Dedicatória

Padre Roque Cabral, SJ: um inolvidável Sicómoro

| 5 Jul 21


Foto © Vecteezy. Árvore de sicómoro: Ficus sycomorus, conhecida pelos nomes comuns de sicómoro sicômoro, figueira-doida ou figueira-do-faraó é uma espécie de figueira de raízes profundas e ramos fortes que produz figos de qualidade inferior, cultivada no Médio Oriente, e em partes de África há milénios. A árvore é por diversas vezes citada na Bíblia, tendo o seu nome vulgar na maioria das línguas europeias derivado do hebraico shikmah através do grego sukomorea.

Ficus sycomorus é uma árvore que cresce até aos 20 metros de altura e aos seis metros de largura, desenvolvendo uma copa densa e arredondada. (…) As folhas têm o formato de coração, com um ápice arredondado, com até 14 cm de comprimento e 10 cm de largura, inseridas em espiral em torno dos ramos. As folhas são rugosas e ásperas, a página superior é verde-escuro, a inferior mais clara e com venações amareladas proeminentes.  O fruto é um figo comestível, 2-3 cm em diâmetro, amadurecendo de verde-baço para amarelo ou avermelhado. Os figos crescem em grupos espessos nos ramos mais jovens ou isoladamente na axila das folhas. A planta floresce e produz figos todo o ano, mas com um máximo no período de julho a dezembro. (Dados retirados da Wikipedia.)

 

Escrevi há dias ao padre José Frazão SJ, ex-provincial dos jesuítas, sobre a perda que representava para mim a partida do padre Roque Cabral para Deus. Tenho a certeza de que continuará a cuidar de nós numa outra dimensão, a da plenitude, e recordei a caminhada espiritual que fiz com ele. Se o dom da fé que hoje tenho – cheio de interrogações… – me foi transmitido com o leite da minha mãe, este dom foi alimentado e ampliado ao longo dos anos por figuras tutelares, como a do “meu querido Padre Roque”, como eu carinhosamente o chamava.  Em resposta ao meu gesto, o padre José Frazão afirma: “Os sicómoros têm muitas formas e nomes. Para si, o P. Roque foi sicómoro. Dou graças a Deus consigo por isso mesmo. Que a entrega honesta do P. Roque à vida e à missão, sempre com uma mente fresca, continuem a inspirar-nos e ele goze, agora, da alegria plena junto do Pai”.

 

As folhas do sicómoro têm o formato de um coração com um ápice arredondado (…), inseridas em espiral em torno dos ramos.

Quando, após o Concílio do Vaticano II iniciado pelo “bom Papa João”, o Papa Paulo VI assinou a encíclica Humanae Vitae, nos meus 18 anos apaixonados pus tudo em questão e afastei-me da prática cristã. Mas, nessa altura, afirmei que “Cristo não desistiu de mim”. Tinha acabado de entrar na escola de educadoras Paula Frassinetti no Porto, então dirigida por uma notável doroteia, a irmã Maria de Lurdes Maia.

Logo no 1º ano do curso ela propôs que fizéssemos um retiro de silêncio com o seu grande amigo, o padre Roque Cabral. Apesar de experimentar alguma dificuldade com a modalidade silêncio, as meditações com o padre Roque foram extraordinárias. Moveu-me o seu amor por Cristo Jesus. Passou praticamente os três dias a falar-nos e a rezar connosco a passagem do evangelho de João sobre a Samaritana (Jo 4, 5-43). Numa conversa mais pessoal com ele, o padre Roque insinuou: “A Teresa vai gostar de ler todo o Evangelho de S. João. É o Evangelho do Amor.” Assim fiz. “Converti-me” literalmente a este Evangelho e hoje, entre muitos livros, tenho uma estátua de S. João Evangelista na minha sala, oferecida por um grupo de amigos/as que conhecem a minha devoção.

