Padre do Opus Dei condenado por abusos sexuais

| 7 Jul 20

Cópia de Manuel Cociña y Abella, Opus Dei, Foto Direitos Reservados

Manuel Cociña y Abella (à direita) é o primeiro padre do Opus Dei a ser condenado por abusos sexuais pela Santa Sé, mas há outras investigações a decorrer. Foto: Direitos Reservados.

 

O Vaticano condenou por abusos sexuais o padre espanhol Manuel Cociña y Abella, pertencente ao Opus Dei, noticiou o jornal Religión Digital. O clérigo, de 72 anos, considerado uma figura proeminente dentro da prelatura pessoal (espécie de diocese autónoma, que apenas responde ao Papa e não aos bispos), terá abusado de vários estudantes que viveram em residências universitárias da Obra, em diversas cidades espanholas, ao longo dos últimos 30 anos.

A investigação, de acordo com a notícia de sábado, 4 de Julho, foi iniciada na sequência da queixa feita por um dos jovens, em agosto de 2018, depois da visita do Papa Francisco ao Chile, país onde a vítima reside atualmente. O jovem relatou ter sofrido abusos por parte de Manuel Cociña em pelo menos sete ocasiões, no Colégio Mayor Almonte, em Sevilha, entre 2002 e 2003. O padre aproveitava as confissões para solicitar atos de cariz sexual e oferecia massagens de relaxamento que terminavam com “toques nos órgãos genitais”.

A esta denúncia, somaram-se entretanto testemunhos de mais quatro jovens que terão sofrido abusos semelhantes em várias residências da instituição onde o padre exerceu funções.

Em setembro de 2018, após ter tido conhecimento da primeira queixa formal, o atual prelado do Opus Dei, Fernando Ocáriz, ordenou uma investigação e decidiu adotar, como medidas cautelares, a restrição da atividade pastoral do padre Manuel Cociña ao centro em que residia naquele momento (e continua a residir), na cidade de Granada, e a proibição de manter o contacto com menores de 30 anos, até que a Santa Sé tomasse uma decisão.

Os resultados da investigação foram enviados em dezembro à Congregação para a Doutrina da Fé e a sentença final, à qual o Religión Digital teve acesso, foi conhecida no passado dia 30 de junho. Manuel Cociña fica proibido de exercer o seu ministério em público durante cinco anos e, nos cinco anos seguintes, poderá exercê-lo unicamente no seu local de residência. O padre fica ainda “indefinidamente” interdito de dar atenção pastoral a pessoas com menos de 30 anos.

Em entrevista ao jornal digital chileno Kairós News, o jovem que fez a primeira denúncia lamenta não ter tido acesso à sentença e diz-se “indignado” com o facto de a condenação principal ser por apenas cinco anos. “Cinco anos não é nada. Não o expulsaram do Opus Dei. (…) E eu ainda por cima não posso recorrer dessa sentença”, sublinha.

A vítima, hoje com 36 anos e advogado de profissão, acusa ainda a prelatura de já saber de abusos cometidos por Manuel Cociña “desde 2011” e de não ter feito nada, até 2018, para além de ir transferindo o padre de residência em residência. O jovem manifesta também o seu descontentamento com o facto de a instituição permanecer agora em silêncio, não tendo emitido nenhum comunicado sobre a condenação.

Manuel Cociña y Abella, que foi reitor da Basílica de São Miguel, em Madrid, conviveu diretamente com o fundador do Opus Dei, Josémaría Escrivá de Balaguer, e chegou a estar em várias listas de “candidatos” a bispo para se tornar o primeiro bispo numerário (membro da prelatura) de Espanha. Tornou-se agora o primeiro padre numerário da prelatura a ser condenado por abusos sexuais. De acordo com a Kayrós News, existem mais denúncias contra padres da Obra em países como o Uruguai e os Estados Unidos da América, mas as investigações ainda estão a decorrer.

O 7MARGENS contactou o gabinete de imprensa do Opus Dei em Espanha para obter uma reação à decisão da Santa Sé, mas até final do dia de segunda-feira, 6 de julho, não obteve qualquer resposta.

Em 2015, o Papa Francisco determinou um julgamento canónico contra um professor de um colégio do Opus Dei em Espanha, que abusara de um aluno da escola. Na ocasião, o Papa escreveu uma carta à família e o Colégio Gaztelueta, no País Basco, comprometeu-se a investigar o caso até ao fim, enquanto a prelatura em Espanha prometia “o mais rápido esclarecimento dos factos”. O professor seria condenado a 11 anos de prisão, em 2019, por um juiz espanhol.

No início de 2019, o vigário regional dos Estados Unidos do Opus Dei pediu desculpas públicas a uma mulher que foi vítima de “má conduta sexual” por parte do padre John McCloskey. A organização católica pagou 875 mil dólares à vítima, num acordo extrajudicial. O caso aconteceu em 2002, mas só nessa altura foi tornado público. O padre sofria já de Alzheimer e estava há anos afastado de todas as atividades, de acordo com o que a prelatura informou na ocasião.

