O antigo padre João da Cruz Nunes marcou a vida da Igreja e da sociedade da Madeira com a comunidade dos “padres do Pombal”. A sua morte, ocorrida há um mês, foi na ocasião noticiada pelo 7MARGENS.
Pela importância do seu trabalho, do debate e das propostas que ele lançou, evoca-se aqui a sua história e as marcas que ele deixou nos círculos e grupos por onde circulou. A primeira parte deste artigo, publicado inicialmente no Funchal Notícias, pode ser lida aqui e a segunda parte nesta outra ligação.
Os títulos e subtítulos são da responsabilidade do 7MARGENS.
Com a saída, a 28 de Agosto de 1972, do bispo D. João Saraiva da diocese, o seu lugar viria a ser preenchido, até à nomeação do sucessor, pelo cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, vigário capitular da diocese que fora director do Jornal da Madeira, entre 6 de Dezembro de 1959 e 21 de Outubro de 1968.
Durante a vacatura diocesana – até 18 de Março de 1974 –, o grupo de padres que se identificou em plenitude com o espírito da doutrina do Concílio Vaticano II alimentou o desejo, a esperança de que a diocese do Funchal fosse entregue a um prelado que encarnasse sem reservas esse espírito e que pudesse introduzir uma lufada de ar fresco numa Igreja que permanecia em geral muito fechada sobre si própria, muito pouco atenta e desperta para os sinais dos tempos e em que o conservadorismo era claramente predominante.
É imbuído desse espírito e com esse objectivo que um grupo de padres decide encontrar-se no Santo da Serra [seis quilómetros a oeste de Machico], num espaço pertencente à diocese, e partir para a elaboração de um documento que viria a ser entregue no final desse ano de 1972 ao então núncio apostólico em Portugal, D. Giuseppe Maria Sensi, em audiência concedida para o efeito.
Nesse documento, redigido a várias mãos, nomeadamente através de João da Cruz, Jardim Gonçalves, Paquete de Oliveira e Rufino da Silva, os 34 signatários (23 sacerdotes e 11 leigos) apontavam o perfil que, no seu entender, deveria ter o sucessor do novo bispo de Coimbra [para onde João Saraiva tinha sido nomeado].
O semanário Expresso, na sua edição nº 57 de 2 de Fevereiro de 1974, tentou publicar esse documento de sete páginas sobre o vazio na diocese, mas a censura cortaria grande parte do texto. Contudo, podia ler-se que “a Madeira espera um prelado capaz de imprimir um ritmo novo e dinâmico à Igreja e pôr em prática as directrizes do último Concílio, ainda desconhecidas na sua grande parte, na ilha”.
Uma esperança defraudada

Bispo Francisco Santana: o novo bispo tudo haveria de fazer para se livrar do citado sector de sacerdotes. Foto: Direitos reservados.
Como a história haveria de evidenciar, os desejos e esperanças formulados na carta entregue na Nunciatura seriam totalmente defraudados e o novo bispo tudo haveria de fazer para se livrar do citado sector de sacerdotes.
Francisco Santana, o novo bispo da diocese, seria nomeado pela Santa Sé a 18 de Março de 1974 e ordenado, na Sé Patriarcal de Lisboa, a 21 de Abril desse ano, precisamente quatro dias antes do golpe militar que pôs fim ao regime fascista em Portugal. Nesse mesmo dia, o órgão da diocese, publicou uma «Saudação» do novo bispo a “todos os leitores”, em que o mesmo, aludindo à sua relação com o mar (fora director nacional do Apostolado do Mar), declara: “O Santo Padre, em vez de um «Pastor», vai enviar-vos um «Marinheiro»”.
Na homília proferida na ocasião, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Ribeiro, sublinharia que “o esforço pastoral do bispo deve ser princípio e factor de união, de concórdia e de paz”, bem como “respeitar e promover um pluralismo legítimo dentro da Igreja”.
Nesse mesmo dia da ordenação de Francisco Santana, também no Jornal da Madeira, um dos membros do Cabido diocesano, o cónego Agostinho Figueira de Faria, anteveria o que seria o seu mandato episcopal, sentenciando: “Nada sem o bispo, nada contra o bispo. Quem está com o bispo está com a Igreja e com Cristo, portanto. Quem não obedece ao bispo, quem não está com Ele na doutrina, na disciplina, na Pastoral, está contra a Igreja. E, portanto, qualquer que seja o rótulo com que queira acobertar a sua posição e as suas atitudes, já está fora da unidade da Igreja. A conclusão é evidente.”
