Padre de Lisboa dá a comunhão na boca, contrariando recomendação dos bispos e autoridades de saúde

| 12 Mar 20

É “uma forma fantástica de transmitir doenças”, diz um médico infecciologista, ex-presidente da Associação dos Médicos Católicos. Apoio aos doentes não pode estar em causa, afirma um capelão hospitalar, que defende a disponibilidade para a escuta.

A comunhão a ser distribuída numa missa: os bispos, os médicos e as autoridades de saúde recomendam que se acabe com a comunhão na boca, mas há quem não cumpra. Foto © Mateus Campos Filipe/Unsplash

 

O pároco do Alto do Lumiar, padre Duarte Empis de Andrade e Sousa, deu a comunhão na boca a várias pessoas, nas missas de domingo passado, dia 8, contrariando as orientações das autoridades de saúde e do próprio episcopado, no sentido de dar às pessoas a comunhão (a hóstia) na mão.

Este gesto, testemunhado por pessoas que o confirmaram ao 7MARGENS, contraria as orientações do conselho permanente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), escudadas, aliás, nas recomendações da Direcção-Geral da Saúde.

No passado dia 2, os bispos emitiram uma curta nota convidando “a seguir estritamente as indicações e normas” da Direcção-Geral da Saúde, para exemplificar em seguida: “Como em situações semelhantes e em sintonia com outras conferências episcopais e dioceses, e para evitar situações de risco, recomendamos algumas medidas de prudência nas celebrações e espaços litúrgicos, como, por exemplo, a comunhão na mão (…), a omissão do gesto da paz e o não uso da água nas pias de água benta.”

Padre Duarte Andrade e Sousa, pároco do Alto do Lumiar (2020), em Lisboa. Foto reproduzida da página da paróquia.

Apesar de, durante dois dias, o 7MARGENS ter tentado falar com o padre Duarte Andrade e Sousa, 34 anos, este mostrou-se indisponível para tal. Acabou por enviar recado, quarta-feira à noite, através do sacristão da paróquia, dizendo que estava “a seguir as orientações dos bispos” sobre o assunto, acrescentando que já tinha deixado de se fazer o gesto de paz. Mas, à pergunta sobre se o pároco deixara também de dar a comunhão na boca depois de domingo, o sacristão respondeu apenas que, para essa pergunta, não tinha “indicações”.

O 7MARGENS tentou obter um comentário da parte do patriarca de Lisboa ou da diocese, mas não houve resposta durante o dia de quinta-feira.

Do lado de quem recebe a comunhão também há ainda atitudes impensáveis para o tempo de pandemia que se vive. Um outro padre mais a Norte de Lisboa conta que já encontrou quem se tenha escusado receber a comunhão na mão, alegando que tinha as “mãos sujas”…

“É preferível receber a comunhão com as mãos sujas do que correr riscos de contágio”, diz o padre que, por razões várias, prefere não ser identificado. Isto é uma “desobediência, quase crime e, perante uma questão de saúde pública grave, não podemos transigir.”

 

“Uma forma fantástica de transmitir doenças”

Já o ex-presidente da Associação dos Médicos Católicos, António Sarmento, director do Serviço de Doenças Infecciosas do Hospital de São João, do Porto, diz que a comunhão eucarística “não deve ser dada na boca de modo nenhum”, pois essa “é uma forma fantástica de transmitir doenças”.

Este clínico afirma que “já antes achava isso” e “nesta altura não faz sentido nenhum que não seja assim”. “Não sou alarmista, mas tudo o que contribua para evitar contágio é o melhor”, afirma ainda, dizendo que a comunhão na mão é a única possibilidade de garantir o mínimo de cautelas.

“Sei que há pessoas que, por preconceito ou outras razões, gostam de receber a comunhão na boca”, diz o infecciologista do São João. “Quem não quiser receber na mão, assume a responsabilidade mas, como católico, creio que a intenção é que conta.”

António Sarmento diz que, se estivesse diante de algum padre que distribuísse a comunhão na boca, o tentaria persuadir para não o repetir: “As pessoas têm de ter paciência e fazer sacrifícios, quando necessário. Neste caso, é em defesa de um bem maior, que é a vida humana. Não é por acaso que, nós, católicos, somos defensores da vida, esse é o valor maior.” Além do mais, tendo em conta que o próprio padre pode ficar infectado, pois pode tocar na boca ou na língua da pessoa a quem dá a comunhão, essa será uma defesa que todos devem ter, acrescenta o médico.

O padre José Manuel Pereira de Almeida, também pároco em Lisboa (Santa Isabel) e médico de Anatomia Patológica, insiste na ideia de que “as medidas a tomar” devem seguir as que a DGS indicar: “O que é adequado num determinado momento pode revelar-se insuficiente numa ocasião subsequente.”

Pereira de Almeida considera “muito claras” as indicações da CEP (dia 2) e do patriarca, na nota do dia 11, em que D. Manuel Clemente afirma: “Como cidadãos, devemos atender a todas as indicações das autoridades sanitárias e civis, para prevenir situações de risco.”

