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O Pagador de Promessas, cinema, Anselmo Duarte, Dias Gomes

[Segunda leitura]

Pagadores de promessas e compradores de tudo

| 16/10/2023

O Pagador de Promessas, cinema, Anselmo Duarte, Dias Gomes

Imagem do filme “O Pagador de Promessas”, do realizador Anselmo Duarte, a partir de um livro de Dias Gomes com o mesmo título. Foto: Direitos reservados.

 

A notícia, que já não é nova (um exemplo antigo pode ver-se aqui voltou há dias aos jornais: temos, pelos vistos, grupos organizados de gente que arranja senhas de acesso aos diferentes serviços de algumas Lojas do Cidadão e que, depois, as vende a quem queira ou possa.

E como é que o fazem? Contratam pessoas para irem para a fila das senhas muito cedo (e muito cedo pode ser logo de véspera, o que significa passar ali a noite inteira…), conseguindo assim uma quantidade de acessos em hora razoável, que são vendidos por preços que podem chegar, imagine-se!, aos 100 euros.

E quem é que as compra? Quem não tem tempo ou vontade de passar umas horas numa fila da Loja do Cidadão – e, claro, quem pode dispor de dinheiro para pagar a alguém que vá para a fila na sua vez… Que é disso exatamente que se trata, não é? Com a agravante de que também neste negócio há intermediários. Quem organiza este tipo de ações (a tal “máfia” de que fala o jornal) deve pagar uns euritos miúdos às pessoas que vão passar a noite nas filas e, em contrapartida, fica com o grosso do lucro depois de vender as senhas aos interessados. Nada que não tenhamos já visto na generalidade dos negócios que fazemos: raramente é o produtor dos bens que recebe o justo preço, quase sempre é a rede de intermediários a ficar com a parte de leão daquilo que nós, consumidores finais, pagamos…

No fundo, também em termos genéricos se repete aqui aquela história que estamos fartos de ver e ouvir contada: quem tem dinheiro consegue coisas que quem não tem dificilmente consegue. Quem precisa de um serviço da Loja do Cidadão obriga-se a ir para a fila. E pode ter de lá ficar uma hora, duas horas, uma manhã, uma tarde, sabe-se lá… Quem precisa, levanta-se de madrugada e vai para lá, sabe Deus em que condições, à procura da tão almejada senha de acesso. E para o fazer vira, por vezes, a vida do avesso: ou falta ao trabalho, ou dá não sei quantas voltas, ou pede a alguém que fique com os filhos, ou isto… ou aquilo… Sempre um sarilho.

E quem tem dinheiro? Quem tem dinheiro, não. Não precisa de se levantar mais cedo, não precisa de faltar ao trabalho, não precisa de andar voltas e voltas para resolver o assunto. Dá apenas uma voltinha à sua carteira, tira de lá uma ou duas notas e compra o serviço. Compra a senha. Mas a senha é de graça, não é?… Pois é. Então não compra a senha; compra o trabalho de alguém que vai para a fila arranjar uma senha – e de mais alguém que organizou um esquema para ganhar uns cobres à conta de uma imaginativa “prestação de serviço”. E, aparentemente, fica toda a gente satisfeita: quem precisa da senha, quem ganha algum por a ir levantar, quem ganha mais algum por organizar as coisas… Capitalismo é mais ou menos à volta disto, não é? Só é preciso haver dinheiro e capacidade de, como se diz agora, empreendedorismo.

Lia isto e veio-me à cabeça a história mais antiga dos “pagadores de promessas”. Há um filme célebre sobre isso, um filme brasileiro, que até foi premiado com a Palma de Ouro em Cannes, nos idos de 1962. O filme é do realizador Anselmo Duarte, a partir de um livro de Dias Gomes (O Pagador de Promessas).

E até já houve também uma série de televisão, com atores brasileiros. Mas esta história de pagar promessas não é só dos filmes; é da vida real. E de cá, do nosso país. Há gente que é paga para pagar as promessas que outros fizeram. Isso mesmo. Hoje.

Como é que isto funciona? Simples. Há alguém que prometeu ir a Fátima a pé se obtiver determinada graça ou benefício. Tendo a coisa corrido bem, é altura de pagar a promessa. Mas ir a pé até Fátima não é fácil nem cómodo e nem sempre apetece… Por uma razão ou por outra, mais nobre ou mais pobre, a pessoa pode não estar virada para isso. Vai daí, contrata os serviços de um “pagador de promessas”… Isso mesmo! Há um senhor, cá em Portugal, que se dedica a este “serviço” há mais de 20 anos, já foi várias vezes à televisão explicar como tudo funciona (pode ver-se aqui ou aqui).

E parece não ser o único – consta mesmo que a concorrência no setor tem vindo a aumentar. Em tempos, uma ida de Lisboa a Fátima, a pé, custaria ao promitente uns 2.500 euros (não sei se com ou sem IVA, se com ou sem fatura). É caro? É barato? Opine quem queira.

O que eu sei é que é preciso ter dinheiro para isto. Quem não tenha, vai mesmo a pé até Fátima. Promessas são promessas, não é?… Quem tenha dinheiro, paga em notas aquilo que, em boa verdade, deveria pagar com sacrifício pessoal. Eu até gostava de saber de que modo as divindades a quem foi pedida a graça e a quem foi feita uma promessa encaram este… este… este negócio. Porque é de negócio que se trata, certo? Se as divindades outorgaram a graça esperando receber, como contrapartida, o esforço generoso de quem fez a promessa, mas em vez disso olham para a pessoa bem refastelada no seu sofá, enquanto uma outra criatura vai dar ao pé na sua vez, a troco de uns euros, achará bem?… Se fosse eu, dizia que não valia. Ou, na próxima, só aceitava promessas pagas antecipadamente: “Quer a graça? Primeiro vá a Fátima a pé e depois falamos!”. Fazia mesmo isso, que era para aprenderem que nem tudo se compra com dinheiro. Verdade?… Ou…?

 

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