A 1 de Maio de 1974, dia em que celebrava o seu aniversário, o Jornal da Madeira publicaria um editorial onde evidenciava continuar preso à terminologia do passado: “Fiéis às características próprias deste Jornal, envidámos todos os esforços por servir a causa a que nos propusemos defender, Deus, Pátria e os interesses da nossa terra”. O articulista (texto não assinado), remataria com uma proclamação que o futuro desmentiria em toda a linha: “Jamais daremos guarida em nossas colunas a qualquer gesto ou palavra que atente contra a dignidade de quem quer que seja, ou contra os princípios cristãos que nos orientam”.
“Inconformados com a irresponsabilidade” do jornal da diocese

Uma das primeiras edições do Comércio do Funchal logo após o 25 de Abril: a pergunta podia valer também para a Igreja Católica, mas cedo o bispo Santana mostrou ao que vinha. Reprodução a partir da Hemeroteca Digital de Lisboa.
Também a 1 de Maio, na sua primeira edição não sujeita a «exame prévio», o semanário Comércio do Funchal, num artigo sob o título “O oportunismo e comportamento cúmplice da «informação» madeirense” critica violentamente o posicionamento adoptado pelos dois diários locais (DN e JM) durante o regime deposto e, referindo-se especificamente ao órgão da diocese, escreve: “Seus últimos e mais influentes directores tiveram fortes ligações com a política do regime fascista: o cónego dr. Agostinho Gonçalves Gomes, deputado à Assembleia Nacional, durante duas legislaturas; o cónego dr. Maurílio de Gouveia, actualmente bispo de Sabiona e auxiliar do Patriarcado de Lisboa, capelão particular do Palácio de São Lourenço, durante o governo ditatorial fascista do coronel Braamcamp Sobral.
“As ligações com os dirigentes da administração local destes últimos dez anos, sobretudo, conseguida e realizada através do movimento dos Cursos de Cristandade, era pública e notória. A bajulice, a mentira, o encómio barato aos governantes do derrubado regime, sucediam-se diariamente.”
Como que em resposta, na edição de 7 de Maio de 1974, o Jornal da Madeira, através de um seu conhecido jovem redactor, José António Gonçalves, acusaria jornalistas do Comércio do Funchal de, em Câmara de Lobos, terem instigado à revolta a população, designadamente contra o posto policial e a secção de finanças – uma reportagem que teve o mérito de evidenciar o que seria o paradigma da “informação” veiculada no pós-25 de Abri pelo órgão da diocese, ao fim e ao cabo muito semelhante à praticada até então.
No dia seguinte, o Diário de Notícias local, publicaria uma «comunicação» assinada por 16 sacerdotes da diocese do Funchal, todos eles signatários da já mencionada carta entregue em 1972 ao Núncio Apostólico, manifestando descontentamento com o rumo traçado pelo órgão da diocese. O documento fora inicialmente entregue pelos drs. Cruz e Rufino e pelo padre Mário Tavares ao então director interino do J.M., padre dr. Abel Augusto da Silva, informando que o mesmo seria também distribuído aos “diferentes órgãos informativos”.
Director interino que, telefonicamente, comunicaria que “ao contrário do inicialmente prometido”, “por motivos posteriores”, “não era possível tal publicação” – a recusa fora ordenada, a partir de Lisboa, por Francisco Santana.
Nessa «comunicação», os signatários declaravam-se “inconformados com a atitude ambígua e irresponsável que a orientação do J.M. vem revelando, e porque a consideram em nada servidora dos interesses do povo madeirense”, exigiam que “essa orientação seja modificada imediatamente”. Subscreviam o texto Manuel Marques Luís, Mário Tavares Figueira, Gabriel Lino Cabral, Francisco Sidónio Figueira, José Maria Araújo, João Arnaldo Rufino da Silva, Rafael Maria Andrade, João da Cruz Nunes, João Ferreira, Tomé Célio Sumares, Gabriel Arcanjo de Sá, José Vieira Pereira, José Martins Júnior, José Manuel Paquete de Oliveira, Silvério Aníbal de Matos e Emanuel Eleutério Figueira de Ornelas.
Publicação recusada

Imóvel da diocese do Funchal (ao centro) onde funcionou o Jornal da Madeira, na Rua Dr. Fernão de Ornelas. Foto © Nicolau Fernandez.
O órgão da diocese não só recusou a publicação da referida «Comunicação de um grupo de sacerdotes», como no dia seguinte (9 de Maio), publicaria uma resposta, assumida como «Declaração dos trabalhadores», que indigna o grupo de sacerdotes por visar pessoalmente alguns deles, aludindo, designadamente, a “um antigo chefe de redacção e colaboradores do nosso diário, em período de vigência do Governo do Prof. Oliveira Salazar, o que nos dispensa de entrar em considerandos de teor ideológico”.