 

Padre Roque Cabral

 Uma espécie de figueira de raízes profundas e ramos fortes que produz figos

O padre Roque tornou-se um reconhecido professor de Ética na Faculdade de Filosofia, em Braga. Formou gerações de jesuítas. Soube depois que fora condecorado com o grau de comendador da Ordem da Instrução Pública, por Mário Soares, então Presidente da República (10 de junho de 1990). Telefonei-lhe: “Merecido!”

Sempre que ia ao “meu” Norte com tempo disponível batia-lhe à porta e conversávamos sobre alguns dos  dilemas éticos que ia vivendo. Mas falávamos sobretudo sobre o amor incondicional de Deus por nós, através de Jesus Cristo. Mais tarde, regressada a Portugal em 1973 com uma pós-graduação feita Madrid, conversei com ele e com a Irmã Maia sobre um convite que recebera para incorporar o corpo docente da Escola Normal de Educadoras de Viana do Castelo – criada ao abrigo da Reforma Veiga Simão – onde leccionei durante seis anos. Formei gerações de educadoras de quem ainda hoje sou amiga. Juntas começámos a lançar jardins de infância em meio rural que, posteriormente, foram incorporados na rede pública.

No 25 de Abril de 1974 caminhámos por itinerários diversos: eu pugnava pelos jardins de infância públicos, ele pelas escolas dos jesuítas. Relembro as assembleias sindicais no agora pavilhão Rosa Mota, no Porto, em que representava então as educadoras na direção do sindicato. Cansada por intermináveis horas de debates e moções, via o Padre Roque – resistente, íntegro, inabalável… –, a deslocar-se para o fundo do pavilhão onde se punha em posição sirshana de yoga (na vertical, cabeça invertida) para descansar e irrigar o cérebro e poder continuar a sua poderosa argumentação jesuítica que desconcertava tudo e todos.

Igual a si próprio, “o meu querido padre Roque”! Sim, foi o sicómoro a que trepei esperando que passasse Jesus e – como fez com Zaqueu – me pedisse para entrar na minha casa (Lc 19, 1-10).

 

É uma árvore que cresce até aos 20 m de altura e aos 6 m de largura, desenvolvendo uma copa densa e arredondada

Cerca de dois anos antes deste interminável confinamento visitei o padre Roque na residência de jesuítas mais velhos, em Braga. Mais curvado, sempre com o mesmo espírito arguto e rápido, profundo, um inigualável sentido de humor, contou-me o que andava a escrever e mandou-me posteriormente um email com dois artigos. “Agora vou celebrar a missa consigo”,  terminou. Deslocámo-nos para a capela onde concelebrou com vários jesuítas velhinhos… e eu. Abençoou-me à partida, como sempre fazia. Levado por uma antiga aluna, e a nosso pedido, ainda se deslocou ao Porto onde deu a extrema-unção à sua amiga de sempre, a irmã Maria de Lurdes Maia.

No passado dia 30, na Igreja de S. Roque no Largo da Misericórdia, participei na missa de ação de graças pela vida do padre Roque, presidida pelo padre Miguel Almeida SJ, atual provincial dos Jesuítas.  Contou à família e aos amigos episódios vários da vida do padre Roque. Episódios que demonstravam, mais uma vez, a dimensão humana e santa deste homem de Deus.

 

 [O sicómoro] floresce e produz figos todo o ano, mas com um máximo no período de julho a dezembro

Agradeço ao meu “sicómoro” o caminho de Deus através de Jesus Cristo de que ele foi peça angular.

Em 1975, aconselhada pela irmã Maia, com a bênção do padre Roque, e mobilizada pelo trabalho de alfabetização de mulheres, escolhi fazer parte do Movimento do Graal. Aqui continuo.

O Movimento do Graal é hoje “o meu sicómoro”.

Querido Padre Roque: Bem haja pela sua vida na minha vida!

Que esteja a gozar a plenitude de Deus!

 

Teresa Vasconcelos é professora do Ensino Superior e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)

 

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