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Jardim Gonçalves

De Machico para o mundo

Padre Jardim – um testemunho, uma amizade

Padre Jardim Gonçalves com o autor do texto e os seus netos, em Agosto de 2024. Foto © Joaquim Tenreiro.

 

Recebi a notícia da morte do padre Jardim Gonçalves com uma certa serenidade. Com quase 93 anos, já era bem uma idade canónica! Cada vez que lhe telefonava ou que o visitava na Casa Sacerdotal, em Lisboa, onde, por razões de saúde vivia há quatro anos, pensava que poderia ser a última que nos encontraríamos. Por isso, não resistia em fazer uma selfie, por vezes com a minha mulher ou com os meus netos. Conseguíamos ter sempre uma conversa fora dos lugares beatérios ou dos cânones eclesiásticos. Era um homem culto, um leitor assíduo e de um humor por vezes desconcertante.

Nos últimos anos, encontrava-o a selecionar o seu espólio documental e a catalogar os apontamentos das suas numerosas actividades nacionais e internacionais que, certamente, poderão interessar estudiosos em história dos movimentos sociais. Entretanto, a sua biblioteca de oito mil volumes foi oferecida ao Município de Machico, na ilha da Madeira. [ver 7MARGENS]

Machico tinha sido a primeira paróquia que o bispo do Funchal lhe tinha confiado, após a ordenação sacerdotal, em 1956. Ali descobriu o que era a miséria e a dignidade dos trabalhadores que marcaram para sempre a sua vida e sua missão humano-sacerdotal. Dizia-me que o seu coração ficava desfeito ao ver os homens e as mulheres deste lugar, apresentando-se na missa descalços, por vezes, todos molhados da chuva e com cara de fome. Por isso, a Machico fez a dádiva do enorme espólio da biblioteca que possuía no seu apartamento, na Avenida Grão Vasco, em Benfica. De vez em quando lá acrescentava mais uma remessa de livros que comprava ou lhe ofereciam. Dizia-me que também lá estavam os meus.

No fim dos anos 1960 acompanhou o entusiasmo de um grupo de jovens padres e leigos que se motivaram pela renovação da Igreja em pleno operariado de Setúbal. Fazendo também eu parte desse núcleo, tive a oportunidade de ali o encontrar pela primeira vez.

Voltámos a cruzar-nos no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), em Lisboa, onde foi meu professor e com quem aprofundei a temática da Teologia da Libertação, de Gustavo Gutierrez, acompanhando também as preocupações da CELAM (Conferência Episcopal Latino Americana), reunida em Medellín, Colômbia, em 1968. Por vezes, íamos a pé, depois das aulas, do Largo da Luz até Benfica, e eu, até à Brandoa, onde habitava. Não havia paredes para nos ouvirem e nas então veredas descampadas, entre a Pontinha e Alfornelos, onde mais tarde assumiria as funções de pároco, murmurávamos o nosso descontentamento perante uma Igreja atada a um Estado retrógrado e ditatorial. Nesse tempo, os horizontes de um jovem como eu reduziam-se.

Continuámos a conviver no CCO, Centro de Cultura Operária, em Lisboa, onde trabalhava a meio tempo. Jovem que era, nem talvez me tivesse apercebido do valor das pessoas que ali trabalhavam, como a Maria Elisa Salreta e o Fernando Abreu, que estavam a lançar as bases de um sindicalismo autogestionário, inspirados naquilo que se passava em França e na Bélgica, sem porem de lado o método jocista do ver, julgar e agir que tinha sido implementado pelo seu fundador, Joseph Cardijn.

O padre Jardim ainda me entusiasmou pelo estudo dos movimentos operários, e tive oportunidade de me encontrar com o padre Narciso Rodrigues, no Porto, bom conhecedor desta problemática, em Portugal, assim como me proporcionou um breve estádio na CFDT [Confederação Francesa Democrática do Trabalho], em Paris, sobre a animação de grupos, bem necessário para a promoção dos trabalhadores, mas o alarme do serviço militar tinha tocado.

Nos meandros das minhas hesitações entre sacerdócio, tropa e exílio, mais uma vez o padre Jardim foi de um apoio inolvidável. Abriu a agenda dos seus contactos e aventurei-me numa madrugada radiosa, transpondo a fronteira para ir residir a dois mil quilómetros de Portugal, onde vim a encontrar alguns dos seus amigos, antigos jocistas, como a Vitória Pinheiro e o José Dias Rodrigues, dirigentes nacionais que actuavam desde a cidade de Bruxelas.

Algum tempo após o meu exílio, tive ainda o privilégio de o ter como assistente do meu casamento na nova terra onde comecei a viver uma vida de estudo, de trabalho e de liberdade.

Era por Bruxelas que o padre Jardim Gonçalves passava nas suas numerosas viagens pelos quatro cantos do mundo, como assistente do MMTC (Movimento Mundial dos Trabalhadores Cristãos). A sua passagem por esta cidade era uma ocasião para um animado convívio entre amigos que, longe de Portugal, recebiam notícias sobre o nosso país, de uma pessoa sempre muito bem informada.

Outros tempos surgiram após o 25 de Abril [de 1974] e os compromissos do padre Jardim afirmaram-se em numerosos ramos e actividades, quer em Portugal, quer no estrangeiro. O meu contacto continuou com este homem lúcido, ternurento, cheio de humor e visionário antes do tempo. Ele fez parte da minha vida. Por isso, quis aqui prestar-lhe a minha gratidão e homenagem.

“Ele fez parte da minha vida. Por isso, quis aqui prestar-lhe a minha gratidão e homenagem.” Foto: Jardim Gonçalves ao centro, com o autor do texto e a esposa, em Agosto de 2023. Foto © Joaquim Tenreira Martins.

 

Joaquim Tenreira Martins é diplomado em Teologia pelo ISET-Lisboa, Licenciado em Direito e em Ciências Políticas pela Universidade de Lovaina, é autor de vários livros e trabalhou  no Serviço Social e Jurídico da Embaixada de Portugal em Bruxelas.

 

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