 

 

Artigos relacionados

Abusos na Igreja e Vaticano: “Fazer o que ainda não foi feito”

Análise

Abusos na Igreja e Vaticano: “Fazer o que ainda não foi feito” novidade

Sobre as leituras e as consequências do estudo divulgado há precisamente uma semana relativamente aos abusos na Arquidiocese de Munique, umas das principais da Alemanha, o mundo católico encontra-se em suspenso. Já esta sexta-feira, 28, espera-se o pronunciamento da diocese visada e tanto o Vaticano como Bento XVI anunciaram ir estudar atentamente o documento, tendo o Papa Emérito prometido responder.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Breves

Sondagem

Brasil deixa de ter maioria católica 

Algures durante este ano a maioria da população brasileira deixará de se afirmar maioritariamente como católica. Em janeiro de 2020, 51% dos brasileiros eram católicos, muito à frente dos que se reconheciam no protestantismo (31%). Ano e meio depois os números serão outros.

Investigação

Quem traiu Anne Frank?

Quem traiu Anne Frank, a autoria do conhecido Diário, e a sua família? Uma equipa que se entregou à tarefa de investigar acredita ter encontrado a chave do mistério. Mas trata-se de “um cenário provável”, sem certezas absolutas.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

Thich Nhat Hanh: Buda e Jesus são irmãos novidade

Regressei ao cristianismo. Mas fui budista zen cerca de quinze anos, integrada na orientação budista zen do mestre japonês Taisen Deshimaru (Associação Zen Internacional); tendo como mestre um dos seus discípulos, Raphael Doko Triet. Gostaria de lhe prestar aqui a minha homenagem pois aprendi muito com ele, ligando-nos ainda – embora à distância – uma profunda amizade.

“A longa viagem começa por um passo”, recriemos…

Inicio o meu quarto ano de uma escrita a que não estava habituada, a crónica jornalística. Nos primeiros três anos escrevi sobre a interculturalidade. Falei sobre o modo como podemos, por hipótese, colocar as culturas moçambicanas e portuguesa a dialogarem. Noutras vezes, inclui a cultura judaica, no diálogo com essas culturas. De um modo geral, tenho-me questionado sobre a cultura, nas suas diferentes manifestações: literatura, costumes, comportamentos sociais, práticas culturais, modos de ser, de estar e de fazer.

O Sínodo dos Bispos não é o sínodo da Igreja

Está a Igreja Católica Romana a caminhar para mais um Sínodo dos Bispos, a acontecer em 2023, e para isso toda uma máquina funciona no sentido da obtenção de mais diretivas ao serviço do Evangelho. Vamos lá lembrar o que está a acontecer: já não é a primeira vez que se realiza um Sínodo dos Bispos para refletir sobre algumas questões colocadas, sem que, no entanto, se sintam alterações substantivas ao funcionamento da Igreja, dando vitalidade ao seu caminhar.

Cultura e artes

Crónicas portuguesas dos anos 80

As causas que sobrevivem às coisas

O Portugal de A Causa das Coisas e de Os Meus Problemas, publicados nos anos 80, fazem sentido neste século XXI? Miguel Esteves Cardoso ainda nos diz quem e o que somos nós? Haverá coisas que hoje se estranham, nomes fora de tempo, outras que já desapareceram ou caíram em desuso. Já as causas permanecem. Pretexto para uma revisitação a crónicas imperdíveis, agora reeditadas.

Carta a Filémon

A liberdade enquanto caminho espiritual

A Epístola a Filémon – um dos mais pequenos escritos do Novo Testamento – constitui o estímulo e o contexto para uma bela reflexão sobre a vivência da liberdade enquanto caminho espiritual. Adrien Candiard – dominicano francês a residir na cidade do Cairo – consegue em breves páginas apresentar um exercício de leitura rico e incisivo sobre a qualidade da vida cristã, mantendo um tom coloquial próprio do contexto de pequenos grupos nos quais este livro encontrou a sua origem.

O filme de Almodóvar

As dores para dar à luz a verdade

Fique dito, desde já, que estamos perante um dos melhores e mais amadurecidos filmes de Almodóvar. Intenso como outros, magnificamente construído e filmado como é habitual, talvez mais profundamente moral do que muitos, Mães Paralelas é um filme tecido de segredos íntimos e dolorosos, à volta da maternidade, mas também da Guerra Civil espanhola. No centro, esplendorosa, está Penélope Cruz.

Sete Partidas

Ser pai no inverno da Estónia

Estou a viver na Estónia há oito anos e fui pai recentemente. Vim para aqui estudar e, como acontece a muitos outros portugueses espalhados por esse mundo, apaixonei-me por uma mulher deste país, arranjei trabalho, casei e o mais recente capítulo da minha história é o nascimento do meu filho, no mês de dezembro de 2021.

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

[ai1ec view=”agenda” events_limit=”3″]

Ver todas as datas

Parceiros

Fale connosco

Abusos na Igreja
Dar voz ao silêncio

Contactos da Comissão Independente

https://darvozaosilencio.org/

E-mail: geral@darvozaosilencio.org

Telefone: (+351) 91 711 00 00

You have Successfully Subscribed!

Pin It on Pinterest

Share This