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Foto retirada do vídeo do youtube "Caso Padre Max e Mª de Lourdes | Primeiro ataque bombista em Portugal"

50 anos depois do atentado

Padre Max, um pedagogo interpelador e generoso

| 02/04/2026

https://www.youtube.com/watch?v=lAmQcewzWjc

Passam nesta quinta-feira, 2 de abril, 50 anos do assassinato do padre Max. Ele era o oposto do “sistema” eclesiástico e político e deu a vida por isso, mesmo já em tempos de liberdade. Ele e uma aluna, Maria de Lurdes, 18 anos, com quem tinha estado a trabalhar na alfabetização de trabalhadores morreram na explosão de uma bomba que mãos criminosas colocaram no seu carro. A sua pessoa, enquanto professor, padre e pedagogo é aqui recordada por quem com ele conviveu, ainda que pontualmente, nos seus últimos tempos em Vila Real.

 

Na primeira vez que tive uma longa conversa com o padre Max, ali por dezembro de 1975, ele contou-me como concebia as aulas e o seu trabalho na escola. Para ele a educação escolar ou servia para reconhecer as pessoas que tinha diante de si e as ajudar a abrir horizontes e a serem interventivas, ou então não fazia sentido.

E deu-me, ali mesmo, um exemplo que nunca mais esqueci, que já usara em Lisboa, nas aulas de Religião e Moral no Liceu Padre António Vieira. Pegava em canções que estavam em voga e trabalhava com e sobre elas nas aulas. A canção francesa fazia então sucesso também por cá. Um exemplo foi On a tous un banc, un arbre ou une rue / où l’on va bercer nos rêves …

(todos temos um banco, uma árvore, uma rua / onde vamos embalar os nossos sonhos…”), de Séverine, que ganhou, pelo Mónaco, o Eurofestival de 1971 e alcançou os tops em vários países nos anos seguintes.

O padre Max, que viria a ser também professor de Português e Francês, pegava em documentos deste tipo, não apenas como material de apoio linguístico, mas para colocar os alunos perante a sua relação com o texto, lançando, en français, perguntas como estas: onde ou como embalamos os nossos sonhos? Será que temos todos um banco, uma árvore ou uma rua para o fazer? E, afinal, quais são os nossos sonhos? Pegando no conjunto do texto, outros aspetos poderiam surgir: porque é preciso partir para construir um futuro? E quem pode, de facto, escolhê-lo? E é a riqueza ou a glória que buscamos? E que nos resta de “comum” se nada partilharmos?

Vera Constantino, que o teve como professor de Francês e Português, no liceu, traça do trabalho docente do padre Max uma visão mais larga:

“Achava as aulas dele fascinantes e imperdíveis”, confessa aquela que é hoje uma professora aposentada e uma ativista de várias causas, em depoimento para o 7MARGENS. Além disso, acrescenta, “foi na sua biblioteca pessoal que descobri Mounier, Morin, Merton, Sartre e outros autores”.

 

Ele “acendia o gosto pela vida”

Poema da canção de Séverine escrito pela mão do padre Max. Foto: DR

Ao referir-lhe o que o padre Max me tinha contado sobre o uso da canção de Séverine, ela reforçou:

“Fez-me lembrar que recorria à educação pelas artes: pela poesia/canções da época. Era muito por conteúdos desses que ele descerrava mentalidades, incitava sonhos e suscitava espírito de aventura, para não dizer que acendia o gosto pela vida”.

Além disso, acrescenta a antiga aluna, Max desafiava os alunos a recriar textos, individualmente ou aos pares, a encenar escritores clássicos, recorrendo algumas vezes ao método do Teatro do Oprimido. Isso, naturalmente, “embaraçava a maioria de nós, tolhidos e nada habituados a manifestar-nos”. A Vera Constantino, estas experiências geravam “espanto e uma força interior que me era desconhecida em Vila Real”. E remata desta forma: “Foi bastante por aqui que ele mexeu comigo: era novidade naquele meio agreste e de sentido único”.

