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Eugénia Abrunhosa

Padre Max foi morto há 44 anos: “O sacerdócio é para servir o povo e não servir-se do povo”

Padre Max foi morto há 44 anos: “O sacerdócio é para servir o povo e não servir-se do povo”

by | 3 Abr 20

Padre Max e Maria de Lurdes evocados num cartaz colocado em Braga.

Padre Max e Maria de Lurdes evocados num cartaz colocado em Braga. Foto © Eduardo Jorge Madureira

 

Neste dia 2 de Abril, completam-se 44 anos que o padre Maximino Barbosa de Sousa, conhecido como Padre Max (1943-1976), foi assassinado próximo de Vila Real, juntamente com Maria de Lurdes Pereira, por meio de uma bomba colocada no carro.

Residente em Vila Real, dirigia-se, com essa jovem, para a Cumeeira ou para Santa Marta de Penaguião, perto de Vila Real, para dar aulas de alfabetização. No início da viagem de regresso, a bomba deflagrou.

O Padre Max era filho de emigrantes e regressara a Portugal anos antes. Já antes do 25 de Abril de 1974 era conhecido como um padre empenhado a defender as causas populares e sensível às injustiças. As suas missas em Vila Real eram muito frequentadas pelos estudantes. Partiu para Lisboa e tirou o curso superior de Românicas, na Faculdade de Letras. Foi professor em Lisboa, Setúbal e depois no liceu de Vila Real. Foi candidato pela UDP (União Democrática Popular) à Assembleia Constituinte, pelo círculo de Vila Real.

O advogado, Mário Brochado Coelho, teve de esperar mais de 20 anos para este caso ser julgado. Houve grande resistência por parte de Justiça portuguesa. Foram apresentados cinco arguidos, mas não houve provas suficientes para condenar nenhum. No entanto, o advogado dedicou muito tempo para inquirir acerca do processo e declarou: “Mataram premeditadamente o Padre Max, mesmo sabendo que levava uma jovem, o que é típico da extrema-direita.” Lamentou que “os autores morais se tenham mantido escondidos por trás da cobardia que lhes é habitual”.

Em Vila Real, os estudantes fizeram uma marcha silenciosa em honra das vítimas e o funeral levou muita gente. Até o comércio e os serviços públicos fecharam.

No livro O Puto, Autópsia dos Ventos da Liberdade, do jornalista Ricardo Saavedra (Quetzal, 2014), Manuel Couto Viana fala acerca desse facto. Era chamado “o puto”, sendo o seu nome de guerra “comandante Paulo”. O livro conta as aventuras de guerra deste homem, em África, em Angola. Chegou a Portugal após o 25 de Abril e foi apresentado, como ele diz, a “indivíduos ligados ao MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal] e ao ELP” [Exército de Libertação de Portugal, grupos de extrema-direita então existentes no país]. Seguindo o relato do livro citado, este homem, acompanhado de outro, chegou a Vila Real e juntaram-se-lhes mais dois homens. Qual era a razão do encontro?

“(…) o objectivo era o carro de um padre comunistóide de Trás-os-Montes que usava boina à Che e, embora fosse professor, precisava de lição à antiga, um susto à maneira; (…) dois deles …encaminharam-se para o Simca 1000 (…) A porta de trás do lado do pendura, contra o previsto, nem sequer estava trancada. O embrulho com o engenho, previamente regulado para explodir três horas e meia depois do presumível arranque, foi pousado no chão (…) e a porta fechada sem barulho.”. Tal como os quatro homens tinham previsto, o padre saiu do liceu, onde estava a dar aulas à noite, esperou uns momentos pela acompanhante e seguiram viagem.

Num artigo escrito pela jornalista Carolina Reis, no semanário Expresso de 14 de Dezembro de 2019, com declarações de Diogo Pacheco de Amorim, vice-presidente do partido Chega, é referido o assassinato do Padre Max e Maria de Lurdes Pereira. A jornalista escreve que se atribui ao MDLP “a responsabilidade do ataque à bomba que matou o padre Max e Maria de Lurdes Pereira”. Diogo Pacheco de Amorim rejeita esse tipo de acções: “(…) Era uma altura conturbada e o país estava à beira de uma guerra civil. É natural que tenha havido excessos dos dois lados, também da extrema-esquerda; mas julgo que foram atos isolados e feitos à revelia do gabinete político do MDLP, em Madrid, onde eu colaborava na altura. (…) O comandante Alpoim Galvão é que era o chefe operacional da secção militar.”

Este crime, ordenado por uns e executado por outros, destruiu a acção cívica do Padre Max e de Maria de Lurdes: ensinar a ler e a escrever homens e mulheres do campo analfabetos. Num momento importante da vida do nosso país.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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