O principal visado era o padre dr. Paquete de Oliveira que, intermitentemente, entre finais de 1960 e 1966, havia dirigido a redacção do matutino sediado na Rua do Seminário, 22. Mas não só, uma vez que no período mencionado outros sacerdotes tinham publicado artigos no J.M., nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Martins Júnior, Eleutério de Ornelas e José Maria Araújo. Mas o pessoal do J.M.responderia ainda directamente às exigências dos sacerdotes, referindo que a modificação da orientação do órgão da diocese “só pode e deve depender única e exclusivamente do Bispo da Diocese, em comunhão com a direcção e connosco”, ao mesmo tempo que declaravam que “não permitirão ingerências do exterior em qualquer dos nossos serviços que não sejam mencionados pelo Bispo do Funchal” e se uniam à volta do director interino, “em estreita e leal colaboração, só com ele dialogando em ordem à confecção do jornal, até decisão em contrário do Bispo da Diocese”.
Francisco Santana, que chegara ao Funchal a 9 de Maio, fizera questão de, como primeira acção pastoral, efectuar uma visita às instalações e oficinas do Jornal da Madeira, tendo na ocasião afirmado: “Embora tenha chegado tarde ao Funchal, não ficaria bem com a minha consciência se não viesse cumprimentar, ainda hoje, todo o pessoal do J.M.. Quero que seja este o meu primeiro passo para testemunhar a minha amizade e confiança a quem trabalha na Igreja sob a orientação da Igreja. Bem hajam os Redactores, o pessoal das Oficinas e dos Escritórios. A minha admiração ainda pelo seu Director-Interino pela competência e dedicação que tem demonstrado neste período difícil em que vivemos.”
Declarações que não deixavam margem para quaisquer dúvidas: o novo bispo caucionava a postura e orientação que vinha sendo impressa ao órgão da diocese e, por conseguinte, não partilhava das posições veiculadas pelo grupo de sacerdotes que havia contestado essa mesma orientação. Mais ainda: ficava obviamente claro que é com o respaldo do bispo que os trabalhadores do J.M. se envolviam no confronto público com o grupo de contestatários. Uma polémica que prosseguiria nas páginas dos dois diários locais ao longo de vários dias. E, quem no meio desta polémica, assinalando o aniversário do J.M., não se esqueceria de felicitar o órgão da diocese, seria o Voz da Madeira.
Um novo director

Busto do bispo Francisco Santana, na praça do Funchal com o mesmo nome. Foto © Nicolau Fernandez
Numa nota, o semanário dirigido pelo dr. Agostinho Cardoso era peremptório: “Os católicos madeirenses podem ir buscar facilmente às suas páginas, esclarecimento, formação intelectual católica e documentação para o estudo”. De resto, quando no final de Outubro, Francisco Santana revela Alberto João Jardim como o novo director do J.M., precisamente um destacado colaborador do citado semanário, ainda por cima sobrinho do que fora, durante largos anos, uma figura de proa na Madeira do regime deposto, o amigo do almirante Henrique Tenreiro nem sequer disfarçou a orientação que pretendia que o órgão da diocese prosseguisse: o grande objectivo era a politização dos leitores. Uma politização que ficava a cargo de um, até ao fim, adepto confesso da «evolução na continuidade» de Marcelo Caetano. Uma politização que, face ao curriculum de ambos, prelado e director, seria norteada por uma visão marcadamente conservadora e simultaneamente hostil a toda e qualquer corrente que se situasse, ainda que levemente, à esquerda.
Quase em simultâneo, é noticiado que o novo bispo nomeara o cónego Agostinho Gomes vigário-geral da diocese. Uma recondução, uma vez que o antigo deputado da nação vinha exercendo essas funções, na condição de vigário capitular. Uma nomeação cheia de significado e reveladora de que no seio da Igreja diocesana qualquer esperança de renovação estava definitivamente afastada. Tratar-se-ia, tão somente, de uma aposta na continuidade, mas, também, de um sinal de que os tempos para os organismos da Acção Católica seriam recheados de dificuldades e obstáculos, atendendo a que no passado recente (Fevereiro de 1974), o referido membro do Cabido comunicara à equipa executiva diocesana que, para ele (cónego Agostinho Gomes), “a Acção Católica na Madeira não existe”, “Nunca me foi dada conta da Acção Católica na Diocese”; “Quando o novo bispo vier que resolva”.