O pároco de Santa Isabel acrescenta que as pias de água benta já tinham sido esvaziadas e a limpeza de muitas superfícies foi também redobrada. E repete que as orientações dos bispos incluem a supressão do abraço da paz e a distribuição da comunhão na mão, “prescindindo das legítimas opções da devoção de cada um”. Além de que, “quem distribui a comunhão, lava as mãos antes e depois e usa também a solução alcoólica indicada”.

“No fundo, trata-se de assumir comportamentos responsáveis para evitar a propagação do Covid-19, agora que já nos encontramos numa situação de pandemia”, como declarou a Organização Mundial de Saúde. E com a obrigação especial de proteger melhor as pessoas mais idosas, que tenham doença crónica.

 

A necessidade da escuta

Quem fica limitado em algumas possibilidades de acção são os capelães e voluntários dos serviços de assistência hospitalar. No Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central, os serviços de assistência religiosa receberam instruções muito estritas para a celebração da missa, além das já sugeridas pelos bispos no dia 2.

Ao 7MARGENS, um dos capelães daquele centro hospitalar, o padre António Pedro Monteiro, explica que, entre as instruções recebidas, estão o pedido para que as pessoas se sentem, nas capelas,  a pelo menos um metro de distância cada uma; que quem distribui a comunhão desinfecte as mãos antes e depois de comungar e de distribuir as hóstias; e que, tanto quanto possível, quem comungue desinfecte também as suas mãos. Ao mesmo tempo, há apelos ainda a que as pessoas evitem saudar-se com gestos que impliquem o contacto físico (apertos de mão, beijos ou abraços).

No próximo sábado, pode mesmo não haver a eucaristia semanal que o padre António Pedro celebra no Hospital de Santa Marta – essa é, pelo menos para já, uma hipótese que o capelão está a ponderar.

O mais importante, no entanto, não são estes detalhes, mas o que eles podem traduzir de afastamento ou não, em relação ás pessoas doentes: “Em cada tempo e cada contexto faz sentido sermos permeáveis a rever prioridades e, neste contexto, a prioridade é o controlo da infecção, que é o que está ao nosso alcance”, diz.

“No meu caso, o poder tocar na pessoa, pegar-lhe na mão, é muito importante. Mas a impossibilidade também já estava acautelada antes deste problema”, acrescenta. Sempre que há possibilidades de contágio, há equipamento que permite estar com a pessoa, poder tocar-lhe no rosto ou na mão, sem com isso correr riscos.”

Padre dehoniano (congregação do Sagrado Coração de Jesus), António Pedro Monteiro, 36 anos, diz ainda: “Havendo necessidade de equacionar um gesto de proximidade, nada me impede de usar uma bata descartável, máscara e um par de luvas, por exemplo, por respeito a toda a gente, incluindo o doente ou as pessoas que vou contactar a seguir.”

O essencial, diz, é estar sempre aberto à escuta e não a forma concreta como isso se faz: “Há muitas situações em que as pessoas têm necessidade de reflectir sobre a finitude, mesmo sobre a morte. Nesses casos, a presença, mesmo sem toques, o poder falar e ser escutado, são eficazes – mesmo numa conversa por telefone, por exemplo. A pessoa pode abdicar de tudo, menos da necessidade de escuta.”

Apesar de praticamente retido no Vaticano, o próprio Papa manifestou esta semana várias preocupações em relação à doença e aos doentes, pedindo às pessoas que respeitem as indicações das autoridades e aos padres para que não deixem de visitar os doentes e levar-lhes a comunhão.

 

Celebrações das missas, para já, mantêm-se

Fachada da Sé de Lisboa. Foto © Singa Hitam/Wikimedia Commons

 

Em Portugal, vários bispos suspenderam, entretanto, um conjunto de iniciativas (catequese, reuniões de grupos, procissões da Semana Santa, marca religiosa e turística de locais como Braga), conforme se pode conferir no portal da agência Ecclesia. Mas as celebrações de missas, para já, não seguem o exemplo do que se passa em Itália e continuam previstas para os próximos dias.

Já no Vaticano, o Papa destinou 100 mil euros para a Cáritas italiana, para que a instituição possa apoiar os mais pobres, na sequência dos problemas que surjam por causa da pandemia. A avaliar por algumas histórias já conhecidas, todos os cuidados são poucos: na Coreia do Sul, um grupo religioso foi um dos principais focos de infecção, aparentemente por ter desvalorizado recomendações várias. Nos EUA, um padre da Igreja Episcopal (Anglicana) esteve em contacto com 550 pessoas, na celebração da eucaristia, durante a qual ajudou a distribuir a comunhão. Poucos dias depois, descobriu que estava contaminado com o vírus…

No Irão, também o santuário muçulmano de Qom terá sido o principal foco de contágio. Já na Grécia, por seu lado, o tema da comunhão também tem sido debatido. Há dias, o Público dava conta de que vários responsáveis da Igreja Ortodoxa Grega e políticos continuam a defender que não há problema algum com o facto de várias pessoas comungarem do mesmo cálice

(Texto acrescentado às 0h20 de dia 13, com as declarações do padre José Manuel Pereira de Almeida)

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