Missionário em Timor

Padre João Felgueiras, 100 anos: várias memórias e três imagens

e | 10 Jun 21

O padre João Felgueiras, padre jesuíta e missionário em Timor-Leste desde 1971, atravessou a época colonial portuguesa (até 1975), a ocupação indonésia (1975-1999) e os anos da independência (2002 até hoje). Completando 100 anos neste 9 de Junho (viveu 50 anos em Portugal e outros 50 em Timor-Leste), o jesuíta foi o centro de uma pequena homenagem em Díli, que incluiu a publicação de um livro com vários depoimentos. Dele se extraem vários elementos que a seguir se coligem acerca da vida deste homem e padre que, durante a ocupação indonésia, apoiou a resistência timorense e que chegou a enviar recados para os políticos portugueses (ver texto de Adelino Gomes no final).  

João de Vasconcelos Baptista Felgueiras descende de uma família da nobreza rural das Caldas das Taipas. Oitavo de nove filhos, João ficou sem pai quando tinha 6 anos. Aos 21, ingressou no noviciado da Companhia de Jesus e fez os seus primeiros votos em 1944. Depois de estudar Filosofia e Teologia, foi ordenado padre no dia 30 de Julho de 1950.

Foi director espiritual no Seminário Menor da Companhia de Jesus e, entre 1967 e 1968, reitor do Seminário Menor da Imaculada Conceição (Cernache).

padre felgueiras

Padre Felgueiras com famílias timorenses, nos seus primeiros anos em Timor. Foto de arquivo, não datada.

 

Em 21 de Janeiro de 1971, João Felgueiras chegou a Timor como missionário. Fez os seus últimos votos na Companhia de Jesus no dia 31 de Julho de 1976. Além de reitor do seminário menor entre 1971 e 1985, ocupou também cargos de responsável eclesiástico de diversas obras católicas e foi capelão da prisão e do hospital.

“Homem santo, ele só abre a boca quando fala de Deus e de valores mais sublimes”, diz dele o padre Joaquim Sarmento, timorense e superior da comunidade em que vive o padre Felgueiras. “Cada conversa era uma expressão autêntica de uma profunda devoção, um tratado sobre a vida espiritual, uma rica interioridade vivida com intensidade e detalhes, um reconhecimento honesto e humilde do amor de Deus.”

Há anos, recorda ainda o superior jesuíta em Timor, João Felgueiras foi internado no Hospital Nacional Guido Valadares, numa sala junto à unidade de cuidados intensivos.

Conta Joaquim Sarmento: “Era meia-noite e pouco. Fui chamado para atender à sua confissão. As ‘manas’ (Rosalina, Cassiana, Augusta, Bendita e outras), cansadas do trabalho do dia, dormiam todas como podiam. Padre Felgueiras confessou-se sentado à beira da cama. Eu em uma cadeira em frente a ele. O padre estava muito abatido. Terminado o sacramento, o padre continuou muito angustiado e preocupado. Achou que fosse morrer mesmo naquela noite. E trémulo, começou a dizer-me: ‘Padre Joaquim, vou morrer esta noite. E para onde irei? Se S. Pedro não me abrir a porta, para onde irei? Se Jesus me perguntar ‘tu João, o que fizeste no mundo’, ai meu Deus… Como vou responder? Se eles não me deixarem entrar, para onde irei?’ E eu… encontrando-me sozinho e inexperiente naquela meia-noite de dor, perante este grande mistério da vida, fiquei sem palavras, minha mente estava mais escura que a noite. Reinou um silêncio, mas não por muito tempo. Porque em seguida segurei nas mãos do padre que tremia, e disse-lhe em alta voz: ‘Padre João, se o Senhor Padre João não entrar no céu… ninguém mais lá poderá entrar!!’ E o padre riu-se, se acalmou e entrou logo no sono. Não sei de onde vieram essas palavras. Mas, mais do que uma tentativa de consolar brincando com ele, era uma verdade.”

P. João Felgueiras (centro)Em Dare, com bispo de Timor D. José Joaquim Ribeiro

Padre João Felgueiras (ao centro), com o então bispo de Timor, D. José Joaquim Ribeiro.

 

Outra vez, em 2005, o padre Sarmento estava a caminho para celebrar a eucaristia dominical na prisão de Gleno, quando o velho missionário o chamou. “Disse que estava muito doente e que tinha de viajar para Portugal. Eu disse-lhe que ia arranjar uma pessoa para acompanhá-lo. A conversa telefónica concluiu que o padre queria ser acompanhado por uma pessoa com as seguintes características: jesuíta, timorense e de Soibada.” Não havia outro senão o próprio Joaquim Sarmento…

A amizade com João Felgueiras “é uma lição de vida humana e religiosa, uma vida totalmente doada, um caminho espiritual”, escreve ainda o padre Joaquim no depoimento para o livro-homenagem que foi preparado para os seus 100 anos. “Acima de tudo admiro o seu amor pela vida, pela defesa da sua vida e da dos outros, como ter o desejo de viver nesta idade avançada, e não apenas um simples viver, mas de viver em abundância, de viver e continuar a sonhar como se a vida acabasse de iniciar.”

O padre Felgueiras criou também a Escola Amigos de Jesus, iniciada com um movimento debaixo das árvores em Lahane e culminando na institucionalização de uma escola formal.

Nos conflitos mais violentos de 1975, quando a Indonésia decidiu ocupar Timor-Leste, que Portugal pretendia descolonizar, o padre Felgueiras (com os seus colegas jesuítas padre José Alves Martins e irmão Daniel Coelho de Ornelas) decidiu ficar. “E ele experimentou a dor de Timor desde o mais íntimo”, diz Joaquim Sarmento.