Ora, como se sabe, Francisco Santana encarregar-se-ia de, por diversas formas, demonstrar que não contava com a Acção Católica, ostracizando de modo especial os assistentes diocesanos dos organismos operários e rurais, ao mesmo tempo que recorria a outros meios de apostolado, designadamente ao denominado Movimento dos Jovens Cristãos da Madeira e aos Cursos de Cristandade.
No domingo seguinte (12 de Maio), Francisco Santana dirige a sua saudação pastoral “aos habitantes das ilhas da Madeira e Porto Santo e a todos os madeirenses dispersos por todo o mundo”. A mensagem é recheada de recados, dirigidos de modo particular aos sacerdotes que almejavam por uma Igreja renovada, mas também à sociedade em geral. A dado momento, proclamaria: “A Igreja não pode ser conduzida por crianças imaturas ou por gente que coloca a sua vaidade ou os seus interesses mesquinhos, ou os seus ressentimentos, acima da finalidade com que Deus mantém a Igreja no mundo. É o Espírito Santo que conduz a Igreja e quem governa o mundo. É Cristo o único Pastor de todos nós. Saibamos ser fiéis ao Espírito e obedecer ao Pastor”.
Um bispo contra os espaços de liberdade

Rua dos Ferreiros, onde funcionou o Centro Académico (em dois lugares separados, masculino e feminino). Foto © Nicolau Fernandez
Nesse mesmo dia, à noite, em nova “Saudação”, desta feita dirigida ao “Presbitério funchalense”, o bispo desfaz todas as dúvidas – se porventura ainda existissem -, relativamente a quem procurava visar com as suas palavras: o denominado grupo de “Padres do Pombal”, apostado na renovação da Igreja, e simultaneamente ter-lhes-á desfeito as ilusões alimentadas com a carta entregue ao núncio apostólico em Lisboa.
Debruçando-se sobre o papel dos sacerdotes enquanto “evangelizadores”, afirmou: “É curioso notar que a Igreja hoje, tem falta de padres e ao mesmo tempo tem padres a mais, pois que alguns tudo fazem menos que evangelizar, a tudo se dedicam até à política sem terem a vocação de políticos, aos problemas económicos, sem nada perceberem de economia e até ao ensino confundindo que eram, como ministros da Palavra de Deus, destinados a «ensinar» a mensagem de Deus e não as ciências humanas. Outros, que não nós, são mais competentes nesses assuntos e não necessitam ser padres, para desempenhar essas missões na sociedade.” Francisco Santana faria ainda questão de relevar a importância da união do presbitério em torno do Bispo, afirmando: “O Presbitério é o corpo sacerdotal, em íntima união com o Bispo, não isoladamente (torna-se inexistente o Presbitério!), mas em comunhão de amizade, reflexão e acção.”
Como anotou João da Cruz Nunes: “Quando se deu o 25 de Abril, o CCO era, com o Comércio do Funchal, um dos únicos pontos de encontro e de debate para aqueles que partilhavam de ideias de liberdade e justiça social. E é no CCO que se realizam alguns dos primeiros encontros em liberdade, com vista à criação e organização de movimentos de cidadania e até políticos” (página 279 do livro A Madeira na História…).
A professora Adília Andrade, fundadora do Sindicato dos Professores da Madeira, referindo-se a essas reuniões iniciais que culminariam com a formação da Frente Popular Democrática da Madeira (FPDM), disse-nos que, para si, a maior surpresa “foi a presença de muitos jovens operários, caixeiros, empregados de escritório, que orientavam reuniões, intervinham nos debates, argumentavam com conhecimento e desenvoltura, constituindo o verdadeiro núcleo aglutinador do movimento”. Adília Andrade acrescentaria: “O CCO contribuiu para a sua formação cívica, para o exercício de uma cidadania activa e consciente, no reconhecimento do valor social do trabalho e da justiça social. Preparou-os para a vivência numa sociedade democrática.”
Católicos em diferentes partidos

Manifestação de cristãos católicos contra a ocupação do edifício do Seminário da Encarnação por estudantes do Liceu Nacional do Funchal (atual Escola Secundária Jaime Moniz) e contramanifestação dos apoiantes dos estudantes, Funchal. 1974-11-01. Foto cedida pelo Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s.
A UPM (União do Povo da Madeira), o outro movimento político em que se envolveriam militantes com ligações ao CCO, nasceria a partir do Comércio do Funchal. Tratou-se de um movimento que desempenharia um papel de destaque na acção política, subsequente ao 25 de Abril, e que, dois anos depois, se dissolveria para integrar a UDP (União Democrática Popular).
