Paixão de Cristo, confortai-me

| 10 Abr 20

(Título citado de Anima Christi, de Inácio de Loiola)

O crucifixo de São João da Cruz: “Jesus não nos salva graças à cruz. Salva-nos porque está vivo para sempre em Deus e é a base da nossa esperança”, escreve Juan Masiá.

Há pequenas capelas junto ao rio Douro e aos seus afluentes, próximas das aldeias, denominadas Senhor da Boa Viagem, representando Jesus crucificado. Memórias de tempos em que se cruzava o rio nas “barcas de passagem”, “com o credo na boca”, quer os barqueiros quer os passageiros.

Um observador atento verá que na mão direita de Cristo, o dedo indicador aponta “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo. 14, 6). Este pormenor, nestas pinturas esbatidas pelo tempo, transforma Jesus crucificado em consolação, em esperança da Ressurreição.

Afirma Juan Masiá na obra El que vive: “(…) Não tem mérito quem mais sofre, nem Deus envia a dor como castigo. Jesus não nos salva graças à cruz. Salva-nos porque, embora seja um crucificado inocente, está vivo para sempre em Deus e é a base da nossa esperança.”

Parece-lhe ouvir, ao autor citado, três palavras, ao olhar Cristo na cruz:

“Lucidez”, visto que os “maus” não foram só os que traíram e condenaram à morte Jesus; olhemos para nós, para os nossos pecados, cólera, desejo de poder, calúnia, petulância…

“Acolhimento”: “Não olhes para ti; olha para mim que te acolho, que te amo. Não te culpabilizes patologicamente.”

“Missão.” Cristo parece dizer: “Sobe até aqui, junto a mim (…). Olha para os outros, os que estão pregados noutras cruzes. Ajuda-os a descer da cruz.”

 

Soltando um grande brado, Jesus expirou (Mc 15, 37).

“Na hora da morte, deixa-a chegar; deixa-te levar”, escreve Juan Masiá em El que vive.

Este grito na cruz “é o grito do fim, da entrega do espírito”, comenta o teólogo jesuíta Juan Masiá. “(…) próprio do homem. Até quando, Pai, até quando? Porquê a mim? E desta maneira?” Semelhante à agonia de Jesus, em Getsémani. É um grito de queixa a um Deus silencioso que parece nem ouvir nem responder. Mas é também “(…) um grito de libertação, de entrega do espírito. Um fim que é um começo. É o hoje do presente da vida”.

Em Jo 19, 30, lê-se: “Tudo está consumado”, do latim consummatum, terminado. Mas no grego clássico, o vocábulo tem um significado diferente: tetélestai, cumprido, completado. Explica o mesmo autor: “A missão será continuada pelos discípulos, reunidos pelo Espírito de Jesus.”

“(…) João e Madalena, amparados pela Mãe de Jesus”, os três junto à cruz, fundam, pela vontade de Cristo, “a primeira comunidade eclesial”.

 

Maria Eugénia Abrunhosa é licenciada em Românicas e professora aposentada do ensino secundário; foi monja budista zen e integrou a Comunidade Mundial de Meditação Cristã.

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