Ao longo destes anos, em que o meu próprio trajeto, inclusivamente como jornalista, andou próximo do mundo educativo, cheguei a partilhar com bastantes pessoas as recordações que guardava do padre Max como formador e a sua capacidade de gerar processos de desenvolvimento pessoal e de consciência do mundo. Até que, há alguns anos, alguém que já não consigo identificar, me passou um caderno de sumários de uma aula de Francês do 6º ano (equivalente, hoje, ao 11º) do padre Max, do ano letivo de 75/76, escrito por uma aluna sua, que desconheço e que, por isso, e por facilidade, aqui chamarei Madalena. O caderno vinha acompanhado de três cartas que ele lhe escreveu para Vila Real, nos anos em que estudou e deu aulas em Lisboa. A ‘oferta’ deveu-se à minha vontade, também partilhada, de, um dia, escrever algo sobre o Max pedagogo. E não é que, numa das cartas, vinha o texto da canção de Séverine, numa folha em papel azulado, com a sua letra inconfundível?

Max, no entanto, não se ficava pelas canções. Analisando esse caderno de sumários, logo na segunda aula (a primeira foi, como é da praxe, de apresentações), a turma foi convidada a debruçar-se, em jeito de primeiro contacto, com o poema Sagesse, de Paul Verlaine, um autor que irá voltar à sala três semanas depois, com nova poesia, e ainda Baudelaire, Victor Hugo…. Madalena copiava os textos em francês para o seu caderno e, provavelmente, a pedido do docente, assinalava palavras-chave, figuras de estilo, segundos sentidos, etc. Nas aulas seguintes, regressa-se a alguns desses textos, para trabalhar aspetos gramaticais que deveriam ser requeridos pelo programa da disciplina.

 

Aulas de Francês com Simenon, Gil Vicente, Sarte ou S. Vicente de Paulo

Padre Max: Preparação das aulas. Foto: DR

Ao longo das 47 leçons sumariadas, são notoriamente diversificados os recursos culturais a partir das quais o padre Max desenvolve os conhecimentos de francês. Com Georges Simenon, por exemplo, que não escreveu só a coleção de Maigret, ele trabalha temas como a crise de identidade, a fuga à rotina, a respeitabilidade burguesa ou os excluídos.

Trouxe à baila São Vicente de Paulo, que desenvolveu a sua ação socio-caritativa em Paris, no séc. XVII, e que chamou a atenção para as crianças abandonadas (ou, na linguagem que utilizava, crianças encontradas), para pôr o conceito de caridade em tensão com o de justiça social.

Foi ainda buscar o nosso Gil Vicente, mas também Sartre e Ionesco, para abordar o fenómeno teatral (mise en scène ligada aos problemas da vida e da sociedade) e a partir daí o teatro popular, a dimensão política do teatro.

Um aspeto que é recorrente nos apontamentos das aulas tomados por Madalena é a arte de fazer perguntas e a atenção ao desenvolvimento de um pensamento crítico: para que serve a escola? Porque há ricos e pobres? É possível o amor sem igualdade? O Evangelho é também convocado: “Não há judeu nem grego, nem escravo nem senhor…”.

É caso para perguntar se, com tantos contextos, temas e problemas, os alunos aprenderiam francês. Mas também se pode e deve questionar se um caminho deste tipo não será bem mais motivador para aprendizagem do que a tradicional rotina pedagógica.

Max era muito sensível à ação. Não bastam as ideias, por muito brilhantes ou avançadas que sejam. Na carta que escreve a Madalena em novembro de 1972, ele procura tranquilizar um pouco a sua destinatária que teria desabafado sobre o modo como os adultos (os pais?) reprimem os mais novos, dizendo-lhe que eles muitas vezes “não têm culpa de ser como são”, já que “não têm capacidade de discernir melhor”; “viveram outra época e não suportam a nossa”. E alertava: “Não podemos gritar só, mas cumprir em consciência o que gritamos; mais justiça, sendo justos; paz, não fazendo guerra; liberdade, não oprimindo o outro; verdade, nada camuflando, não mentindo; amor, amando à maneira humana, não dos animais, não odiando, não procurando só o nosso bem (…) Este é o programa que qualquer jovem deve seguir para poder criticar, para poder, amanhã, ser diferente dos que hoje critica”.