“O Padre João deu tudo o que podia dar” à Igreja de Timor, diz o actual bispo de Díli, Virgílio do Carmo Silva. “O seu amor por Timor é de tal maneira incomensurável que, até além da vida sacrificada, não a poupou na defesa dos direitos dos timorenses à independência e apoio dado à resistência armada no interior deste território. Com coragem abraçou a cruz que lhe foi atribuída para carregar sobre si durante estes 50 anos desde 1971 a 2021 e por fim escolheu concluir a sua vida neste território timorense.”

 

Três imagens que não mais esqueci

por Adelino Gomes

P. João Felgueiras com alunos da sua escola Amigos de Jesus 2015

Com alunos da Escola Amigos de Jesus, por ele criada. Foto: Direitos reservados.

 

Em diversas ocasiões, motivadas pelas reportagens feitas em Timor-Leste, o jornalista Adelino Gomes esteve com o padre Felgueiras. Eis o seu depoimento, cedido pelo próprio ao 7MARGENS e incluído no livro que neste dia 9 foi oferecido ao jesuíta luso-timorense:

Neste momento deste seu dia maior, ocupam-me a memória três imagens que não mais esqueci.

Na primeira – uma quarta-feira, 10 de Fevereiro de 1993, está Xanana a ser julgado em Díli –, o senhor chega à sala minutos depois do Padre Martins me entreabrir a porta, perguntar-me se acho que fui seguido, e colar-se a uma parede, perscrutando as cercanias por detrás das cortinas de uma das janelas da residência dos jesuítas. Sentado, de olhos meio fechados, voz sussurrada, fala para o microfone que lhe estendo. “Quero dizer a Mário Soares, a Durão Barroso, aos outros ministros: Como podemos abandonar milhares de timorenses? (…) Portugal devia ser mais forte. O Governo parece pedir por favor, quando fala do caso. (…) Que o Governo jamais reconheça a integração na Indonésia. (…) A Indonésia foi condenada [pelo Conselho de Segurança] em 1975. Podemos admitir que o criminoso seja compensado? Não teríamos feito tanto quanto este povo fez, se tivéssemos sido invadidos por espanhóis ou franceses. Nem teríamos vivido com tão profunda fé esta experiência histórica.”

Saio uma hora depois. Ninguém apareceu, falta saber se terei conseguido despistar quem me seguia e se não vou ser interceptado no caminho para o hotel Timor. Tenho pressa de fazer chegar a Portugal excertos do que me disse.  Como todas as fontes nesses tempos de ocupação, “o monólogo do velho missionário” ficou sem nome e sem rosto. Ainda hoje, porém, vejo a sua imagem e ouço as suas palavras, ciciadas na clandestinidade de Díli ocupada, como um poderoso, destemido, perturbador aguilhão que, através do Público, o senhor assestou à consciência moral de Portugal.

P. João Felgueiras com alunos da Escola Amigos de Jesus, em Díli (Timor)

A Escola Amigos de Jesus coroou “uma obra educativa notável que desenvolveu ao longo de toda a sua vida”, sublinha Adelino Gomes. Foto © Carla Araújo.

 

Seis anos mais tarde, após um último, inaudito estertor de violência, a provação indonésia chega ao fim. Vejo-o a levantar-se entre o bacalhau e as filhoses daquela consoada de 1999 na Missão Humanitária Portuguesa mobilizada para a reconstrução de Timor, enfim a caminho da independência. O papa João Paulo II – conta-nos – referiu-se certa vez aos portugueses como um povo misterioso que vivia lá para a ponta mais ocidental do continente europeu. Pois bem, esse povo misterioso largou um dia de onde a terra acaba e o mar começava até “de Banda as ilhas, e o Borneo e ali também Timor” (escrevo agora eu, ladrão de versos de Camões), onde com outro misterioso povo se encontrou em Lifau, daí nascendo um intrigante, inexplicável, misterioso relacionamento de séculos. Que o senhor mesmo protagonizará, já missionário, indo, veja-se lá!, do Minho para o mundo, em cujo umbigo centrou o seu apostolado.

A terceira imagem é mais recente. Fez agora dois anos, na minha última ida a Timor, não me autorizei a regressar a Lisboa sem o ver e à sua menina dos olhos de então, a Escola Amigos de Jesus, que solidariedades chegadas de Portugal, via o nosso comum amigo José Revez, o ajudaram a erguer, coroando uma obra educativa notável que desenvolveu ao longo de toda a sua vida. Recebeu-nos, amparado na inestimável disponibilidade de Rosalina, do Centro Juvenil Padre António Vieira, e de mão dada com uma menina ali a representar todos os jovens que a instituição acolhe. Guardou para o final a visita à capela, onde convidou o grupo a acompanhá-lo numa Ave Maria. Nada incomodado com o silêncio (para si certamente ensurdecedor) com que eu e o correspondente da Lusa, António Sampaio, seguíamos a vossa prece, vejo-o, no final, a dirigir-nos a todos palavras carregadas de esperança e de fé e de afecto.

“Português, jesuíta, antiocupação”, titulei a pequeníssima nota biográfica que acompanhava uma entrevista que lhe fiz, faz também por estes dias anos (19), para o livro Timor-Leste: ano um. As flores nascem na prisão. Nas últimas linhas, recordado da história que nos contou na tal noite do Natal de 1999, arrisquei três outras palavras-chave que lhe traçassem o perfil: “Missão, Portugal e Timor”.

Pelo exemplo, pela tenacidade, e pela inspiração, obrigado barak, padre João Felgueiras.

 

Lisboa, 27 de Maio de 2021

 

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