À UPM aderiram, entre outros, os já mencionados Liberato Fernandes, Henrique Sampaio e Clarisse Canha, bem como Assunção Bacanhim e Conceição Pereira, enquanto que à FPDM se associariam, por exemplo, Sidónio de Castro, José Silva, José Manuel Almada, Aldónio Fernandes e Alcides Nóbrega. Mas, a envolvência política de militantes da Acção Católica e do próprio CCO não se limitou a esses movimentos, tendo atingido um leque partidário abrangente. Com efeito, do núcleo fundador do Partido Socialista na Madeira fizeram parte Arnaldo Capelo, João de Lemos Silva e Luís Marques de Sousa, enquanto Monteiro de Aguiar seria deputado à Assembleia Constituinte e Filipe Mota deputado eleito à Assembleia Regional em 1976. E entre os deputados do PPD/PSD dessas eleições constavam Augusto Nunes de Sousa, Agostinho Rodrigues e Serafim Vieira.
Ao longo dos tempos, o poder político e religioso “vendeu” a narrativa que a ocupação do Seminário da Encarnação fora instigada pelo dr. João da Cruz Nunes. A verdade é que esse edifício encontrava-se devoluto há já algum tempo e o ano lectivo no Liceu do Funchal não se iniciara ainda por as suas instalações não comportarem o acréscimo no afluxo de alunos verificado. Por outro lado, decorriam também há meses negociações entre a Junta Geral e a diocese para o aluguer do espaço. E esta, ao mesmo tempo que afirmava necessitar do mesmo para um conjunto variado de actividades, dizia-se disponível para vender o edifício do Seminário Menor. Ou seja, queria fazer um negócio financeiramente mais vantajoso do que o aludido aluguer, enquanto a Junta Geral alegava que não dispunha de verbas para tal.
O “crime” do dr. João da Cruz resultava do facto de ser professor do Liceu e, simultaneamente, membro da sua Comissão de Gestão, qualidade que o levava a não se furtar, ao contrário de outros, à assunção de responsabilidades na tomada de decisões. Mas, ao contrário do maldosamente veiculado num arrazoado publicado pelo bispo emérito Teodoro de Faria (JM de 6/10/2024), a ocupação daquele edifício foi deliberada num plenário de alunos do Liceu. De resto, uma diocese que pautasse a sua conduta por um mínimo de verdade e de transparência deveria ter tido a dignidade de pedir desculpas públicas por, durante mais de 20 anos, ter deixado ao total e completo abandono o citado prédio, até, finalmente, 50 anos depois, ter procedido ao negócio que sempre ambicionou efectuar! [sobre este caso, ver texto no 7MARGENS]
Padre João Cruz, um alvo a abater

Manifestação de cristãos católicos contra a ocupação do edifício do Seminário da Encarnação por estudantes do Liceu Nacional do Funchal (atual Escola Secundária Jaime Moniz) e contramanifestação dos apoiantes dos estudantes, Funchal. 1974-11-01. Foto cedida pelo Museu de Fotografia da Madeira – Atelier Vicente’s.
A partir desse momento, o dr. Cruz tornou-se um alvo a abater. Basta consultar o órgão da diocese desse período e ter tido conhecimento da hostilidade que lhe era movida por uma recém-criada Associação de Pais e Encarregados de Educação do Liceu, onde pontificavam destacados elementos do PPD de então, como António Aragão de Freitas, António Gil Silva e Acácio Augusto Matias.
O comportamento do bispo face aos acontecimentos do Seminário e à decisão imediatamente posterior de afastamento do Padre Martins Júnior da paróquia da Ribeira Seca, motivaram a divulgação, a 12 de Novembro de 1974, de uma tomada de posição por parte de “um grupo de padres e leigos cristãos católicos”, entre os quais João da Cruz Nunes, no qual esclareciam: “Para nós, a Igreja é fundamentalmente um serviço do povo, um espaço de liberdade onde, à luz do Evangelho, se podem descobrir os verdadeiros caminhos de libertação. E neste serviço do povo, importa saber constantemente discutir quais as prioridades que se impõem.
“Todos nós estamos a viver uma situação de emergência, para cuja solução temos de contribuir, independentemente de credos políticos ou religiosos. E não é deixando aos outros os seus problemas e pensando só nos nossos, que vamos construir um país e uma sociedade diferentes. Até porque os problemas são comuns, todos somos intervenientes e ninguém deles pode abster-se, refugiando-se numa posição cómoda e alienante. Os problemas do povo têm de ser os problemas e as preocupações da Igreja, se ela quiser, realmente, ser sinal de vida.