Numa outra carta não datada (pelo carimbo do envelope vê-se que é de 1973), Max refere que lhe custa compreender “como jovens de hoje com mais ou menos cultura façam aceção de pessoas”. E desenvolve:

“O tempo das eminências, das excelências, senhores, já acabou. Era feudalismo. Hoje, sem [que haja] menos respeito, há mais igualdade. Não é o dinheiro, cultura, raça, idade que deve ‘catalogar’ as pessoas. Isto é sinal de subdesenvolvimento. Infelizmente nem todos veem assim. Pertence aos jovens reagir. LUTAR”. E acrescenta. “É no serviço que se mostra o nosso cristianismo… quanto mais o sacerdócio!”.

Foi essencialmente nesta dimensão de serviço que Max apostou. Por alguma razão ele sempre assumiu a sua condição de padre. Em todos os documentos que guardo dele, nunca se assume como doutor, licenciado, ou outro qualquer pergaminho mundano, que de resto, julgo que não tinha. Apenas Pe Max, mesmo nas cartas privadas. Levou uma vida simples. Basta dizer que nunca teve uma casa própria para morar.

 

Candidatura a deputado: gesto de proximidade

Padre Max, assinatura estilizada, que assinava sempre como padre.

É bem emblemático do que foi a sua vida que tenha sido assassinado precisamente numa atividade voluntária que desenvolvia na freguesia da Cumieira, concelho de Santa Marta de Penaguião, que visava a promoção de trabalhadores em meio rural, sobretudo jovens, em busca de uma vida melhor. Na única vez em que o Max me levou lá, achei até que ele parecia desvalorizar o aprender a ler e a escrever, ao acentuar o quanto gostava daquelas horas semanais de convívio e em que ele se sentia a aprender também. Falavam do dia a dia, das notícias e do mundo e essa relação era o terreno e o material para entrar no universo das palavras e das frases, para dizer e registar por escrito a vida e o mundo.

E, nesta atividade alfabetizadora, é justo salientar o papel da Lurdes Correia, que era não apenas uma aluna sua colaboradora, mas uma entusiasta desse trabalho de promoção das pessoas.

Os setores que hostilizaram e temeram o padre Max não o fizeram por ele ser um combatente político, um intriguista, menos ainda um radical violento. Onde o Max estivesse, havia, sobretudo, preocupação com a dignidade das pessoas, com os seus direitos. Havia humanidade e alegria, propensão para a ação para ajudar o próximo. E uma coisa foi evidente: ele motivava e entusiasmava os mais jovens, porque se fazia próximo deles, sem deixar de ser, com eles, uma pessoa adulta. E isso viu-se bem no funeral e na manifestação que se lhe seguiu, há 50 anos.

A candidatura como independente pela UDP foi um gesto generoso e solidário. Ele estava bem consciente de que seria suspenso de funções ministeriais enquanto durasse o exercício de funções políticas, mas assumiu plena e publicamente a decisão, porque entendeu que, naquele contexto, era mais importante estar próximo dos trabalhadores com quem se dava (chegou a fazer casamentos e batizados) e fazer ouvir as suas reivindicações, do que cumprir uma norma da Igreja a que pertencia. Sei, por ele, que a conversa que teve sobre o assunto com o seu bispo foi franca e cordial, porque a verdade é que o bispo, no fundo, o admirava.

Visto à distância, é tempo de a Igreja reconhecer que Max não foi um filho tresmalhado. Estou mesmo convencido de que Jesus o teria convidado para o seu grupo de seguidores. Na verdade, chamou-o, mas os seus não o reconheceram.

Nota final: Há seguramente muitas pessoas – na cidade de Vila Real e na região, mas também em Lisboa e porventura noutras partes do país – que foram alunas, amigas, admiradoras ou críticas do padre Max cujo testemunho é importante para reconstituir o puzzle de uma vida em que faltam certamente peças, quem sabe importantes. O 7MARGENS está interessado em receber e considerar a publicação desses testemunhos.

 

Manuel Pinto

 

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