
Em 2018, um terço das famílias numerosas vivia em situação de pobreza. Foto © Catarina Marcelino, cedida pela autora
Os adultos que integram os 1,7 milhões de pessoas em situação de pobreza em Portugal podem ser agrupados em quatro grandes perfis: “Trabalhadores” (32,9%); “Reformados” (27,5%); “Precários” (26,6%); “Desempregados” (13%), conclui um estudo divulgado nesta segunda-feira, 12 de abril, coordenado por Fernando Diogo para a Fundação Francisco Manuel dos Santos.
Estas categorias “têm alguns aspetos em comum”. Por exemplo, “o facto da maior parte dos indivíduos estar em situação de pobreza há muito tempo e de ter herdado essa situação dos seus pais”, ou ainda o facto de a grande maioria ter deixado “a escola precocemente e entrado no mercado de trabalho numa situação que hoje seria descrita como trabalho infantil”.
O livro apresentado é “uma síntese dos resultados obtidos no projeto Trajetos e quotidianos de pobreza em Portugal” que procurava responder “à seguinte pergunta: quem são e como vivem os pobres a sua situação de pobreza em Portugal?” Não se tratou apenas de uma recolha e interpretação dos dados estatísticos (os últimos dos quais referentes ao ano de 2018), mas de dar valor central “à história de vida, enquanto instrumento de recolha de informação fundamental, aplicado através de entrevistas semiestruturadas”.
É a partir dos dados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2017 que os investigadores liderados por Fernando Diogo definem aqueles quatro perfis e realizam 87 entrevistas privilegiando “a perspetiva diacrónica da história de vida” pois “a vida das pessoas, mais do que uma fotografia da situação atual, é um filme que implica revisitar episódios e trechos do passado para se compreender o momento presente.”
O estudo recorda os números da situação da pobreza em Portugal que, entre 2003 e 2018, “atingiu cerca de um quinto das pessoas em Portugal, embora com variações ao longo do período”, sendo que em 2018 perto de “11% de todas as pessoas empregadas em Portugal viviam em situação de pobreza” e “quase metade dos desempregados” partilhava dessa situação. Se se olhar para os lares portugueses conclui-se que, naquele ano, “cerca de um terço das famílias monoparentais e das famílias onde existem dois adultos com três ou mais crianças” viviam em situação de pobreza.
Comentando o estudo, em declarações à TSF, o padre Agostinho Jardim Moreira, da Rede Europeia Anti-Pobreza, defendeu que é preciso pensar no combate à pobreza juntamente com as pessoas com menos rendimentos e apostar na habitação, saúde e cultura: “Já se viu que não dá resultado dar apenas dinheiro e subsídios às pessoas e deixá-las abandonadas. É preciso acompanhá-las de perto para que sejam apoiadas de forma a que consigam acreditar que são capazes de viver e de intervir na vida social na sua autodeterminação e na sua autonomia económica.”