“A situação do ensino é das mais graves do nosso país e, como tal, também da nossa ilha. Para obstar a tal situação, fizeram-se negociações com vista à cedência do Seminário Menor. No entanto, criou-se uma situação de impasse, chegou o ano lectivo, as aulas não começaram e os estudantes, os mais directamente interessados na questão, resolveram, por si mesmos, ocupar o referido edifício.
“Não roubaram nem quiseram tirar nada, mas simplesmente pressionaram uma situação que, finalmente, veio a ser resolvida a seu favor e que muito mais cedo e sem atritos nem certos excessos, poderia ter sido solucionada, se de facto tivesse havido boa vontade.
“Os acontecimentos foram deturpados, sensacionalizados, servindo até de exploração do sentimento religioso do povo. Gerou-se uma situação que reputamos de grave. As implicações não se podem prever claramente. Nasceu um clima de tensão e de divisão entre o povo e entre os próprios católicos.”
E, sobre o novo foco de conflito no seio da Igreja diocesana, entre o bispo e o pároco e paroquianos da Ribeira Seca, o referido grupo assumia: “Não podemos também deixar de denunciar o processo seguido em relação ao padre Martins e ao povo da Ribeira Seca. Ninguém deve ser castigado, sem primeiro ser ouvido. E sobretudo o povo tem sempre uma palavra a dizer. Para nós, não é assim que se vive o cristianismo. A nossa esperança está numa Igreja, verdadeira luz do mundo, libertadora dos povos e fiel seguidora do Evangelho.”
“O quartel-general revolução”, segundo João Jardim

Rua do Pombal, onde se situavam o Centro de Cultura Operária e a casa dos “Padres do Pombal”: para o cónego Agostinho Figueira de Faria, esta última era “um covil de comunistas”. Foto © Nicolau Fernandez
A Comissão de Gestão do Liceu do Funchal, eleita a 6 de Junho de 1974 – presidida pelo dr. Jorge Atouguia – demitir-se-á no início de Março de 1975 e, entretanto, o dr. Cruz pede a transferência para a Escola Preparatória da Calheta. Contudo, a hostilidade para com o grupo dos “Padres do Pombal”, não só não desvanece, como acentua-se. Atingirá, aliás, foros só freudianamente explicáveis, ao ponto de o jornalista Luís Calisto, no livro Achas da Autonomia ter escrito esta preciosidade (página 97): “Das suas análises diárias, Jardim (AJJ) retira a ilação de que a promiscuidade que vê na esquerda não é casual. «Está visto que eles têm um comando unificado, que só pode ser a casa do Pombal». O então líder refere-se à residência na rua do Pombal dos padres católicos afectos à FPDM, convencendo-se de que «ali há padres mais influentes na coordenação das acções da esquerda do que o próprio Paquete de Oliveira».
Em determinada fase, não existem dúvidas que façam hesitar Jardim: há reuniões naquela casa em que os representantes das três principais formações de esquerda (apontadas por AJJ como sendo o PS, o PCP e a UDP) recebem ordens integradas num plano de actuação conjunta. «Temos então ali o quartel-general da revolução», alegra-se com a descoberta, «pois bem, esse começa a ser o objectivo de guerra prioritário!»” – Alberto João Jardim era antigo redactor da Voz da Madeira que pela vida fora vangloriou-se, bastas vezes, dos ensinamentos obtidos aquando do serviço militar na secção de acção psicológica, lançaria mão, como é sabido, de outras teorias da conspiração, não menos hilariantes, como a que envolveria uma tríade composta por Bush, Maçonaria e Trilateral. Ou seja, começaram cedo os delírios. No caso em apreço, por pouco não ocorreu uma tragédia, como se verá adiante…
Analogamente, o cónego Agostinho Figueira de Faria que em 1968 proibira a leitura do Comércio do Funchal pelos alunos do Seminário Maior referia-se à casa dos «Padres do Pombal» como sendo “um covil de comunistas”.
