais de quarenta anos, quando há condições e em momentos especiais, por iniciativa própria ou puxado por algum grupo “rociero” [que canta e dança à Senhora do Rocio, em Huelva]. Os textos são, em muitos casos, adaptados para serem cantados na igreja.

Nesses dias, é ver o padre Pepe a entrar em “modo flamenco”, batendo palmas, taconeando, lançando os seus “olés” e levantando a alba para facilitar os movimentos de dança. A comunidade presente é envolvida por uma cultura que é, afinal, a sua e adere aos ritmos. Por vezes, salta uma dançarina para o espaço onde se movimenta o presbítero.

Diz Pepe que, em geral, a adesão é significativa. Ele próprio toma a iniciativa de informar e explicar antes o que se vai passar, “para que ninguém seja apanhado de surpresa”. São poucos – diz – aqueles que “não entendem, incluindo alguns companheiros sacerdotes”.

E como é que este filho de uma comunidade cigana se tornou padre? Ele próprio contaque essa vocação foi surgindo lentamente, através das atividades sociais que começou a realizar, depois de cumprir o serviço militar, ligado aos Missionários da Esperança com quem teve proximidade desde muito cedo.

A partir dos 15 anos chegou a namorar com uma rapariga, com vista ao casamento. Entretanto, à medida que começou a dedicar-se ao apostolado da rua, nos bairros de lata, foi nascendo a vocação sacerdotal, mas já com caraterísticas que vinham da sua história pessoal: “tal como S. João Bosco fazia com as marionetas e títeres, como eu sabia dançar, dançava com aquelas pessoas humildes”. Tentativas de fazer alguns estudos “não prosperaram” e ele acabou por ir trabalhar junto de gente humilde das serras de Antequera. E como por ali não havia padre, ao fim de algum tempo foram pedir ao bispo que ordenasse Pepe. Passado algum tempo, Pepe era já diácono e, depois da frequência de um curso no seminário, como ouvinte, mas sem nunca ter feito exames em nenhuma matéria, segundo conta, foi ordenado presbítero aos 42 anos.

A alegria do flamenco entra pela Eucaristia dentro porque, para este clérigo raro, “o evangelho é alegria, é encontro, é a boa notícia”. E a dança “é uma maneira de louvar a Deus”. Parafraseando Santo Agostinho, remata: “se quem canta reza duas vezes, quem também dança reza três”. E convoca o rei David, que também dançava diante de Deus, bem como muitos povos de África o fazem. E é no Quénia, onde vai de tempos a tempos para trabalhar com as Clarissas, que também dança com elas.

Em 1997, Pepe Planas foi convidado a integrar o grupo de católicos espanhois que foi a Roma, à cerimónia de beatificação do “tio Pele”, Ceferino Giménez Malla de seu nome, um espanhol de etnia cigana que foi fuzilado por milicianos das forças republicanas ao tentar defender um padre que esses milicianos estavam a sovar, logo no início da Guerra Civil, em 1936. Durante a estadia, o bispo de Pepe convenceu-o a dançar para o então Papa João Paulo II que, ao vê-lo atuar, começou a acompanhar o ritmo com palmas. No final do encontro, o Papa chamou-o e disse-lhe: “Não deixes de fazer isso, continua a dançar”.

Ele, que nem precisaria do conselho, continuou — e fortalecido — até hoje, em que se encontra já não como pároco, mas como ajudante de párocos. Enchendo a igreja, de cada vez que se anuncia que além dos rituais habituais e dos cânticos litúrgicos, há essa outra forma de “louvar a Deus”, que é a dança.

As principais plataformas de vídeos são abundantes em imagens desse testemunho.

 

Imagem de destaque: O padre José Planas, mais conhecido por Pepe, numa entrevista a um podcast da Diocese de Málaga. Foto retirada do site oficial da diocese.

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