A 1 de Janeiro de 1975, o Diário de Notícias local publicaria com destaque, na sua primeira página, um artigo da autoria de João da Cruz Nunes. Um texto onde o dr. Cruz – como era conhecido entre os leigos que com ele mantinham um contacto próximo – explanava que o conceito de paz é muito mais do que simplesmente ausência de guerra, e, simultaneamente, identificava o longo caminho que faltava (falta) percorrer para edificar uma sociedade assente na justiça e na igualdade entre os homens. Um texto cujo conteúdo revelava também porque é que o então ainda assistente dos organismos operários da Acção Católica constituía um incómodo para os sectores mais retrógrados da sociedade madeirense, ao ponto de ser alvo de dois atentados bombistas – o primeiro, a 11 de Novembro desse ano de 1975, visando a casa onde morava com mais três sacerdotes católicos e o segundo, a 14 de Janeiro de 1976 que provocaria a destruição do seu automóvel, um Volkswagen. [ver 7MARGENS]
Paz e luta

Sede actual do Diário de Notícias da Madeira, na Rua Dr. Fernão de Ornelas: João Cruz publicou neste jornal onde identificava paz e luta como “conceitos aparentemente contraditórios e, na realidade, inseparáveis”. Foto © Nicolau Fernandez
Sob o título, «Construir a Paz – Construir o Mundo», o artigo do ainda sacerdote, poderia perfeitamente ser redigido hoje, uma vez que se trata de uma análise que permanece actualíssima. A dado passo, escreve: “Paz e luta. Dois conceitos aparentemente contraditórios e, na realidade, inseparáveis. Porque a paz, para muitos, pode ser sinónimo de ausência de guerra, (des)ordem estabelecida, descanso, quietude e despreocupação, satisfação, enfim, de instintos e egoísmos estéreis e desumanos. Mas, para além deste conceito puramente estético e individualista, ela é sobretudo o resultado dum compromisso assumido com os homens, um sentimento verdadeiro de satisfação pelo dever cumprido, uma dinâmica que faz projectar o homem no caminho do futuro (…). Todos parecem aspirar à Paz, viver obcecados por ela, pelo menos nestes dias de Ano Bom. Mas. Todos quere-la-ão efectivamente?”
E, em jeito de resposta, afirma: “Ainda se levantam, de todos os lados, os obstáculos que impedem a sua implantação, no meio dos homens. As estruturas capitalistas que possibilitam a exploração do homem pelo homem ainda vigoram activamente; a opressão e a mentira continuam; a alienação, seja ela de carácter religioso ou social, domina; as diversas classes estão solidamente estratificadas; os colonialismos, neocolonialismos e o imperialismo é que dominam o mundo. Para evitar a guerra e aguentar a «paz» lança-se mão dos armamentos e utiliza-se o equilíbrio do terror como força dissuasiva. Mas que paz?
“A nossa sociedade ainda separa, naturalmente, as pessoas – ricos e pobres, sábios e ignorantes, exploradores e explorados. O sentido de classe está ainda profundamente arreigado em muita gente. Os privilégios ainda são ciosamente guardados. O segregacionismo ainda é religiosamente cultivado. E estamos numa sociedade ocidental e que se arroga de cristã!
“Mas afinal quem é próximo? Certamente só quem está próximo e junto aos outros. Em tal perspectiva, todas as segregações, separações e divisões classistas não podem ter sentido. E, como tal, só haverá próximo, efectivamente, quando deixar de haver separações e classes sociais (…)
“Construir a PAZ é forçar as barreiras que a ela se opõem, lutar solidariamente com os explorados e oprimidos, com os que aspiram ansiosamente pela igualdade entre os homens. Construir a PAZ é estar contra o egoísmo estéril que só pensa nos seus interesses e nas suas satisfações pessoais, consumindo, loucamente, os bens duma sociedade de luxo; é criar condicionalismos que possibilitem uma implantação efectiva da paz; e defender o homem na sua dignidade e nos seus direitos, contra as formas de opressão e exploração.
O bispo contra os padres

O Jornal da Madeira de 26 de Abril de 1974, publicação propriedade da Diocese: na homilia de 1 de Janeiro de 1975, citada pelo jornal, Francisco Santana criticou a perspectiva de João Cruz sobre a paz.
“A paz é progresso e, por isso, para que ela se realize, têm de entrar em linha de conta todos os recursos do homem e da natureza. O crescimento, a libertação e a dignificação do Homem são condições essenciais à conquista da Paz. O aproveitamento de todas as capacidades humanas, a transformação profunda e, por vezes radical, de sistemas e determinados esquemas mentais, a fraternidade dos povos em luta pela libertação, a solidariedade dos oprimidos, o esforço de todos os que, pelo seu trabalho, fazem progredir o mundo, tudo são elementos basilares para a formação da nova História e da nova sociedade”.
Tal como fizera com a entrevista do padre Jardim Gonçalves, publicada no Diário de Notícias local a 26 de Maio de 1974, o bispo da diocese reagiria publicamente a este artigo do dr. João da Cruz. Fê-lo na homília proferida na Sé Catedral, nesse dia 1 de Janeiro, omitindo, porém, uma vez mais, o seu autor, embora não ficassem dúvidas a quem se referia, uma vez que repetiria, textualmente, expressões, frases constantes do texto em questão.
Segundo o relato do órgão da diocese, o prelado abordara “a construção do Mundo através da Paz, na concepção cristã de «Paz-Aliança» e em contraste com a «paz-luta» da dialéctica materialista”, afirmando: “Alguns querem uma Paz feita só de luta, uma luta cega, materialista, sem a visão de Deus, a Aliança com Deus, luta essa que acabará por destruir os próprios homens e nunca fabricará a Paz. Dizem que a Paz e a luta são conceitos inseparáveis, mas trata-se de uma visão dialéctica da vida e da sociedade. Para o cristão, porém, a paz não é só ausência de guerra, não é somente a ordem ou a desordem, estabelecidas; paz não é o descanso, como não é a quietude, a despreocupação ou a satisfação dos instintos ou ainda dos egoísmos estéreis desumanos. Paz é dinamismo! É alguma coisa diferente de uma simples luta. Ser cristão não é só ter um próximo igual a nós. Ser cristão e ser homem de paz é ter Deus como nosso próximo e com Ele estabelecer uma Aliança séria, sincera e profunda. Deus é Deus-Aliança e assim podemos dizer que a Paz é Progresso e o Progresso é Reconciliação”.
Francisco Santana tornar-se-ia conhecido por catalogar todos os sacerdotes da diocese que, de algum modo, adoptavam posições ou possuíam uma visão progressista do papel da Igreja na sociedade, com o epíteto de marxistas. Fazia parte da sua cartilha de “anti-comunista primário”. Uma das “vítimas” desta obsessão foi Sidónio Figueira, que o antístite pressionaria inúmeras vezes a que confessasse que era marxista – Sidónio Figueira tinha leccionado na Escola de Enfermagem do Funchal e, confrontado com um teste em que uma aluna admitia o recurso à interrupção voluntária da gravidez, não o desclassificou, considerando que do seu ponto de vista a posição fora solidamente sustentada, o que bastou para que também não escapasse ao rótulo de marxista.
“A sensação do dever cumprido”

João da Cruz Nunes numa foto reproduzida do Jornal da Madeira de 1 de Janeiro de 1965: “O que permanece é a consciência do trabalho que permitiu a tantos e tantas perderem o medo, libertarem-se da escravidão e de se terem tornado mais solidários.” Foto: Direitos reservados.
Quando, no final de Novembro de 1974, o núncio apostólico em Lisboa reporta a recepção de uma carta em que “a quase totalidade dos sacerdotes e religiosos” da diocese do Funchal tomam “a iniciativa de confirmar a fidelidade e união à Igreja, concretizando-a no momento presente, numa inequívoca declaração de apoio e comunhão com o seu Bispo”, a notícia não gera surpresa, atendendo à análise que a PIDE/DGS fizera relativamente à fidelidade da maioria desses sacerdotes ao antigo regime.
À conta dessa fidelidade e com a passagem ao estado laical de um conjunto de sacerdotes, nomeadamente João da Cruz, Rufino da Silva, Lino Cabral, Sidónio Figueira e Paquete de Oliveira, Francisco Santana ficaria com o caminho bem mais livre para contribuir, sobremaneira, para a entrega “abençoada” do poder ao partido “com as setas viradas para o céu” – no seio do presbitério a resistência activa a essa escandalosa promiscuidade ficaria limitada, praticamente em exclusivo, a Martins Júnior e a Mário Tavares.
Olhando retrospectivamente para esse período de vida comum, João da Cruz, no texto intitulado «Os Movimentos da Acção Católica Operária e a Autonomia» (livro A Madeira na História …) expressou um sentimento partilhado, certamente, por tantos outros: “E, agora, olhando para trás, não sinto o que se passou como passado, porque o passado não é tanto aquilo que passou, mas o que fica, o que permanece. E o que permanece é a consciência da realização dum trabalho que permitiu a tantos e tantas tomarem conta de si, perderem o medo ancestral, libertarem-se da situação de escravidão e de se terem tornado mais solidários, mais dignos e mais humanos. E sobretudo a sensação do dever cumprido e, por isso, de sentir-me bem comigo próprio.”
António Henrique Sampaio foi militante da Juventude Operária Católica e redactor d’O Comércio do Funchal. Este texto foi elaborado a partir de um livro que o seu autor tem em preparação, para o qual recolheu vários depoimentos citados.









